XIV Congresso Internacional da Associação Brasileira de Literatura Comparada

Ementa - Simpósios Temáticos

Eleonora Ziller Camenietzki (UFRJ)
Irenísia Torres de Oliveira (UFC)

Na Formação da literatura brasileira, Antonio Candido relacionou o estabelecimento de uma esfera letrada especificamente literária no país com a força impulsionadora de um projeto nacional, que se esboçava desde o Arcadismo. Nesse sentido, a literatura brasileira surgia sob o traço dominante do empenho, ou seja, do desejo de intelectuais e escritores de criar para a nação uma instituição literária própria, com traços particulares que a distinguissem de outras literaturas nacionais, como a portuguesa, por exemplo. A consideração da relevância do projeto nacional na formação do sistema literário – mobilizando autores, obras e públicos – permitiu ver continuidades entre o Arcadismo e o Romantismo onde a história literária consagrara sobretudo rupturas, reações e conflitos, que existiam mas não explicavam tudo. Nesse processo, Candido descreve a formação de uma tradição literária brasileira, que se consolida com o aparecimento da obra de Machado de Assis, na qual já se pressupõem as obras de seus antecessores. Esse pressuposto em uma tradição ainda incipiente seria mesmo, para o crítico, uma das razões da qualidade da obra de Machado. Ao "assimilar, aprofundar, fecundar o legado positivo das experiências anteriores", o escritor lograra preservar sua independência em relação aos influxos das literaturas estrangeiras de prestígio e forjar um lugar próprio na dialética entre localismo e cosmopolitismo, que era talvez a dinâmica mais básica de nossa produção cultural erudita naquele momento. Roberto Schwarz parte da ideia de Candido, de um escritor do século XIX que faz obra genial por se situar adequadamente na dialética entre localismo e cosmopolitismo, e persegue essa dialética no plano mesmo da composição das obras de Machado de Assis. De maneira muito acurada, o crítico analisa como a forma literária dos romances internalizam essa dinâmica, que passa a organizar a matéria representada – a sociedade brasileira –, expondo-a, como se propunha o romance realista, a uma visada crítica. Sem se isolar do mundo e se provincianizar, ao contrário, fazendo literatura ostensivamente "universal", Machado conseguira trazer para o centro dos romances os problemas culturais e sociais brasileiros mais profundos, situando-os na atualidade do mundo contemporâneo, sem concessões ao amor próprio nacional, por um lado, nem ao prestígio europeu, por outro. Os estudos de Candido e de Schwarz fazem parte de um esforço mais amplo para analisar, descrever e compreender as relações históricas entre formas literárias e processos sociais, no contexto brasileiro, na periferia do capitalismo. Não é demais acrescentar que eles constituem um patamar alto nesse tipo de estudos, porque passam longe de toda forma de mecanicismo ou paralelismo no tratamento de literatura e sociedade e impressionam pela independência em relação a jargões e métodos prévios. Sem forçar a nota, pode-se aproximá-los, no campo de suas contribuições e temáticas, a autores da tradição de crítica marxista, como Georg Lukács; da Teoria Crítica, como Walter Benjamin e Theodor Adorno; da crítica de orientação comparatista e histórica, como Erich Auerbach; assim como a importantes referências nos estudos materialistas de cultura, como Raymond Williams e o historiador E. P. Thompson. A proposta deste simpósio é acolher estudos que se situem no esforço de compreensão da dinâmica cultural brasileira, pressupondo assim uma concepção social e histórica das produções e formas artísticas. Numa ampla gama de eixos temáticos possíveis, pretende-se abarcar reflexões que indaguem os termos, passados e presentes, do funcionamento de um sistema literário brasileiro, assim como de uma historiografia da literatura brasileira, comparando diferentes modelos de abordagem crítica do assunto; a extensão e os limites do conceito de cultura, tendo como referência a tradição crítica materialista; o problema, recorrente, da relação campo-cidade na formação da literatura, da cultura e da sociedade no Brasil, moderno e antigo, discutindo o alcance e os limites do regionalismo, assim como os termos críticos para se pensar a experiência urbana na literatura brasileira, enfocando com cuidado as décadas mais recentes, em que o assunto ganha contornos novos, dada a acelerada urbanização e modernização do país; a formação da moderna poesia brasileira, tendo como campo de forças a relação entre arcaico e moderno, tradição e ruptura, o velho e o novo configurando o material elaborado pelos poetas do nosso país; a relação entre cinema e literatura, música e poesia. Pretende-se com isso incrementar o acúmulo crítico e divulgar pesquisas sobre produções da literatura e da cultura brasileira, em sua relação com o universo da modernidade e da contemporaneidade, do ângulo dialético que concilia a consideração das formas estéticas e culturais a especificidades de processos sociais passados e presentes.

Anita Martins Rodrigues de Moraes (UFF)
Alfredo Cesar Barbosa de Melo

O simpósio "O Brasil e o Sul Global" tem como objetivo discutir, em caráter exploratório, possíveis caminhos para os estudos de literatura comparada no Brasil, levando em conta a crescente importância dos debates em torno da inserção do Brasil no Sul Global. Pretendemos examinar paradigmas alternativos para o comparativismo brasileiro, na tentativa de compreender a cultura brasileira para além do bastante produtivo paradigma da formação, focado na autonomia das formas literárias brasileiras frente ao centro europeu. Ao dar um sinal positivo na diferença da cultura brasileira diante da Europa – algo que os modernistas haviam já feito no plano artístico –, a geração de críticos literários da segunda metade do século XX talvez tenha dado, dessa maneira, sua mais valiosa contribuição aos estudos de literatura comparada no Brasil: a relativização da hierarquia entre centro e periferia. Construíram assim o grande paradigma do comparativismo brasileiro: o paradigma da antropofagia modernista, da ressignificação do legado cultural europeu por parte do letrado brasileiro, visto agora como ativo e autônomo produtor de cultura. Lembremos que na Formação da Literatura Brasileira (1959) Antonio Candido sugere ser Machado de Assis um atestado de maturidade do sistema literário nacional justamente por ter se valido dos esforços de romancistas brasileiros anteriores, como José de Alencar e Manuel Antonio de Almeida. Assim, a literatura brasileira se revela formada quando uma tradição interna se instala. Por ter um substrato literário próprio – nacional – do qual partir, Machado teria tido melhores condições que seus predecessores, tornando-se menos dependente das literaturas estrangeiras e, por essa mesma razão, podendo dialogar melhor com elas (evitando a cópia servil). Visibilizando processos importantes, este paradigma da formação tende, parece-nos, a privilegiar o momento da autonomização em detrimento do momento da relação entre literaturas. Algo semelhante pode ser visto na obra de Roberto Schwarz, que já no seu primeiro estudo de fôlego sobre Machado de Assis, disserta sobre "as ideias fora do lugar". Todo o argumento do famoso ensaio de Schwarz está estruturado em bases comparatistas. Para Schwarz, o liberalismo seria uma ideologia de segundo grau pois, no Brasil, o discurso liberal não apresentava qualquer verossimilhança ao tentar mascarar o processo social de exploração. Na Europa, o discurso liberal correspondia às aparências da vida social, precisando da contra-intuição de um Marx para revelar a sua lógica; enquanto no Brasil, devido à escravidão, a qualquer transeunte o discurso liberal soaria grotescamente falso. A partir desse arcabouço conceitual eminentemente comparativo, Schwarz estuda as dificuldades de importação do romance no Brasil – sobretudo na obra de José de Alencar – para finalmente analisar a maneira como Machado de Assis consegue transformar gradualmente os pressupostos sociais do Brasil – bastante diversos dos europeus – em triunfos formais do melhor romance brasileiro (SCHWARZ, 1977, p. 13-26). Outro crítico que, ao longo da segunda metade do século XX, se debruçou sobre esse mecanismo de diferenciação da forma literária brasileira frente aos modelos europeus foi Silviano Santiago. No seu clássico ensaio "O entre-lugar do discurso latino-americano", Santiago teoriza sobre esse estatuto secundário ou derivativo geralmente atribuído às culturas periféricas como a brasileira. Combatendo as noções de fonte e influência – que haviam marcado até então a disciplina da literatura comparada –, Santiago argumenta que "[a] maior contribuição da América Latina para a cultura ocidental vem da destruição sistemática dos conceitos de unidade e pureza" (SANTIAGO,2000, p. 16). Empregando o conceito barthesiano de "obra escrevível", Santiago argumenta que o escritor latino-americano está sempre produzindo "a partir de uma meditação silenciosa e traiçoeira" sobre o texto europeu, contaminando-o e transformando-o em algo novo (SANTIAGO, 2000, p. 20). Neste simpósio, estamos propondo pensar a relação do Brasil com o mundo além dessa polaridade (centro versus periferia; Brasil versus Europa; ex-colônia versus ex-metrópole). Seguindo a sugestão de Silviano Santiago (2013), entendemos que é chegado o momento de pensar a literatura brasileira menos em termos de formação – conceito muito vinculado à ideia de autonomia diante das potências culturais – e mais em termos de inserção do Brasil no mundo, levando em conta outras possíveis relações do Brasil com outras culturas que não aquelas centrais. Temos, pelo exposto, interesse em: 1) discutir apropriações e reelaborações do paradigma da formação para estudo de outras literaturas periféricas e de suas relações, prevendo-se o debate crítico deste mesmo paradigma; 2) discutir as aproximações teóricas contemporâneas entre estudos pós-coloniais e comparativismo; 3) lidar com trânsitos e trocas culturais Sul-Sul, visibilizando estes fluxos. Abordagens comparativas entre literatura brasileira e literaturas africanas, literatura brasileira e literaturas asiáticas e literatura brasileira e hispano-americanas são bem vindas, assim como reflexões teóricas sobre a moldura comparativa que busca abarcar as dinâmicas relações Sul-Sul. Referências bibliográficas: CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira. Belo Horizonte: Itatiaia, 1997. SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos. Rio de Janeiro: Rocco, 2000. __________. Aos sábados, pela manhã. Rio de Janeiro: Rocco, 2013. SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas. São Paulo: Duas Cidades, 1977.

Betina Rodrigues da Cunha (UFU)
Márcio Araújo de Melo (UFT)

Ao abrir espaço para as instigantes interrogações a respeito da palavra e do poder da imaginação criadora – desenhando novos e inesperados caminhos que organizam os projetos particulares da sensibilidade contemporânea, dinâmicos e plurais ao mesmo tempo – a narrativa moderna ocidental instiga inúmeras reflexões e questionamentos, carregados de leituras possíveis a interpretar o estar no mundo e suas amplas relações, bem como suas representações. Jean-Yves Tadié (1992), em importante obra sobre a narrativa, postula que o romance moderno vai de uma afirmação a uma negação, de uma identidade a uma pluralidade, de uma certeza a uma dúvida, chegando mesmo a interrogar quem é o autor, quem é o "outro" que com ele dialoga, insistindo, muitas vezes em tomar seu lugar; enfim, o que é o narrar, o que é o narrado, o que é o leitor literário, o que é a circulação e os fluxos dessas narrativas modernas; em última análise: "Haverá então uma narração pura, uma voz sem ficção?" A partir dessas considerações e de seus desdobramentos, a proposta do Simpósio "Narrativa moderna em questão" encontra justificativa no interesse de sugerir e de tornar visível ao leitor e à crítica literária, sutilezas da produção literária narrativa no bojo da literatura contemporânea ocidental, sobretudo no que diz respeito ao modo como as temáticas e estruturas narrativas encontram sua concretização na produção literária moderna. Nesse sentido, esse Simpósio pretende reunir trabalhos, pesquisas e olhares sobre a narrativa moderna que procuram provocar a uma nova expedição: a de buscar novas trilhas, a de enxergar as fontes que fazem desdobrar palavras em sentidos, a de enfrentar mundos ainda não vislumbrados. Portanto, e em face dos desafios que a ficção tem imposto, estabelecemos o objetivo maior para esse simpósio: perseguir o entendimento de mais um aspecto constitutivo das obras narrativas contemporâneas, buscando observar as características e as formas de representação na ficção que possam vir a contribuir para a compreensão dos elementos narrativos e como estes se organizam dentro da modernidade, inclusive com suas ambiguidades, seus deslizes, seus recuos e seus avanços. Interessa-nos a substância constitutiva do processo fabulativo, as peculiaridades do narrador da obra literária, sua constituição e sua pluralidade, a questão do espaço do real e da ficção; bem como nos interessa a recepção crítica dessa obra literária, sua circulação e consumo, dentre outros elementos que vão apoiar a Teoria Literária no entendimento e análise de narrativas contemporâneas. Dessa forma, afinados com a proposta principal da ABRALIC para este Congresso, almeja-se que as discussões sobre a narrativa moderna, promovidas por esse Simpósio Temático, possam contribuir para o debate, no âmbito da Teoria da Literatura, sobre a circulação dessa literatura, sobre suas implicações e desdobramentos junto ao pensamento teórico-crítico. _________________________ 1 - TYADIÉ, Jean-Yves. O romance no século XX. Lisboa: Publicações Don Quixote. 1992. p. 19

João Cezar de Castro Rocha (UERJ)
Silvana Oliveira (UEPG)

Neste simpósio propõe-se uma hipótese: o tipo de texto que denominamos literatura talvez possa ser entendido como a consequência, não necessariamente planejada, de uma série de disputas discursivas, ocorridas desde a Grécia clássica. Dissemos literatura, mas talvez fosse mais preciso sugerir que se trata de efeito determinado de certos discursos, historicamente situados e, sobretudo, recebidos de uma maneira especial. Vale dizer, num conceito emprestado à teoria biológica contemporânea, e usado com fecundidade por Niklas Luhmann na elaboração da teoria do sistema social, trata-se de um caso típico de emergência: o surgimento de um terceiro sistema pode ocorrer a partir do encontro de dois outros, cuja soma de elementos não permitiria prever o aparecimento da nova configuração. Sem dúvida, sua constituição depende da existência prévia dos dois sistemas, cuja acoplagem favorece a emergência de um novo feixe de relações. No entanto, a dinâmica desse terceiro sistema é própria e, se ela surge em função das inúmeras possiblidades criadas pelo cruzamento dos dois primeiros, ela também desenvolve aspectos peculiares e toma rumos singulares que não se podem reduzir àqueles dois sistemas. Como se percebe, a ideia de emergência dispensa a noção de essência, assim como de causalidade linear, demandando uma reconstrução detalhada das configurações em tela. Esse ponto é decisivo, implicando a necessidade de um olhar particularmente atento à especificidade das relações textuais deste ou daquele momento histórico. Assim, em lugar de um postulado teórico tautologicamente transformado em monótono leito de Procusto, o corpo a corpo com a materialidade dos textos se impõe como método necessário. Imaginemos, agora, esse efeito no plano discursivo: o confronto ou contraste entre discursos diversos pode produzir a emergência de uma forma verbal própria, cuja definição sempre incluirá o nível da recepção, já que esse discurso não se define por si mesmo, porém pelo efeito derivado de uma constelação discursiva definida no seio de uma polêmica. Ora, o único meio de avaliar tal efeito consiste em valorizar a pluralidade das recepções engendradas pelo próprio efeito. O procedimento não é tautológico porque ele conduz para fora do texto, por assim dizer, embora sempre o faça através de uma textualidade específica. Tal forma, eis o ponto a ser discutido neste simpósio, pode estar na origem do que chamamos literatura. Nessa discussão, o anacronismo deliberado borgiano revela potencial propriamente teórico. Portanto, compreende-se a relativização contemporânea da ideia de literatura, não mais vista como um discurso infenso à passagem do tempo, porém como uma etiqueta comodamente aplicada a formações verbais muito distintas entre si. Neste simpósio, propomos o problema de maneira inicial, sugerindo um núcleo de polêmicas discursivas que pode ter jogado um papel-chave na caracterização do modo de elaborar mundos denominado literatura. A disputa inaugural ocorreu entre os sofistas e a tríade Sócrates-Platão-Aristóteles tem peso decisivo neste simpósio. Contudo, outras disputas discursivas ajudam a constituir nossa hipótese. No século XVIII, osregistros discursivos da nascente disciplina da história e da literatura polemizaram: como definir a prerrogativa de lidar com uma nova percepção do tempo histórico, que explode com toda força no Oitocentos? No século XIX, a emergente disciplina da sociologia e a literatura palmilham a realidade nova das grandes metrópoles, buscando compreender suas formas inéditas de convívio. Émile Zola e Émile Durkheim disputam, cabeça a cabeça, o triunfo. No século XX, a nascente disciplina da psicanálise e a literatura encontram-se na exploração da subjetividade: como mapear o território invisível das motivações mais ocultas? Freud parte quase sempre da literatura, ou mesmo da fala de seus pacientes, para elaborar sua trama conceitual, erigida em método de cura das enfermidades da alma. Como compreender a "literatura entre discursos"? Poderíamos pensar que a literatura seria antes de tudo um efeito discursivo e não um discurso em si mesmo? Além disso, ela somente se realiza na recepção, mas não depende exclusivamente dela, pois a potência textual também pode favorecer ou constranger esse efeito. Assim, podemos historicizar as práticas discursivas e talvez preservar um componente metahistórico, pois não se trata de um conteúdo cristalizado numa forma discursiva específica, porém de uma potência acionada por discursos, mas que, em si mesma, não chega a corporificar-se num discurso. Tal é o horizonte das preocupações do simpósio "Literatura entre discursos: polêmicas e decisões de sentido".

Danielle Cristina Mendes Pereira (UFRJ)
Marcelo Almeida Peloggio (UFC)

O simpósio tem por finalidade abordar as relações entre as instâncias da memória e da literatura. Pretende-se implementar discussões e reflexões a partir da perspectiva do discurso literário como uma potência produtora e reformuladora de aspectos capazes de impactar a modulação de imagens relativas à memória em suas múltiplas dimensões. A proposta do debate sobre as diversas formas pelas quais o fenômeno literário estabelece figurações em torno da instância da memória conecta-se à intenção de abrir o diálogo sobre os elos entre a memória e a literatura com pesquisadores que direcionem os seus processos de investigação para o estudo de obras literárias, nacionais e/ou internacionais. Assim, a representação simbólica no texto literário das relações entre o tempo e a memória apresenta-se como um caminho de indagação convergente às nossas proposições. Do mesmo modo, a análise do papel da literatura frente à consciência da construção de identidades, implementada pela modernidade já a partir do século XIX, em sua fricção com as tessituras das figurações da memória, arvora-se como uma via de questionamento alinhada às intenções reflexivas aqui expostas, bem como a representação das tensões possíveis entre o tempo e a subjetividade, a percepção da memória como cruzamento entre a esfera individual e a coletiva e a modulação de novas imagens em relação ao passado através da literatura, em suas implicações e complexidades. Ao tomarmos como base a multiplicidade de conceitos produzidos em torno da ideia de memória em tempos e espaços diferentes, podemos apontar múltiplas concepções, presentes nas narrativas literárias, a partilhar visões de mundo e a simbolizar percepções do real. Isso significa a possibilidade de pensarmos a memória como um elemento que se pode fazer presente através da imaginação. Como suporte de memória, o discurso literário permite o recorte de determinadas visões a orientar as formas de pensar o mundo, em uma dinâmica através da qual a literatura expõe a sua capacidade de alimentar uma série de tradições culturais, vinculadas aos processos de tessitura da memória, em uma série de representações simbólicas nas quais a imaginação e a memória dialogam. A partir das ideias de Pierre Nora, em seu livro Les lieux de mémoire (1993), é possível tomar o conceito de "lugar de memória" como um caminho para a nossa compreensão dos elos entre os múltiplos meios de organização da memória pelas figurações literárias. Seria coerente considerar o discurso literário como um "lugar de memória" por ser este uma construção artificial, livre e independente, dado o seu caráter ficcional, de referentes fixos da realidade; trata-se, pois, de um objeto simbólico e potente em um mundo no qual são exigidos locais de memória por não mais haver, justamente, "meios de memória", segundo as pesquisas de Pierre Nora. A obra literária é capaz de tornar públicos os discursos alimentadores das imagens relativas à memória; é, logo, uma fonte preciosa de divulgação de falas, sejam as relacionadas ao mainstream, sejam as que rompem as tentativas de silenciamento erguidas por elementos vinculados ao desejo de manutenção das imagens das memórias oficiais, pois o poder da palavra literária vislumbra a reordenação ficcional de tal imagética. Essa divulgação pode garantir a sobrevivência da palavra escrita ou, ao menos, a promessa de disseminação das imagens circulantes no texto, as quais poderão atuar na geração e expansão de outras, em variados textos. Portanto, compreendemos como fundamental a discussão acerca da capacidade do discurso literário para estabelecer e, par e passo, absorver e recriar visões circulantes sobre os modos de conceber as potências do que seria passível de compreender como a realidade, em um movimento de retroalimentação perene entre o artístico, o simbólico, o imaginário e o real, no que concerne às formas de simbolizar os seus processos de construção. Nesse sentido, afirma-se como extremamente relevante os estudos e debates cujas abordagens contemplem o lugar ocupado pela literatura no que diz respeito aos usos da memória, ao papel do homem no mundo e às pluralidades de um real indefinido e oblíquo, em consonância com a percepção da experiência estética como essencial e com poder para impactar as maneiras de abordar a realidade e a arte, como postulada por Walter Benjamin em sua obra. Esperamos, pois, com o nosso simpósio, alcançar diálogos frutíferos em torno da intricada relação entre a memória e a literatura, o que impõe um pensamento atento a sua complexidade.

Ana Claudia da Silva (UnB)
Valéria Angélica Ribeiro Arauz (UFMA)

Os estudos sobre a pobreza têm ganhado, nas últimas décadas, mais espaço no âmbito dos estudos literários. Ela tem sido abordada em textos já clássicos, como o de Geremeck (1995), que apresenta o mundo da miséria e da pobreza representado na literatura dos séculos XIV ao XVIII, e também naqueles reunidos por Roberto Schwarz sobre a pobreza na literatura brasileira, em 1983, temática retomada pelo crítico na obra de 1990. Apontando para os estudos subalternos (ou da subalternidade), temos também a contribuição de Spivak (2010), que aponta a necessidade de que sejam criados mecanismos para que a voz do subalterno – ou seja, aquele que está excluído do mercado e da representação política – se articule e seja ouvida, tarefa na qual a literatura tem papel relevante. Na condição de subalternidade encontra-se grande parte das personagens de uma certa literatura de língua portuguesa, cujos autores fazem questão de representar literariamente os socialmente excluídos ou marginalizados. Trata-se de um grupo heterogêneo, composto de cegos, velhos, crianças, mulheres, analfabetos, gordos, doentes, negros, homossexuais, delinquentes, subempregados, pobres, loucos e tantos mais, cujo denominador comum é a carência ou a presença exígua daquilo que Candido (1995) chamou de bens incompressíveis, sem os quais não há vida humana em sua plenitude. Entre esses, Candido inclui a fruição da literatura e da arte, não só pelo seu aspecto formal, que organiza o caos humano interior, mas igualmente pela sua capacidade formativa da intelectualidade, do juízo e do afeto, sem os quais não há transformação social. Esse grupo de personagens representa uma multidão de pessoas cuja voz tem sido historicamente silenciada pelo poder excludente e violento das classes dominantes. Contudo, apesar de invisibilizada, contida e alijada dos centros de poder, essa marginália sempre teve, historicamente, a função de legitimar o poder estabelecido, garantindo os interesses das elites. Considerando, com Candido (1972), a função social e humanizadora da literatura, que consiste em expressar o homem e também em atuar na sua formação, observamos que certas narrativas se tornam espaços de resistência e salvaguarda desse conjunto de pessoas, cujas representações lhes conferem espaço, dignidade e poder. Conscientes de seu papel como agentes de intervenção política e resistência social, seus autores abordam os conflitos humanos advindos da tensão entre ética, norma e conduta, ora afirmando, ora negando as possibilidades de transformação social e de superação da condição de marginalidade que priva as camadas populares de direitos humanos inalienáveis. A margem, tradicionalmente designada como o espaço distante do centro, periférico, também foi referida, por Santiago (2000) como um entre-lugar em que a desconstrução dos discursos soberanos pode ser plasmada, dando origem a uma representação "antropófaga" que transforma o outro em si mesmo, fortalecendo os laços entre as ex-colônias portuguesas da América e da África. Emergem, desse entre-lugar, vozes fortes, que conseguem, à força de muitas alianças que sustentam atos de resistência cultural, fazer ouvir seu grito de denúncia e oposição aos discursos autoritários. Esse mesmo espaço Mudimbe (1988), chamou de marginal, redefinindo a margem como o lugar intermediário das estruturas dicotômicas (colonizador-colonizado, antigo-moderno, local-global, entre outras), cuja existência prejudica a ilusão de desenvolvimento e ordem que o discurso dominante pretende forjar. No caso das ex-colônias portuguesas, essa margem torna-se espaço de resistência política. Bosi (2002) lembra que a ação de resistência que se depreende das narrativas se realiza em duas instâncias: a temática e aquela própria do processo de escrita. Maingueneau (2001) explica que o processo de composição literária reproduziria as relações presentes na sociedade, mas também seria parte constituinte de uma construção social. No discurso literário (entendendo a Literatura como um uso pragmático da linguagem) abrir-se-ia espaço para a construção de sujeitos, identidades e da própria sociedade. Assim, ao pensarmos em marginalidade, temos a ideia de que as vozes afloradas pelo discurso literário podem tomar a vez e ser ouvidas, principalmente se houver espaço de recepção para esse discurso. Assim, os efeitos alcançados pela literatura assumiriam uma função social. Consequentemente, não se poderia pensar um grupo social periférico ou excluído sem observar, de um lado, os textos literários produzidos por essa cultura - tanto aqueles canônicos quanto os ditos marginais –, de outro, aqueles em que essa marginália vem sendo representada, apontando as estratégias (formais, temáticas) dos autores para dar voz a essa alteridade. Neste simpósio, queremos discutir, a partir de estudos literários comparados, as diferentes representações da marginalidade social em narrativas contemporâneas de língua portuguesa e também o papel da literatura enquanto espaço de restituição da dignidade humana no conjunto das literaturas brasileira, portuguesa e africanas de língua portuguesa. Estas são aqui entendidas como partícipes de um mesmo macrossistema literário (ABDALA JUNIOR, 1998), no qual circulam não apenas uma língua comum, atualizada em diferentes matizes nacionais, mas também modelos, formas e temas que indicam a permanência e/ou a alternância de estruturas políticas, históricas e sociais comuns aos países de língua portuguesa.

Luci Ruas Pereira (UFRJ)
Otávio Rios Portela (UEA)

A crise finissecular, que se instala e atua sobre a sensibilidade de certas elites intelectuais da Europa, a partir da qual se constrói aquilo a que chamamos "imaginário crepuscular", teve Paris como o seu principal centro de irradiação e revelou-se na literatura decadentista-simbolista. Não se mostrou, porém – nem poderia -, alheia às grandes transformações que se operam no âmbito das artes plásticas, de que decorrem os grandes movimentos vanguardistas que interferiram decisivamente sobre o que seria, no século XX, a chamada arte moderna. Também não ignorou o que definiu a atmosfera musical, que teve com Débussy e Wagner, entre outros, a responsabilidade de revolucionar o que até então se produzia.

De acordo com Vítor Viçoso, "a designação de 'fim-de-século' não seria apenas uma mera cronologia, mas um horizonte cultural com as suas expectativas, interrogações e símbolos peculiares". Em 1883, Paul Bourget, nos Essais de Psychologie Contemporaine, seria um dos teorizadores da decadência estética que se articulava com o pessimismo, cujas raízes estariam na inadequação entre o homem e o meio, fruto da própria complexidade civilizacional. O tédio, esse 'monstro delicado', inundara a literatura coetânea como o preço a pagar pelos benefícios do 'progresso'. Entre os eslavos, esse mal-estar revelava-se pelo niilismo, entre os germânicos, pelo pessimismo e, entre os latinos, por solitárias e bizarras nevroses.

Nietzsche diria, em O Caso Wagner (1888), que a obra musical deste seria um típico produto da nevrose. No que se refere à decadência literária, como modelo extensivo a todas as artes diria: «A palavra torna-se soberana e salta para fora da frase, a frase vem sobrepor-se e escurece o sentido da página, a página ganha vida à custa do todo – o todo deixa de ser um todo. Mas isto é a imagem para cada estilo de décadence: sempre anarquia dos átomos, desagregação da vontade. 'Liberdade dos indivíduos', moralmente falando – e, alargado a uma teoria política: 'os mesmos direitos para todos'»

Com Des Esseintes, o protagonista de A Rebours (1884), Huysmans faz emergir na ficção romanesca francesa o modelo do herói decadente, representante inquestionável da crepuscularidade finissecular, da crise de valores que percorria o mundo em acelerada transformação tecnológica, social, política e cultural. Contra a ortodoxia cientista, segundo a qual o romance devia funcionar como um exercício de sociologia prática, fundando a sua metodologia no modelo das ciências exatas, os «decadentistas» exaltavam a Arte como religião e a própria vida deveria tornar-se, enquanto estilo diferenciador, num puro ato estético. Deste modo, a elite decadentista-simbolista constituía com a sua aura esteticista e aristocratizante uma reação aos valores burgueses dominantes. Esta ruptura com o mundo burguês é acompanhada, por outro lado, por uma hiperbolização do artificial contra os determinismos rotineiros da natureza. É, pois, sob o signo do culto do eu, da magia metafísica dos símbolos, da sacralização da Arte e da própria vida como ato estético que o movimento rompe com o paradigma naturalista-positivista, embora o imaginário decadente seja em parte herdeiro das patologias sociais reveladas pelo romance naturalista, em função dos determinismos da hereditariedade e do meio.

Neste simpósio, propomos abordar textos de poetas e romancistas que deixaram obra significativa, mas pouco abordada pelos estudos críticos da Literatura Portuguesa e Literaturas de Língua Portuguesa, no período compreendido entre as duas últimas décadas do século XIX e as duas primeiras do século XX. A estas acrescentamos as últimas do século XX, quanto a modernidade tardia vem trazer ao contexto literário outros problemas de toda ordem, que refletem as mudanças que se operam no mundo contemporâneo. O ponto de partida é ideia de ruína, "procedimento alegórico privilegiado que se manifesta na literatura de feições decadentistas, para a qual os conceitos de alegoria, história e narração são peças-chave". Objetiva-se, neste caso, verificar como os movimentos finisseculares e as consequentes imagens que povoaram o "imaginário crepuscular" se manifestam e orientam a produção desse período, criando as bases sobre as quais a modernidade se instala na Literatura Portuguesa, de que a obra de Mário de Sá-Carneiro, por exemplo, é tributária. Alargando o seu espectro, pretendemos pôr em questão as relações entre literatura e outras artes, tendo como ponto de partida o texto literário – poesia ou narrativa –, objeto sensível à intervenção de outras linguagens artísticas (as das vanguardas, por exemplo), abrindo espaço para que se opere a relação intersemiótica.

Referências Bibliográficas:

AUERBACH, Erich. Mimesis. São Paulo: Perspectiva, 1976.
BENJAMIN, W. Charles Baudelaire, um lírico no auge do capitalismo. São Paulo: Brasiliense, Obras Escolhidas, vol. III, 1989.
CALINESCU, Matei. As cinco faces da Modernidade: Modernismo, Vanguarda, Decadência, Kitch, Pós-Modernismo. Lisboa: Veja, 1999.
CLÜVER, Claus. Estudos interartes – conceitos, teorias, objetivos. In: Literatura e sociedade. n. 2. São Paulo: Edusp, 1997.
COUTINHO, Luiz Edmundo Bouças & MUCCI, Latuf Isaias (Org.). Dândis, Estetas e Sibaritas. Rio de Janeiro: Confraria do Vento, 2006.
DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Editora 34, 1998.
______. A imagem sobrevivente. São Paulo: Contraponto, 2013.
MANGUEL, Alberto. Lendo imagens. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
MORÃO, Paula. Salomé e outros Mitos – O Feminino Perverso em Poetas Portugueses entre o Fim-de Século e Orpheu. Lisboa: Cosmos, 2001.

Verônica Lucy Coutinho Lage (UFJF)
Moema Rodrigues Brandão Mendes (CES/JF)

Desenvolver o olhar crítico e diferenciado do leitor por meio de práticas e possibilidades de leituras das diversas linguagens. Considerar o movimento interdisciplinar e transmidiático na Literatura. Refletir sobre propostas estéticas, identificando valores ligados à cultura e suas especificidades na construção identitária do homem, enquanto sujeito social. Interagir leitura, texto e leitor. Relacionar a linguagem do escritor com a do leitor na construção de signos. Destacar a Literatura e a constituição do simbólico. Propor releituras contemporâneas da Literatura nas mídias. Experenciar a natureza e o lugar da literatura na sociedade contemporânea. Investigar as realizações literárias que se abrem a estudos comparatistas em amplo diálogo com outras Literaturas.

Tarsilla Couto de Brito (UFG)
Alice Maria de Araújo Ferreira (UnB)

Os últimos 50 anos do século XX conduziram os estudos literários a uma crise sem precedentes (CASANOVA, P., 2005; DEJEAN, J., 2005; LEVINSON, B., 2001; MARX, W., 2005). O Estruturalismo nos ensinou a desconfiar da história literária; desconfiança que se justificava, por um lado, por sua associação com projetos nacionalistas; e, em termos apenas aparentemente contraditórios, por sua associação com projetos supratemporais e a-históricos de um cânone que deveria sustentar ideias de verdade e essência da tradição. O mesmo aconteceu com a crítica literária, atividade que ficou estigmatizada no imaginário como um tipo de erudição arrogante que se manifesta narcisisticamente sem rigor e sem finalidade. Um sintoma da crise: em 1996, a professora Leyla Perrone-Moisés perguntava em artigo publicado na Folha de São Paulo "Que fim levou a crítica literária?" (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/8/25/mais!/14.html). Todo seu texto questionava a pauta do Congresso da Associação Internacional de Literatura Comparada previsto para 1997 na cidade de Leiden, Holanda. Para Leyla Perrone-Moisés, se a literatura permanecesse restrita à ideia de "Memória cultural", a crítica literária perderia sua razão de ser. Tal reação da Teoria da Literatura no Brasil consagrava o alcance de uma área que vinha se desenvolvendo com força e consistência. Os Estudos Comparados vieram contrapor-se ao pretenso universalismo da Teoria e propunha o princípio da alteridade como o critério de leitura que daria voz a literaturas e discursos não oficiais e não universais das ex-colônias da Europa (SOUZA, R. A. 2006). Desse embate entre o universal e o particular, entre a essência e a contingência, até mesmo as obras literárias passaram a ser questionadas. A desconfiança dos modos de representação praticados sob a rubrica da literatura foi resultado da convergência de todas as críticas feitas aos estudos literários anteriormente: pelos serviços prestados à consolidação de identidades nacionais (crítica feita à história e à história da literatura); pela manutenção de valores apresentados como essenciais para dominação de uma classe ou de uma ideologia (crítica feita também à história da literatura e, ainda, à crítica literária quando essas atividades precisam se haver com o problema do cânone); pela supervalorização das noções de indivíduo, de subjetividade, de identidade, de visão de mundo, de representação e de estilo – noções condenadas porque ignorariam o fato de que o mundo seria construído pela linguagem e que o EU não passaria de um conjunto de discursos determinados e determinantes (FREADMAN, R.; MILLER, S., 1994). Não é gratuito que importantes pensadores da literatura da contemporaneidade, em algum momento da virada do século XX para o XXI, preocuparam-se em escrever textos como A literatura em perigo (Tzvetan Todorov, 2009), Literatura para quê? (Antoine Compagnon, 2009). Em vez de aceitar a morte da literatura, este simpósio vem propor a reinterpretação desses fenômenos como sinais de uma transformação cultural em que a poesia, o drama, as narrativas de ficção, bem como os discursos que se voltam sobre eles continuam a jogar um papel importante. O princípio de nossa proposição encontra-se na definição de exílio elaborada por Edward Said: "um estado de ser descontínuo" (Reflexões sobre o exílio, 2003). Nessa formulação, o universal e o particular, que, em oposição, fizeram a crise da literatura e dos estudos literários ao longo do século XX, estão de tal modo tensionados em uma identidade contraditória que um não pode ser compreendido sem o outro. O estado (universal, essência, categoria fixa) de exílio caracteriza-se pelo descontínuo (pelo particular, pelo provisório, pelo contingente). Se a contradição constitui nosso prossuposto ela será também nosso método e nosso objetivo. A missão intelectual do exilado, dizia Said, seria recusar a linguagem como jargão, ou seja, recusar que a linguagem, especialmente a literária, apague as diferenças produzidas pelos homens e para os homens. Assim, convidamos a discutir conosco todos aqueles que se dispõem a ler como quem está em exílio, em estado de descontinuidade, perseguindo, agarrando, sentindo e fazendo aparecer a diferença. Trata-se, efetivamente, de aproximar as fronteiras da Teoria da Literatura e dos Estudos Comparados, sem a intenção de reduzi-las a uma só coisa, mas com a finalidade de colocá-las em um tipo de tensão em que o leitor já não possa dizer "eu" ou "o outro", que se sinta no "perigoso território do não pertencer" (SAID, op. Cit., p. 50). A originalidade do ponto de vista do exílio resgata a vitalidade da crítica literária como uma percepção de dimensões simultâneas – corporal, material, prática; ressalta a importância dos trabalhos em torno da tradução atenta às línguas em errância; pressupõe a formação de subjetividades no contexto contigente das experiências de coletividade, de estranhamento e de territorialidade. Para a crítica do exílio, o mundo todo é experimentado como uma terra estrangeira. Pois, como nos alerta Edward Said, "o exilado insiste ciosamente em seu direito de se recusar a pertencer a outro lugar" (op. Cit., p. 55). Referências Bibliográficas: CASANOVA, Pascale. A república Mundial das Letras. São Paulo: Estação Liberdade, 2005. COMPAGNON, Antoine. Literatura para quê? Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2009. DEJEAN, Joan. Antigos contra Modernos: as guerras culturais e a construção de um fin de siècle. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. FREADMAN, Richard.; MILLER, Seumas. Re-pensando a teoria: uma crítica da teoria literária contemporânea. São Paulo: Editora UNESP, 1994. LEVINSON, Brett. The Ends of Literature: The Latin American "Boom" in the Neoliberal Marketplace. The Standford Press, 2001. MARX, William. L'adieu À La Littérature. Histoire D'une Dévalorisation, XVIIIe-XXe Siècle. Paris: Minuit, 2005. PAGEAUX, Daniel-Henri. Musas na encruzilhada: ensaios de Literatura Comparada. São Paulo: Hucitec; Santa Maria: Ed. UFSM, 2011. SAID, Edward. Reflexões sobre o exílio e outros ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2003 SOUZA, Roberto Acízelo de. Iniciação aos estudos literários. São Paulo: Martins Fontes, 2006. TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Tradução Caio Meira. Rio de janeiro: DIFEL, 2009.

Sonia Regina Aguiar Torres da Cruz (UFF/CNPq)
Adolfo José de Souza Frota (UEG)

Ao longo do século 20, a questão do humano/humanismo articulou-se com debates sobre a modernidade – entendida aqui como uma rede de histórias diferenciadas que não produz um quadro uniforme. As humanidades vêm enfrentando a crise da emergência de novos paradigmas, a partir de Freud e Marx e do nascimento da antropologia – sendo que esta última, juntamente com a teoria da desconstrução, informa as perspectivas feministas, os estudos de gênero e pós-coloniais. Mais recentemente, pós-humanistas anunciam nosso devir como humanoides híbridos. No século 21, esses novos paradigmas refletem-se mais do que nunca na literatura contemporânea, sobretudo em revisões históricas e estéticas, que fazem parte do que entendemos por conhecimento. O conhecimento pode dar-se a partir da formação e informação de diversas disciplinas, mas, ao fim e ao cabo, requer a estruturação da cena humana. No simpósio sugerido, propomos repensar a cena humana e a produção do conhecimento a partir de uma conversação em torno da r(a)epresentação literária de projetos de modernidade e de conceitos como utopia, memória e pós-humano. A "crise da esperança" tem sido descrita como uma condição social de nosso tempo. Em um sentido amplo, podemos descrever essa crise como um sentimento de impotência diante de forças poderosas, incontroláveis – tanto naturais (aquecimento global, mudanças climáticas, ameaça de desastre ecológico) quanto sociais (mercado de capital global, decisões políticas opacas). A busca de alternativas para um mundo regido pelo capitalismo global em que organizações sociais e econômicas tradicionais se transformam rapidamente, gerando insegurança e desigualdades cada vez mais gritantes, faz com que surja com uma nova urgência, em meio à crise da esperança, a possibilidade da utopia. As utopias, na tradição cultural ocidental, foram concebidas a partir de um modelo de ordem final, unitária – segundo Gianni Vattimo (2006, p. 18), uma herança da noção de origem (arché) e de unidade da metafísica. Tal modelo, na atualidade, é visto como instrumento de hierarquias de poder, tornando-se necessário repensar a utopia. Através de que recursos narrativos a literatura contemporânea faz uma revisão crítica de projetos da modernidade, como a utopia, sugerindo novas formas de expressá-la com características mais em conformidade com nossa contemporaneidade "pós-metafísica"? (cf. VATTIMO, 2006, p. 18) Dentro da proposta de simpósio, consideramos o papel da memória no discurso utópico, uma vez que a crise da esperança se manifesta como uma crise da memória refletida no problema da perda da identidade. Isso porque "[a] memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia" (LE GOFF, 2003, p. 469, grifo do autor). Ana P. G. Ribeiro e Marialva Barbosa (s/d, s/p) sugerem que a modernidade "inaugura um novo regime de memória" como se quiséssemos "ancorar um mundo em mobilidade e transformação" aceleradas. Já David Harvey (2000), em Spaces of Hope, argumenta que a utopia diz respeito à realidade de forma dialética. O geógrafo cultural sugere que todo período histórico cria condições para a emergência de ideias e valores que incluem, de forma condensada, as tendências e os desejos não-realizados de determinada sociedade. Esse "utopismo dialético", para tomar emprestado o termo do próprio Harvey, registra o potencial histórico que de fato existiu, mas que não aconteceu, necessariamente, em dado momento histórico. Sendo assim, a memória articula-se com a utopia, na medida em que não inclui apenas o que aconteceu, mas estende-se para o que poderia ter acontecido: visões, expectativas e sonhos fazem parte de nosso repertório mnemônico, nos convidando a pensar sobre como projetos descartados da modernidade se articulam com modernidades presentes, nos instigando a imaginar o futuro. Nesse sentido, tanto as textualidades que revisitam o passado quanto aquelas que imaginam o futuro (cf. JAMESON, 2005) – como a ficção científica, de especulação, fantástica ou weird – constituem um espaço produtivo para "trazer a crise à tona" (SPIVAK, apud ZOURNAZI, 2002, p. 173). Um número crescente de pesquisas sobre o humano tem tido a atenção voltada para trabalhos nas áreas de inteligência artificial, neurociência, biologia, bioinformática, genética etc., em busca de uma compreensão contemporânea dos atributos humanos. Vale lembrarmos as teorias que concebem o upload da consciência humana para o computador, as experiências com primatas e as pesquisas com células tronco, nanotecnologia, robótica, e o próprio Projeto Genoma Humano. Todas essas abordagens, frequentemente calcadas na materialidade do humano, têm implicações sérias para nosso entendimento da existência humana. De que maneira podemos situar e valorizar a representação, a linguagem e o estético em relação ao conhecimento gerado pelas ciências sociais e naturais? Por outro lado, de que formas o conhecimento gerado por essas ciências pode ser entendido no contexto da cena humana da representação? REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS HARVEY, David. Spaces of Hope. Berkeley: U of California P, 2000. JAMESON, Fredric. Archaeologies of the Future: The desire called utopia and other science fictions. London: Verso, 2005. LE GOFF, Jacques. História e memória. Trad. Irene Ferreira et al. Campinas: Editora Unicamp, 2003. RIBEIRO, Ana Paula Goulart; BARBOSA, Marialva. "Memória, relatos autobiográficos e identidade institucional". Disp. http://www.portcom.intercom.org.br/pdfs/20145177780296057242616140954116236043.pdf Acessado em 01/08/2014. VATTIMO, Gianni. "Utopia Dispersed". Diogenes, v. 53, n. 1, Feb. 2006, p. 18-23. ZOURNAZI, M. Hope: New Philosophies for Change. Annandale, Australia: Pluto Press Australia,2002.

Fabio Figueiredo Camargo (UFU)
André Luis Mitidieri Pereira (UESC)

Este Simpósio do XIV Congresso Internacional da ABRALIC defende a necessidade de leituras políticas ou simbólicas de todo e qualquer elemento constitutivo dos estilos e modos de vida homossexuais, da forma como são trazidos ao debate por distintas produções artísticas, culturais e discursivas. Visamos assim retirá-las do anonimato, do silêncio do cânone ou de interpretações fossilizadas, do apagamento da sua existência nas políticas culturais, que as difundem como lugar de acolhimento da anomalia ou do estereótipo. Há uma arte de temática homoerótica que defende caminhos para as questões afetivas dos sujeitos ex-cêntricos, trabalhando com o artifício, com o onírico, com o impuro, com o abjeto, com os excessos, tematizando o "amor que não ousa dizer seu nome", e não perde de vista as questões humanas de um modo geral, mesmo quando trata do caso de um mínimo eu se interessa em ser uma produção que se dirige a todos os seres humanos. O homoerotismo tem sido um tema prolífico para a literatura e para as outras artes, possibilitando aos artistas a criação de muitos textos sobre o sujeito dito desviante, perverso, desde casos de ilustração de perversões, conforme se pode ver claramente na produção literária de fins do século XIX, até se chegar aos textos produzidos por homossexuais assumidos advindas dos 1970, que não são publicados apenas para homossexuais lerem. A arte de temática homoerótica tanto masculina quanto feminina, produzida por sujeitos homoeroticamente orientados ou não, mas tendo como tema central, em sua maioria, relações afetivas de sujeitos homoeroticamente orientados serve de base a discussões as mais diversas. Embora essa arte esteja presente ao longo da história da humanidade, ela passa a ser estudada a partir dos anos 1980, tendo no Brasil deslanchado a partir da produção de um grupo de estudiosos capitaneado por José Carlos Barcellos na Universidade Federal Fluminense. Muitas vezes vista como arte produzida por marginais para um público marginalizado e falando desse mesmo público, as expressões homoculturais na arte foram relegadas a um lugar de ex-centricidade e, muitas vezes, salvo raras exceções, excluídas da chamada "arte séria". O simpósio se interessa em discutir essa marginalização e as relações entre a produção homocultural e a sociedade que a produz, levando em consideração seu contexto histórico. As representações da homocultura estão ligadas diretamente a códigos de conduta de seus produtores – escritores, pintores, fotógrafos, escultores, músicos, cineastas dentre outros –, e do público, o que nos leva à urgência dessa proposta, pois o preconceito que os sujeitos homoeróticos ainda sofrem pode ser minimizado a partir da análise das representações de sujeitos homoeroticamente orientados, pois estudar sobre elas é um modo de entender e produzir discussões acerca da possibilidade de reduzir os danos perpetrados pelo patriarcado com relação a esses sujeitos. Há uma grande dificuldade de aceitação do que seja homoerótico em todos os níveis da cultura, remetendo sempre essa produção a um espaço de degradação, de decadência da própria arte. A produção homocultural não está inteiramente voltada para o público gay, mas existe uma quantidade de obras para os vários tipos de público existentes em um país de poucos leitores como o Brasil. Essa produção estaria nas representações de figuras gays, de espaços, de gêneros literários, de temas como a masturbação, o voyeurismo, a pornografia e a promiscuidade. O simpósio insiste em obras literárias e expressões culturais (das artes plásticas, do cinema, da história, do espaço biográfico, das mídias, da música etc.) que conduzam leitores e receptores a se identificarem com suas personagens, seus dilemas, suas angústias, dores, carências afetivas e sexuais. Neste sentido, aceitaremos propostas de estudos críticos, históricos e teóricos, da cultura e da literatura, que identifiquem os papeis das masculinidades e feminilidades ao longo do tempo, além de abordarem as homossexualidades e o universo queer, bem como as identidades gays, lésbicas e transgêneras. Contemplaremos a problematização e os desvios às alianças heteronormativas, juntamente com falas sobre a homofobia, o bullying, as homoconjugalidades, as políticas de coming out, o preconceito, a solidão e as uniões afetivas intergeracionais. Temos como principal objetivo reunir pesquisadores dos modos de subjetivação do desejo homoerótico em diversas comunidades linguísticas, nacionais, regionais, esperando contribuir para a consolidação e o reconhecimento da homocultura a partir das formas por intermédio das quais se representem, lado a lado com textualidades e hipertextualidades correlatas.

Hermano de França Rodrigues (UFPB)
Aristóteles de Almeida Lacerda Neto (IFMA)

Com o texto Luto e Melancolia, Sigmund Freud confere ao mundo uma teorização seminal, ainda hoje referência para a clínica e para a cultura, sobre os enigmas de uma das expressões mais radicais e autênticas da dor de existir, do padecimento proveniente de nosso desamparo primordial, de nossa insuficiência constitutiva. Nas sinuosidades da melancolia, habitam perdas alheias à consciência, angústias de aniquilamento, impulsos flageladores do próprio desejo. O eu melancólico transborda-se, arruína-se, deflete a agressividade para si mesmo, para quem odeia, para quem, em delírio, confunde-se com o algoz. Mune-se das mais arcaicas defesas e, num ritual inconsciente de antropofagia, em defesa de si mesmo, sorve o objeto amado, perdido, para sempre, em um tempo e espaço que lhe escapam à razão. Ao contrário do sujeito enlutado, cujas memórias ao amante ausente vão, aos poucos, perdendo seu investimento libidinal, o que consente ao Ego retomar sua busca por novas ligações afetivas, o melancólico soçobra o tempo, desliga-se dele e de tudo aquilo que poderia separá-lo do ente que, por um tempo, preservou-lhe a vida. Sem cair em paradoxismos, subsiste na ameaça de sua própria existência, premido entre a instância mnemônica do passado e a miragem letífera de um futuro, num espaço alucinatório de um instante fustigador, incerto e inconsistente. Quiçá resida, no caráter dobradiço do presente, o apreço do melancólico pelo outrora, seu apelo à transitoriedade, seus arroubos destrutivos frente aos fios da esperança, tão frágeis desde a origem. Como projeção, o futuro acede ao lugar da dúvida, do incógnito e, por que não dizer, da morte. Constitui uma construção espectral necessária porquanto instaura possibilidades de realização do desejo. Sob a orientação desse fantasma, percorremos os mais oblíquos caminhos, a fim de impender à promessa do gozo absoluto (anseio continuamente fadado ao malogro). O artifício – longe de representar um fracasso – assegura-nos suportar as falhas da vida, tão latentes e recrudescidas à percepção melancólica, da qual decorre um registro niilista do futuro. O porvir adquire, na arquitetura do desabamento psíquico, traços persecutórios. Daí, as distintas tentativas de ignorá-lo, o gesto de vilipendiá-lo a favor da adesão ao Outro, deslocado, entrementes, para dentro de si, a salvo dos efeitos mortíferos do tempo póstero. Tal contextura aparece, com constância, nas letras literárias, arte hábil em tecer, em profusões de linguagens, os movimentos inconscientes do espírito humano. A submissão à palavra é a mais singela disposição ao engano, a mais suave expressão da falta. O engenho literário ludibria o próprio artífice que, perdendo-se nos labirintos das cadeias significantes, regula e mantém, em desequilíbrio, o compasso do desejo. Orquestrados pela melancolia, os signos artísticos passam a contornar a desordem pulsional, num empreendimento defensivo do Eu para evitar, numa fuga onipotente à escrita, o colapso completo de si mesmo. O labor estético lança sobre as fraturas do self uma quase imperceptível camada de verniz, sensível em encobrir os sulcos ocasionados pelo agir desobjetalizante de Thanatos, destinado a expurgar e a extinguir aquilo que se tornou intolerável. Se a letra falha (e ela sempre naufraga e, por consequência, alçamos ao campo da insatisfação estruturante), as pulsões respondem, introduzindo, na elasticidade do significante, objetos relacionados às experiências primevas de satisfação. Fantasias orais, escópicas, anais ou fálicas ressurgem, de maneira a atribuir sentido à indispensável frustração do homem, sentenciado, desde o nascimento, a vagar errante à procura de um objeto e de um status há muito perdidos. O uso da palavra, ao render-se às flutuações do símbolo, subtrai o gozo e dá contorno aos apelos e demandas ao Outro. Sua incompletude funda a condição desejante do sujeito, a qual reivindica a presença de um eleito, alvo de amor e gratidão ao suprir as exigências do Ego, assim como depositário de ódio e agressividade, quando desencadeador de privações. Essa ambivalência integra o curso natural da vida e concorre para os acidentes imperiosos da alma que marcam a singularidade do sujeito na cultura. Na qualidade de acontecimento subjetivo, o trajeto está longe de configurar um mandamento imposto a todos e, portanto, extravios são habilidosamente desenhados. A melancolia é, pois, um roteiro transviado, seguido por aquele que, na aurora dos tempos, teve seu pedido de autonomia e reconhecimento negado, ignorado, esquecido. Resulta, dessas considerações, a proposta deste Simpósio Temático: congregar pesquisas (concluídas ou em andamento) que, numa interlocução entre literatura e psicanálise, busquem analisar as dimensões representativas da melancolia, de modo a compreender as imagens e os discursos que a cercam, bem como as configurações que assumem em determinado momento da história social e literária. Com vistas a enriquecer o debate e as discussões, as investigações podem debruçar-se sobre a poesia, o conto, o romance, a carta, a narrativa de viagem, entre outros gêneros. REFERÊNCIAS BERLINK, Luciana Chaui. Melancolia – rastros de dor e de perda. São Paulo: Humanitas, 2008. FREUD, SIGMUND. Luto e melancolia. In: Obras Completas, v. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1976. KEHL, Maria Rita. O tempo e o cão – a atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo, 2009. KRISTEVA, Julia. Sol negro – depressão e melancolia. Rio de Janeiro, Rocco, 1989. SCLIAR, Moacyr. Saturno nos trópicos – a melancolia europeia chega ao Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 2003.

André Dias (UFF)
Rauer Ribeiro Rodrigues (UFMS)

A proposta do simpósio é examinar a manifestação da dissonância nos discursos literários, para discutir o modo pelo qual os mais variados autores se constituíram, através desses discursos, como vozes questionadoras de seus tempos e de suas sociedades. O tema está associado aos artistas e intelectuais que analisaram de maneira profunda aspectos primordiais das mais variadas épocas e construíram uma crítica aos valores presentes nessas realidades sociais. A ideia central é abrir espaço para o diálogo entre pesquisadores que concentram o olhar sobre autores e intelectuais que divergiram das ideologias dominantes, na poesia e na prosa, nos mais variados momentos históricos, nacionalidades ou segmentos sociais. O que se espera é que os trabalhos apresentados discutam, entre outras questões, o problema teórico do intelectual frente às variadas ideologias, quer sejam elas hegemônicas ou não, e o problema histórico dos escritores diante do status quo, manifestado no âmbito da política, da moral, dos costumes, da economia, etc. Mikhail Bakhtin falando sobre o grande tempo histórico e o trabalho dos escritores chama atenção para o seguinte fato: "o próprio autor e os seus contemporâneos vêem, conscientizam e avaliam antes de tudo aquilo que está mais próximo do seu dia de hoje. O autor é um prisioneiro de sua época, de sua atualidade. Os tempos posteriores o libertam dessa prisão, e os estudos literários têm a incumbência de ajudá-lo nessa libertação" (BAKHTIN, 2003, p. 364). Sendo assim, ao abordarmos a temática Literatura e Dissonância temos clareza de que todo autor, para o bem e para o mal, é antes de tudo um homem de seu tempo. Aos que se ocupam da investigação literária lhes cabe a tarefa de, dialogicamente, atualizar os diversos discursos literários produzidos nos mais variados tempos e espaços históricos. Sobre a criação romanesca Bakhtin adverte que "o autor-artista pré-encontra a personagem já dada independentemente do seu ato puramente artístico, não pode gerar de si mesmo a personagem – esta não seria convincente" (BAKHTIN, 2003, 183 – 184). Em outras palavras, nenhuma personagem é fruto do gênio criador de um autor adâmico, pois a matéria de memória da literatura está no mundo social, local de onde os escritores extraem os motivos para criar. De maneira análoga, a palavra do outro é fundamental para a tomada de consciência de si e do mundo, conforme aponta ainda Bakhtin: "como o corpo se forma inicialmente no seio (corpo) materno, assim a consciência do homem desperta envolvida pela consciência do outro". (BAKHTIN, 2003, p. 374). Dessa forma, as premissas bakhtinianas apresentadas aqui fundamentam o desenvolvimento das nossas reflexões e ajudam a ampliar os sentidos das análises. O fórum, observada a perspectiva da dissonância no âmbito de estudos de literatura e do comparativismo, acata propostas que vão desde o enfoque do ensino da literatura à discussão teórica dos fluxos, correntes, trânsitos e traduções literárias. De modo que, seja no âmbito das territorialidades cujos limites se esvaem diante da instantaneidade das comunicações globais, seja no âmbito do regional esvaziado no mesmo diapasão em que os conceitos de literatura e de literariedade vigentes nos séculos XIX e XX perdem sentido com as realizações e as propostas estéticas dos autores do século XXI, procura-se o dissonante na antiga ordem hierarquizada, no recente e finado mundo bipolar ou no universo multilateral que se instaura. Há que se considerar, ainda, estudos comparativos entre autores que, mesmo distantes no tempo e no espaço, fixam a seu modo o questionamento de valores hegemônicos, constituindo uma família literária pela vinculação da rebeldia e da inquietação. Do ponto de vista da historiografia literária, qualquer que seja o modo analítico proposto, os problemas se sucedem, pois os últimos anos têm sido de deslocamento incessante dos postulados teóricos, cujos embates com o mundo concreto vem sendo cada vez mais inglórios, considerando a acelerada mutabilidade das circunstâncias sociais, políticas, históricas e das representações simbólicas, no âmbito das artes em geral e da literatura em particular. Levantar questionamentos, de preferência contundentes, e, eventualmente, produzir alguma conclusão, ainda que dissonante e provisória, é o que se espera alcançar. Referências Bibliográficas BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. Trad. Paulo Bezerra. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003. BOSI, Alfredo. Literatura e resistência. São Paulo: Cia das Letras, 2002. DIAS, André. Lima Barreto e Dostoiévski: vozes dissonantes. Niterói, RJ: Editora da UFF, 2012. SARTRE, Jean-Paul. Que é literatura? Trad. Carlos Felipe Moisés. São Paulo: Ática, 1989. TEZZA, Cristovão. Entre a prosa e a poesia: Bakhtin e o formalismo russo. Rio de Janeiro: Rocco, 2003. TEZZA, Cristovão. O espírito da prosa: uma autobiografia literária. Rio de Janeiro; Record, 2012. VARGAS LLOSA, Mário. A verdade das mentiras. Trad. Cordelia Magalhães São Paulo: ARX, 2004.

Hugo Lenes Menezes (IFPI)
Elizabeth Gonzaga de Lima (UNEB)

O homem, dentre outras faculdades, possui linguagem, a qual corresponde a uma habilidade simbólica e abrange todos os tipos de significação: da linguagem das abelhas à verbal, que é a espécie de comunicação humana por excelência, passando pela mímica, musical, pictórica e cinética, para ficarmos nesses exemplos. E uma das questões de maior evidência no campo em foco é a do texto, cuja importância advém do íntimo relacionamento que ele mantém com o ser humano, a realidade e a expressão, pois é através do texto que expressamos a nossa relação com o mundo e com os outros, ou seja, "o homem textualizando, significando o real, se significa" (CASTRO, 1985, p. 31). Desse modo, podemos entender que não só as comunicações verbais, mas também quaisquer manifestações de linguagem são passíveis de serem concebidas como textos. Isso porque o vocábulo texto pode ser tomado em dois sentidos: texto lato sensu é "qualquer tipo de comunicação realizado através de um sistema de signos" (FÁVERO; KOCH, 1988, p. 25), como uma fotografia, uma música, ou um poema; texto stricto sensu equivale a "qualquer passagem, falada ou escrita, que forma um todo significativo, independente de sua extensão" (FÀVERO; KOCH, 1988, p. 25). Tal fenômeno ocorre pelo processo de tradução, inerente à humanidade, a começar pela percepção circundante, através do que os dados da realidade, quando aportam ao intelecto, são traduzidos em signos, de onde surgem outros processos fundamentais, como a comunicação e o raciocínio. Em semelhante contexto, a crítica estético-literária, na condição de leitura e (re)escrita especializada, representa uma modalidade de tradução, podendo ser essa, igualmente à crítica, tão criativa quanto a elaboração de uma obra de arte verbal ou não-verbal, não obstante o lugar-comum de serem o crítico e o tradutor escritores frustrados, ideia contestada, no caso específico do crítico, por Bella Josef, em seu ensaio O jogo mágico (1980), em que ela faz uma curiosa abordagem acerca do encantamento do jogo da linguagem criativa, particularmente, a literária, da qual são intérpretes tanto o crítico quanto o tradutor. Em se tratando da tradução intersemiótica, daquela referente a mais de uma semiose, estamos diante da transposição de um sistema significante a outro: por exemplo, do literário ao cinematográfico ou ao televisivo, atividade mais conhecida por "adaptação". Entendida aqui a tradução tout court como um processo de (re)criação, a tradução intersemiótica revela-se uma (re)criação de maior ousadia e complexidade. Uma ilustração da prática ocorre com produções escritas reeditadas mediante códigos rebentos da ficção seriada oitocentista. Entre tais códigos, encontra-se a história em quadrinhos. Essa, que flerta com a sétima arte, origina as fotonovelas, que, juntamente com os quadrinhos, roubam do romance-folhetim as páginas nas revistas. E o mencionado gênero romanesco se insinua via fita-em-série norte-americana. Outrossim, o romance em causa também vem a público como radionovela e novela de televisão, de onde a última, usualmente, ser denominada "folhetim eletrônico". Assim sendo, no simpósio ora proposto, objetivamos reunir pesquisadores que abordam as relações comparatistas entre literatura, leitura e mídias; os diversos processos culturais, enquanto formas de tradução, em meio às confluências que se revelam entre o discurso estético-verbal e as demais linguagens criativas. Até porque, em nossos tempos, a mundialização, ou globalização, aprofunda, a um só tempo, a integração e a diversidade cultural dos povos, realçando aspectos étnico-religiosos e regionais. No Brasil, entre 1960 e 1970, com o boom das teorias literárias imanentistas, a apreciação especializada da criação artística verbal tende a se distanciar da investigação da conjuntura histórico-cultural e a se concentrar no texto em si. Porém, após o final da década de 1980, com o debate acerca da memória coletiva, voltam a crescer os juízos de valor atentos à relação do autor e a sua obra com o contexto social. Por isso, desejamos, com a constituição de um grupo de trabalho, promover discussões a respeito da interculturalidade em prosa e verso, preferencialmente, em literaturas de regiões de falantes da língua portuguesa, em especial no Brasil, na África e na Europa, incluindo autores como Oswald de Andrade, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto e Fernando Pessoa, em sua tradução e em sua recepção crítica por analistas do quilate do brasileiro Benedito Nunes, também autor de textos de filosofia, narrativas ficcionais e poemas, ao lado de contemporâneos e conterrâneos seus, como Ruy Barata, Paulo Plínio Abreu e Max Martins, além de ser autor de críticas sobre outras manifestações artísticas, a exemplo da teatral. Ainda dentro da temática em epígrafe, isto é, a relação entre literatura e outras linguagens criativas: traduções e confluências, são bem-vindas, ao simpósio apresentado, comunicações referentes a autores como Lima Barreto, Inglês de Sousa, Bernardo Guimarães, José de Alencar, Machado de Assis, Alexandre Herculano, Almada Negreiros, Almeida Garrett, Al Berto, Camilo Castelo Branco, Cesário Verde, Eça de Queiroz, Júlio Dinis, Mia Couto, Pepetela, entre outros do vernáculo e de línguas estrangeiras. Referências Bibliográficas CASTRO, Manuel Antônio de. Natureza do fenômeno literário. In: SAMUEL, Rogel (Org.). Manual de teoria literária. Petrópolis: Vozes, 1985. FÁVERO, Leonor Lopes; KOCH, Ingedore G. Villaça. Texto e discurso. In: Linguística textual: introdução. São Paulo: Cortez, 1988. JOSEF, Bella. O jogo mágico. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980. MAYER, Marlyse. Folhetim: uma história. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. PLAZA, Julio. Tradução intersemiótica. São Paulo: Perspectiva, 2003.

Aparecida de Fátima Bueno (USP)
Lisa Carvalho Vasconcellos (UFBA)

É notável e significativo que o vasto território que denominamos como cultura portuguesa – quer seja na forma ensaística da crítica literária e da investigação histórica, quer seja no campo das artes plásticas, da literatura ou do cinema – vem se ocupando, majoritariamente, da difícil tarefa da revisitação dos traumas e das memórias daquele que foi, sem dúvida, um dos períodos mais duros da história do país, a Guerra Colonial e seus desdobramentos internos e externos, coletivos e individuais. Nesse contexto, a elaboração do passado colonial se impõe como um dos principais temas da vida portuguesa contemporânea.

Como se sabe, Portugal foi um dos últimos países da Europa a manter possessões coloniais na África. Só em 1974, com a Revolução de Abril e depois de longos e sangrentos combates que se arrastaram (a custos altíssimos) desde o início dos anos 1960, as antigas colônias de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde adquiriram a sua independência. A violência usada para conquistar, povoar e manter subjugados esses territórios e seus povos durante séculos (com a intensificação da exploração tomando fôlego no século XX) não poderia deixar de gerar traumas profundos tanto nos portugueses quanto nos africanos. As mortes, as perdas e a mutilação de milhares de jovens; as violências, o aprisionamento e as torturas cometidas contra os insurgentes; além do impacto social dos Retornados são alguns dos temas ligados ao processo de descolonização da África portuguesa que assombram ainda hoje lusitanos e africanos das ex-colônias, impondo-se, por esse motivo, como matéria fundamental para artistas e estudiosos da vida econômica, política e cultural dos países envolvidos. Dizendo mais claramente: as artes portuguesas e africanas tem se dedicado sistematicamente à elaboração discursiva, e também psicanalítica, é possível dizer, de um trabalho de luto que ainda está por se completar. Contemporaneamente, tanto as letras como a filmografia portuguesas são ricos em exemplos nesse sentido. No universo da literatura poderíamos nos lembrar de nomes como o do romancista António Lobo Antunes, cujos romances O esplendor de Portugal (1995) e Comissão das Lágrimas (2011) são modelos do que afirmamos. Dentre a produção mais recente, poderíamos destacar ainda o trabalho da escritora Isabela Figueiredo e seus Cadernos de Memórias Coloniais (2008), que aqui se soma, entre outros, aos muitos poetas (consagrados e desconhecidos) que estão reunidos na importante Antologia da Memória Poética da Guerra Colonial (2011), volume organizado pelos pesquisadores Roberto Vecchi e Margarida Calafate Ribeiro. No cinema, por sua vez, recordamo-nos de Tabu (2012), de Miguel Gomes, Natureza Morta (2005) e 48 (2009) de Susana Sousa Dias e Fantasia Lusitana (2010) de João Canijo, algumas das obras centrais nesse processo de recuperação da memória dos conflitos e de reflexão sobre os seus fundamentos e persistências.

Dada a complexidade da questão e as suas muitas implicações políticas e sociais (que incluem, é preciso reconhecer, resistências de todo tipo a uma compreensão crítica das violências experimentadas no período), faz-se necessário entender em profundidade o papel da arte e do pensamento nesse contexto, especialmente nas últimas duas décadas, quando a urgência do tema se estabeleceu com cada vez mais força no cenário do pensamento social europeu e latino-americano. O presente simpósio se propõe a estudar, e pensar de modo integrado, o cinema e a literatura em suas múltiplas manifestações, entendendo-os como lugar privilegiado para a elaboração das perdas e das violências praticadas, e também da construção de perspectivas futuras.

Postas as coisas assim, gostaríamos de convidar professores e pesquisadores das Letras, em especial da Literaturas de Língua Portuguesa e dos Estudos Comparados, além de pesquisadores de áreas afins como a História, a Antropologia, as Artes e as Ciências Políticas para que possamos, na soma dos esforços e pontos de vista, construir um debate amplo e multifacetado sobre a questão. Para efeito da organização do simpósio, sugerimos os seguintes temas de trabalho, em torno dos quais as propostas enviadas poderiam se mover, na medida em que se relacionem ao cinema ou à literatura portuguesa: 1. Recordações e reencenações da Guerra Colonial; 2. O processo da Revolução dos Cravos; 3. Representações da vida nas prisões e campos de concentração portugueses na costa africana (Tarrafal e Ilha das Galinhas, entre outros); 4. Arquivos do salazarismo e das instituições coloniais; 5. A questão do testemunho no mundo de língua portuguesa.

Rosilda Alves Bezerra (UEPB)
Alcione Correa Alves (UFPI)

O simpósio Afro-latinidades e diásporas do Atlântico, em uma primeira formulação de seus objetivos, pretende abrigar comunicações orais que proponham problemas de pesquisa postos a partir da noção norteadora de afro-latinidade. Tais comunicações, no âmbito deste simpósio, acolherão trabalhos que dizem respeito a pesquisas em Estudos Literários, seja concluídas ou em andamento, buscando examinar e dissertar sobre apropriações e construções identitárias, a partir de dois eixos: a) relativas a suas representações nas literaturas africanas contemporâneas, notadamente nas literaturas africanas de língua portuguesa, embora não apenas a estas; e b) relativas a suas representações nas literaturas afro-americanas (ou, conforme o aporte teórico de cada comunicação, nas literaturas negras americanas), tomadas preferencialmente a partir de e desde um lugar americano. Também podem ser acolhidas, no âmbito deste simpósio, comunicações orais que abordem o problema de pesquisa mediante recurso ao conceito de diáspora, dizendo respeito às formas de trânsito, de travessia, de migração estabelecidas, a partir do século XVI, entre os continentes africano, europeu e americano: neste caso, privilegia-se pesquisas centradas no advento da escravização de populações africanas nas três Américas, assim como seus corolários em construções identitárias afro-americanas verificáveis nas literaturas das três Américas e do Caribe, seja em línguas de origem africana (como, por exemplo, o papel da língua créole em uma história possível da literatura nas Antilhas, no Haiti), seja em uma das línguas ocidentais presentes nas obras literárias negras americanas (notadamente o espanhol, o francês, o português e o inglês). Também serão acolhidas, nos domínios deste simpósio, comunicações orais que busquem problematizar a abrangência e/ou os limites críticos postos às noções e conceitos centrais em jogo: por exemplo, comunicações que exponham limites próprios ao conceito de diáspora, rumo a uma compreensão das literaturas afro-americanas; ou, por outro viés, pesquisas que examinem os limites ao conceito de literatura afro-brasileira (conforme, por exemplo, a definição do pesquisador Eduardo de Assis Duarte, recorrente mas não unânime no campo dos Estudos Étnicos brasileiros), assim como ao conceito mais geral de literatura afro- enquanto parte integrante de uma literatura nacional mais ampla (como, por exemplo, o que tem feito a pesquisadora Silvia Valero em suas pesquisas recentes, estabelecendo limites críticos a uma noção de literatura afro-colombiana). Como um dos muitos referenciais teóricos basilares a esta proposta, situamos o que o filósofo martinicano Édouard Glissant em Introduction à une poétique du Divers (1996) concebe como pensamento de traço, do que decorre tanto a noção de construções identitárias quanto o conceito de diáspora com o que ascomunicações orais estabelecerão diálogo, no decorrer dos trabalhos do simpósio. Para tanto, preconiza-se uma abordagem transdisciplinar como forma de tradução da diferença, na potencialidade de evidenciar traços (ou, conforme o aporte teórico de cada comunicação, rastros/resíduos) destes sujeitos, sob a hipótese de que distintos universos de significados instauram possibilidades de conciliação que não poderiam ser previstas por campos disciplinares isolados. Este simpósio pretende acolher comunicações, que versem sobre processos de construções identitárias africanas e afro-americanas, em si e em relação a outros grupos étnicos. Recomenda-se que as propostas de comunicação submetidas se apropriem de referenciais teóricos capazes de propor novas ressignificações, que evidenciem os entre-lugares da tradição e suas constantes renovações; assim como propostas com referenciais críticos a abordagens dicotômicas entre os pensamentos europeu e americano, bem como a maniqueísmos do tipo colonizador/colonizado, com vistas a estimular a compreensão do Diverso próprio às construções identitárias afro-americanas. Cumpre salientar que este simpósio busca intensificar redes de trabalho já formadas, assim como agregar novas(os) pesquisadoras(es) e perspectivas de trabalho, esforço norteado, no quadro deste simpósio, pela noção de redes intelectuais a partir da formulação do filósofo chileno Eduardo Devés (2007). Por fim, ressalta-se que este simpósio tem sido proposto, executado e apoiado no âmbito dos Grupos de Pesquisa Americanidades: lugar, diferença e violência e Literatura e cultura afro-brasileira, africana e da diáspora, ambos cadastrados no Diretório de Grupos de Pesquisa no Brasil/CNPq. Esta nova etapa busca, simultaneamente, prolongar trabalhos acadêmicos e consolidar redes já iniciadas em simpósios recentes realizados, pelo Grupo de Pesquisa Americanidades: lugar, diferença e violência, no II Encuentro de las Ciencias Humanas y Tecnologicas para la integración em América Latina y Caribe (ECHTEC, realizado em Bogotá, em 2013); e no V Congreso Interoceánico de Estudios Latinoamericanos (realizado em Mendoza, em 2014); assim como nas duas edições anteriores do Congresso Internacional da ABRALIC. Palavras-chave: diáspora; literaturas africanas; afro-latinidades; pensamento latino-americano; redes intelectuais na América Latina.

EIXOS TEMÁTICOS POSSÍVEIS:

1. Construções identitárias africanas, afro-americanas e afro-brasileiras (em si e em relação a outros grupos étnicos);
2. Estudos de literaturas afro-americanas e afro-brasileiras);
3. Diáspora africana (séculos XVI a XIX);
4. Perspectivas teóricas sobre os temas em questão, desde um lugar americano;
5. Abordagens transdiciplinares sobre os temas africano, afro-americano e afro-brasileiro;
6. Apontamentos a uma epistemologia do lugar afro-americano e afro-brasileiro;
7. Construção de redes intelectuais afro-americanas e afro-brasileiras.

Masé Lemos (UNIRIO)
Javier Uriarte (Stony Brook University)

É possível pensar o deslocamento como tradução? Em que sentidos podemos articular a legibilidade do espaço como operações de memória? Como elas constroem o arquivo e o transformam? Como pensar a memória e o passado em relação ao movimento no espaço? Afinal, deslocar-se implica um ato de escrita e um processo de leitura, de tradução e de construção do mundo; eis alguns dos assuntos que o presente simpósio propõe debater. Nele, daremos continuidade às atividades do Grupo de Pesquisas do CNPq "Literatura e Linguagens: fronteira, espaço, performance, memória" sediado na Unirio, e desdobraremos questões desenvolvidas no âmbito do "Colóquio Internacional Figuras do espaço na literatura e nas artes", realizado em 2014 na Unirio. Esperamos, assim, nesta Abralic, ampliar o desenvolvimento das pesquisas deste grupo pela interação com outros pesquisadores e com pesquisas compatíveis, tanto no plano temático quanto teórico. O simpósio procurará introduzir a variante do espaço como importante modo de agenciamento das enunciações e de processos artísticos de criação de memória nas letras e nas artes em geral. Tendo em vista que o protagonismo do tempo e da história se fixou de modo dominante nas linhagens e perspectivas interpretativas da crítica literária e da crítica de arte em geral, a ideia é retomar as mediações possíveis das constelações espaciais e seus efeitos para as elaborações e procedimentos artísticos. Por se produzirem e modelarem-se espacialmente, as noções de fronteira, de limite, de conflito configuram-se como figuras do espaço pertinentes para a discussão da presente proposta (Michel Foucault, Gilles Deleuze, Michel de Certeau, Jean-Luc Nancy). Deste modo, o presente simpósio objetiva promover discussões sobre as noções de deslocamento, de memória e de tradução e de suas possíveis articulações na literatura, nas artes, na etnografia e na geografia, além de discutir o funcionamento dessas noções como operadores críticos capazes de traduzir a experiência artística e sócio-cultural moderna e contemporânea, no que ela possibilitaria para as trocas interculturais, interlingüísticas e interartísticas sob o impacto das inter e transdisciplinaridades e do debate sobre o lugar da autonomia da arte. (Homi Bhabha, Antoine Berman, Jean-Luc Nancy, Josefina Ludmer e Jean-Marie Gleize). Temas como a literatura dos viajantes e dos escritores viajantes, as relações da literatura com a heterogeneidade dos espaços, com as paisagens culturais e suas fronteiras discursivas, com os espaços de conflito, de limites e de exterioridades são produtivos para se compreender o deslocamento como paradigma interpretativo dos efetivos trânsitos entre especificidades e saberes das textualidades disponíveis na tradição literária e nas narrativas contemporâneas (Mary Louise Pratt, Caren Kaplan, Georges Van den Abbeele, James Clifford, Ottmar Ette, Edward Said). O espaço, o deslocamento e a memória serão considerados, igualmente, como maneiras de intervenção no mundo e de experimentação do real, apontando para o minimalismo e, sobretudo para a land art e seus atuais desdobramentos, tais como o walkscape, as escritas cartográficas, a intervenção urbana, os dispositivos poéticos, dentre outros, práticas artísticas que têm sido pensadas por Gilles Tiberghien, Anne-Marie Coquelin, Rosalind Krauss, Nelson Brissac-Peixoto, Michel Collot, Georges Didi-Huberman, Christophe Hanna, entre outros. Desenvolvendo reflexões sobre as performances literárias, artísticas e historiográficas do arquivo enunciadas por Walter Benjamin, Jacques Derrida, Michel Foucault, Gilles Deleuze, Didi-Huberman, Amy Warburg e Diana Taylor, pretende-se deslocar conceitos estabelecidos, como os de obra, autoria e literatura, percebendo como a memória do arquivo põe em trânsito textualidades amplas e complexas. Destaque-se, nesse sentido, diversas modalidades de apropriação de imagens alheias, de obras e documentos da história da arte e da história em geral, atualmente entendidas como deslocamentos e recontextualizações e não mais não como mera referência ou citação. Os objetos artísticos, retirados de seus contextos e postos em relação com outros elementos (outras imagens, outros textos e outros registros sonoros), fragmentos de obras e documentos ganham novos sentidos. Inseridos em novas séries associativas, suscitam novas leituras e interpretações. A atual instrumentalização da alta tecnologia e do forte domínio e conhecimento sobre o mundo tem-se mostrado ineficaz para que alcancemos um sentido para a habitação do homem no mundo. Nas perspectivas contemporâneas sobre a arte e a literatura impõe-se a criação de possibilidades de um mundo que pode ser atualizado mediante a reorganização e a recontextualização de estratégicas literárias e artísticas das figuras do espaço. As figuras do espaço aqui evocarão, portanto, novos sentidos para a habitação na contemporaneidade.

Telma Borges (Unimontes)
Sebastião Alves Teixeira Lopes (UFPI)

No ensaio Whose imagined community? – Comunidade imaginada por quem? (2000), Partha Chaterjee reflete sobre a construção da nacionalidade no contexto pós-colonial. Trata-se de uma reflexão que claramente dialoga com o aclamado texto de Benedict Anderson, Imagined communities: reflections on the origin and spread of nationalism (1991). Chaterjee segue a linha de raciocínio de Anderson, no sentido de aceitar a noção de nacionalidade como algo imaginado, colocando essa questão no contexto pós-colonial da pós-independência política em que várias ex-colônias precisam se pensar enquanto nações, mas demarcadas por fronteiras, muitas das quais arbitrárias, impostas pelo jugo colonialista europeu. Parta Chaterjee observa como e por quem os valores simbólicos dessas nações são construídos e porque é mais importante do que se preocupar com os limites artificiais que lhes foram impostos durante o domínio colonial. O presente simpósio pretende mergulhar nesse debate acerca da nação imaginada no contexto pós-colonial. Para tanto, apreciaremos a inscrição de ensaios que, de uma forma ou de outra, examinem a questão da construção da identidade nacional em países que outrora sofreram o jugo colonial e que, na atualidade, se encontram politicamente independentes. De forma ampla, esperamos contar com ensaios críticos que examinem representações das diversas facetas da identidade nacional em textos literários produzidos por autores preocupados com a empreitada colonial da Europa Ocidental e suas consequências sociais e culturais que se fazem presentes até hoje, mesmo após a liberdade política das ex-colônias. Encorajamos também a participação de trabalhos de cunho teórico que reflitam sobre a imaginação da nação no contexto pós-colonial. Nesse sentido, aguardamos trabalhos que reflitam sobre a construção discursiva da nacionalidade assim como a relação da construção da identidade nacional com diversas áreas do conhecimento, como a Sociologia, a Filosofia, a História, a Antropologia e a Educação. Há espaço também para a reflexão acerca do sentimento de pertencimento / não-pertencimento a um projeto hegemônico de identidade nacional. Nesse sentido, serão aceitas inscrições de trabalhos que lidem com diversas fontes de identificação, entre as quais, mas não restritas a essas, podemos citar a classe, a raça, a etnia, a religião, o gênero, a sexualidade etc, em suas relações com a noção de nacionalidade. Assim sendo, insistimos na apresentação de trabalhos que relacionem a luta de classes com a construção da nação, como o faz Ernest Gellner no ensaio The coming of nationalism and its interpretation: the myths of nation and class. Esperamos a inscrição de ensaios que se voltem para a discussão de gênero e sexualidade em relação ao projeto de construção nacional, a exemplo do que fazem Sylvia Walby em Woman and nation, Joane Nagel em Masculinity and nationalism: gender and sexuality in the making of nations e ainda Tom Boellstorff em The gay archipelago: sexuality and nation in Indonesia. Seguindo a importante contribuição de Homi Bhabha em DissemiNation: time, narrative, and the margins of the modern nation, acreditamos na importância da participação de trabalhos que investiguem o papel de grupos migrantes e/ou minoritários e sua contribuição para a construção do projeto nacional. Nesse possível diálogo com o texto de Bhabha, aceitaremos ainda propostas que reflitam sobre a influência da empreitada colonial na construção de identidades nacionais nos centros imperialistas, em especial Inglaterra, Espanha, França e Portugal. O debate por ainda ser fomentado a partir das relações conflituosas entre as comunidades em diáspora nos países outrora seus colonizadores, como o caso dos muçulmanos na França, por exemplo. Pensar a partir dos espaços marginais ocupados pelas minorias migrantes é outro caminho possível de reflexão, tendo em vista que estão constantemente redirecionando reformulações importantes das configurações hegemônicas sobre a identidade nacional. Estimulamos, além de tudo isso, a inscrição de ensaios que examinem o sucesso ou o fracasso de países independentes politicamente em se construírem enquanto nações livres, seja no campo econômico, no cultural ou mesmo no político. Gostaríamos de abrir espaço para ensaios que refletissem sobre a situação de nações que conseguiram suas independências políticas ainda no Século XIX, como é o caso do Brasil e de vários outros países da América Latina. Nesse sentido, vale a reflexão acerca da utilidade (ou não) de se lançar mão de pressupostos das teorias pós-coloniais para a compreensão de identidades nacionais no contexto latino-americano, considerando-se que essas nações contam já com cerca de dois séculos de liberdade política.

Márcia Rios da Silva (UNEB)
Eneida Leal Cunha (PUC-RIO)

Para delinear os desafios presentes no título deste Simpósio, e aqui propostos como um convite instigador a pesquisadores interessados na atualidade das práticas culturais, artísticas e teórico-críticas, elegemos, no pequeno e exitoso ensaio de Giorgio Agamben, uma das suas postulações a O que é o contemporâneo: "Contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro." A imagem potente de um "escuro" do tempo delineia metaforicamente a problemática a ser compartilhada pelos pesquisadores, em vertentes ou perspectivas compatíveis com seus respectivos objetos de interesse e investigação. Tal imagem se impõe quando se constata que, nas últimas décadas, na área dos estudos literários como nos demais campos das ciências humanas, ocorreram alterações que reconfiguraram os pilares do território disciplinar, abalando o domínio de objetos previsto, o elenco de instrumentos e métodos compartilhados e, expressivamente, o corpo das proposições aceites como horizonte teórico dos estudos de literatura, outras artes e da cultura. Tais alterações repercutiram predominantemente na diluição de fronteiras entre as disciplinas, na multiplicação inovadora das questões e temas de investigação plausíveis para cada uma delas e na ampliação dos instrumentos conceituais e técnicas que as singularizam. Dessas transformações derivam, na produção do conhecimento na atualidade, a assiduidade das abordagens inter, trans ou multidisciplinares; a prevalência do gesto comparativo e da focalização do híbrido, da liminaridade e dos entre-lugares como estratégias de produção de conhecimento; a expansão do plano de objetos passíveis de interesse investigativo com o privilégio das linguagens plurais – interartísticas e intermidiáticas – e das estruturações multiespaciais e multitemporais; e, com ênfase, a desierarquização de linguagens e práticas artísticas, bem como de vozes, veiculações, produtos ou expressões culturais. Em paralelo às alterações no plano epistemológico, são expressivas também, nas últimas décadas, as alterações que ocorrem no âmbito da cultura e no campo artístico, especialmente no domínio do literário. No primeiro caso, a noção de "cultura" alargou-se, extrapolando a legitimidade que lhe atribuíram – igualmente, mas em circunstâncias diversas – o empreendimento civilizacional iluminista, o Estado nacional moderno e as elites cultas na alta modernidade estética, tornando a cultura e, principalmente, o valor cultural focos de instabilidade, conflito e disputa, por forças que saíram dos bastidores e passaram a disputar a significação cultural. Os dois eixos da significação e valor que atravessaram a área de Letras, afetando, sem dúvida, o âmbito dos estudos comparados, como uma história de longa duração, ficam, neste contexto, extensivamente abalados: por um lado, problematiza-se a ligação mutuamente legitimadora entre literatura e nacionalidade, parte do processo de constituição dos estados modernos e matriz de toda a historiografia que por um século pautou os estudos da literatura; por outro, dá-se a contestação ao confinamento do valor cultural à esfera erudita, às artes canônicas e, consequentemente, à separação entre arte, cultura e o que pensadores como Edward Said e Stuart Hall designaram como a "mundanidade". Em grande parte, emanam deste cenário de mudanças epistemológicas e culturais o "escuro do tempo" ou os desafios do contemporâneo, que constituem o campo temático do debate aqui proposto, que deverá confrontar-se e lidar analiticamente com o caráter intempestivo, insurgente ou disruptor da contemporaneidade, sistematizando e provendo instrumental teórico e crítico para lidar com algumas das suas diversas dimensões ou concreções. O deslocamento ou a recusa de hierarquias instituídas tanto na dimensão epistemológica quanto na dimensão artístico-criativa geram a oportunidade para que estejam sob o foco deste Simpósio – como desafios que emergem das zonas de sombras do contemporâneo – as formas, expressões e domínios de experiência recalcados ou preteridos e sua potência intempestiva, tais como: (a) o corpo, em sua materialidade e enquanto superfície de inscrição e energia ético-estética; (b) os afetos, enquanto força disruptora a dar ensejo a outras formas de experiência e representação das vivências; (c) o comum e o cotidiano enquanto categorias transversais da cultura, a mobilizar uma rede de significados que remetem a espaços periféricos, tanto no cenário político e sociocultural quanto nos cenários textuais e artísticos; (d) a violência, a exclusão e a cidade como figurações do presente que convulsionam os limites da representação ao instaurarem, em diversas linguagens artísticas; (e) a lógica do testemunho, do biográfico e do documental, em flagrante desafio à compreensão estabilizada do que seria próprio do domínio ficcional. Ao acolher as perspectivas dos estudos de literatura e de outras linguagens artísticas, bem como dos estudos de produções, práticas e políticas da cultura, incorporando as dimensões de materialidade, de performatividade e de insurgência, próprias das estratégias criativas da atualidade, este Simpósio ambiciona empreender não apenas uma discussão estética e política que possibilite a acolhida analítica das forças e das formas artísticas e culturais do presente, mas – e principalmente – acentuar uma potência inovadora e transformadora que possa afetar práticas investigativas, formativas e educacionais na sociedade brasileira contemporânea. REFERÊNCIAS AGAMBEM, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Chapecó: Editora Argos, 2009. HALL, Stuart. Da diáspora. Org. Liv Sovik. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2003. SAID, Edward. Cultura e imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

Antonio Augusto Nery (Universidade Federal do Paraná)
Pedro Schacht Pereira (The Ohio State University)

No rescaldo de comemorações icônicas como as do centenário do nascimento de Almeida Garrett (1999) ou do centenário da morte de Camilo Castelo Branco (1990) e Eça de Queirós (2000), a atenção crítica de um número significativo de estudiosos, trabalhando em diversas latitudes e ambientes acadêmicos, reorientou-se para a produção literária do século XIX em Portugal, permitindo a realização de trabalhos inovadores que, entre outros fitos, buscaram um aggiornamento teórico-crítico para os estudos da Literatura Portuguesa desse fértil período histórico. O fim do ciclo de efemérides não trouxe o abrandamento das análises críticas, tampouco do interesse pela investigação, tanto que atualmente nota-se a publicação sistemática de trabalhos acadêmicos, bem como a formação de grupos de pesquisas, compostos por estudiosos de diversas partes do mundo, que se dedicam à Literatura Portuguesa oitocentista. Como consequência, o foco das investigações tem-se ampliado significativamente, não se restringindo à produção de alguns autores mais canônicos, volvendo-se também para autores e obras tradicionalmente relegados para a margem do canône. Por seu turno, essa ampliação tem possibilitado tanto a (re) leitura de obras e autores com consideráveis fortunas críticas quanto a emergência de projetos comparatistas nos quais o diálogo entre a Literatura e outras artes se revela instigante e pertinente. Exemplo disso são as diversas adaptações cinematográficas e televisivas de narrativas como O Crime do Padre Amaro (Carlos Carrera, 2002), Os Maias (minissérie de Luiz Fernando Carvalho, 2001 e filme de João Botelho, 2014), Os Mistérios de Lisboa (Raoul Ruiz, 2010) e Um amor de perdição (Mário Barroso, 2008). Considerando que a ideia de intertextualidade é praticamente inseparável da concepção de comparatismo, entre os diversos aspectos teóricos que podem balizar as discussões que pretendemos dar visibilidade neste simpósio, citamos as noções de polifonia, dialogismo e paródia investigadas por Mikhail BAKHTIN (1981, 1983, 1996, 1997), "da escrita onde se lê o outro, o discurso do outro" (FÁVERO, p. 1994, p. 50).

Ainda com relação às novas perspectivas empregadas nas pesquisas, em um contexto no qual os estudos pós-coloniais vieram chamar a atenção para a formação e transformação do projeto colonial português em África, na sequência da independência do Brasil, torna-se imperativo investigar também as formas diversas com que os "fantasmas" imperiais foram herdados, apropriados, produzidos, mas também silenciados, nas obras literárias portuguesas do século XIX. Campo de pesquisa no qual alguns trabalhos têm surgido, mas muito campo há ainda por desbravar.

Nessa linha, afigura-se como promissor o diálogo com algumas propostas dos Estudos Culturais, ou com a nova historiografia imperial e da expansão (Diogo Ramada Curto e Francisco Bettencourt (2007), Pedro Cardim (2002), entre outros), além da historiografia atlântica com incidência africana (John Thornton (1998), Luiz Felipe de Alencastro (2000), Roquinaldo Ferreira (2012), Sílvia Lara (2007)).

Por outro lado, ponderando que atualmente nenhuma corrente teórica particular parece poder assumir estatuto hegemônico, os novos estudos em desenvolvimento tendem a preconizar uma assinalável diversidade de pontos de vista e posicionamentos teóricos que, sem concorrerem para a dispersão diletante, têm antes contribuído para uma visão mais enriquecedora do papel que a Literatura desempenhou na formação e transformação da cultura oitocentista e, com isso, no fomento e na preparação de um tempo que é em muitos sentidos aquele que ainda vivemos.

O XIV Congresso Internacional da Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC) vislumbra-se como oportunidade para uma discussão, que se pretende plural e rigorosa, sobre a situação dos estudos sobre a Literatura Portuguesa do século XIX. Assim, além de abrir-se a trabalhos que tenham como foco a revisão da crítica canônica/tradicional que se instituiu em torno de obras e autores portugueses oitocentistas, o simpósio que propomos também pretende abrigar estudos que averiguam a relação dessa produção literária com a Literatura desenvolvida tanto em Portugal quanto em outros países lusófonos, antes e depois do período histórico em questão. Nesse sentido, serão também aceitas as análises comparatistas, sob diversas perspectivas teóricas, que buscam apresentar as relações da produção literária portuguesa com outras artes, como o cinema, a fotografia e a pintura, bem como com outras áreas do conhecimento, como a história, a filosofia e a psicologia.

Para além dessas perspectivas, que já revelaram o seu potencial, o simpósio acolherá trabalhos desenvolvidos a partir de propostas teóricas inovadoras, ainda não mapeadas, que estão abertas ao diálogo e ao debate acadêmico.

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Mónica Fabiola González García (Universidad de Talca)
Horst Rolf Nitschack (Universidad de Chile)

Neste simpósio procuramos re-visitar a noção de América Latina examinando-a tanto desde suas conceptualizações tradicionais de caráter identitário, histórico, geográfico, político, cultural, quanto desde os assédios e críticas às limitações e exclusões da ideia desde os estudos culturais, pós-coloniais, subalternos, de-coloniais, pós-nacionais ou trans-americanos. Mesmo quando as críticas à América Latina como ideia oligarca, europeia e ocidental acertam em notar a ignorância da multiculturalidade e a marginalização de visões de mundo consideradas subalternas, é impossível negar a importância do conceito na história das utopias continentais e no exercício de imaginação comunitária que muitos sujeitos e grupos continuamos a realizar. América Latina é a bandeira que gerações de intelectuais, políticos, guerrilheiros, artistas, escritores—como Francisco Bilbao, José Martí, Diego Rivera, Ernesto "Che" Guevara o Gabriel García Márquez—tem usado para imaginar e lutar por sociedades mais justas. Neste sentido, acreditamos que é crucial realizar um exame tanto de conceitos quanto de assédios a fim de discutir sobre potencialidades críticas e limitações epistêmicas da ideia de América Latina. Interessa-nos produzir esta reflexão desde/sobre as diversas regiões culturais que no continente estão ligadas ao conceito de América Latina, incluindo Hispano-América, Brasil, o Caribe e as identidades latinas e chicanas nos Estados Unidos. De um lado, procuramos pensar nas obras literárias, artísticas e teóricas que falam desde/sobre América Latina e analisar se o conceito se ocupa como lugar de enunciação, objeto de estúdio, campo de experiência ou como projeção de utopias de sociedades mais justas. Aliás, queremos pensar América Latina e o "latino-americanismo" como um conjunto de representações teóricas desde disciplinas diversas como a história, a literatura, as artes, o cinema, a sociologia, a economia, etc. Neste contexto, achamos necessário refletir sobre a relação da América Latina com a modernidade e as produções teóricas que o tema já gerou, derivando muitas vezes em conceitos paradoxais para exprimir as contradições das nossas modernizações, como "modernidade periférica", "modernidade alternativa", modernidade subalterna", etc. De outro lado, também queremos convidar a examinar nos assédios críticos ou ataques epistémicos à América Latina como conceito—assédios que ressaltam suas limitações, racismo intrínseco, ocidentalismo, etc. Por exemplo, propomos problematizar a ideia de América Latina a partir de conceitos como "heterogeneidade", "mestiçagem", "alteridade", "multiculturalidade", "de-colonialidade". Acreditamos que nos espaços liminares abertos por estes conceitos, geralmente surgidos desde sujeitos subalternos ou intelectuais que estão pensando nas subalternidades excluídas, existem conhecimentos e saberes que podem abrir caminhos para novos diálogos trans-lingüísticos, trans-culturais, trans-nacionais, trans-epistémicos e trans-americanos. Por isso, sugerimos debater o diagnóstico de Aníbal Quijano e Immanuel Wallerstein sobre a persistência da "americanidade" ou os padrões de poder introduzidos com a colonização nas estruturas sociais e políticas das Américas, e que continuam a oprimir grandes partes da população do continente. No seu livro Trans-Americanity, José David Saldívar afirma que o ensaio "A americanidade como conceito" (1992) de Quijano e Wallerstein, é um documento crucial para qualquer projeto comparativo pós-nacional porque "possui a capacidade de abrir o imaginário a futuros utópicos e distópicos". Em consequência, procuramos também provocar a reflexão dos espaços entre as Américas hispana, brasileira, caribenha, latina e chicana, segundo este paradigma comparativo mais global já utilizado nos estudos chicanos e latinos para examinar as dependências das minorias do continente americano do imperialismo estado-unidense. Mesmo que as relações entre o Brasil, o Caribe e a América hispana não se caracterizam pelo imperialismo, pensamos que o conhecimento surgido nesses espaços entre as Américas pode iluminar modos de superação dos colonialismos internos próprios duma história republicana cheia de conflitos sociais e raciais. Assim, propomos incluir tanto fenômenos massivos como migrações, políticas governamentais, solidariedades políticas, problemáticas ecológicas; quanto fenômenos individuais, como a amizade entre artistas ou as obras que comparem as idiossincrasias luso-americanas, hispano-americanas, caribenhas e/ou latinas e chicanas. Como exemplo, se pode pensar nos espaços criados por brasileiros que migraram a outros países latino-americanos durante a ditadura militar, pelas relações entre artistas como Cecília Meireles e Gabriela Mistral, Jorge Amado e Pablo Neruda, Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto, por livros como Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda e As raízes e o labirinto da América Latina de Silviano Santiago. Mas também, em paralelos e contrastes que provoquem diálogos entre-Américas criados a partir do exercício crítico da leitura comparativa de obras literárias, artísticas e ensaísticas das regiões culturais que constituem o nosso continente.

Cláudia Maria Fernandes Corrêa (UNIR)
Divanize Carbonieri (UFMT)

O presente simpósio pretende gerar discussões em torno de posições e estratégias literárias que ofereçam questionamentos à colonialidade de poder, de pensamento e de concepções de literatura que persiste existindo nos dias atuais. Segundo Quijano (2005), o conceito de raça tem origem colonial, tendo sido empregado inicialmente para legitimar e justificar as relações de dominação surgidas na colonização europeia da América e, posteriormente, da Ásia, África e Oceania. Porém, para ele, essa noção provou ser mais duradoura e estável do que o colonialismo histórico desses cenários. Imbricada numa colonialidade de poder persistente, a ideia de raça ainda permeia grande parte das relações entre países, povos e até mesmo pessoas na atualidade. Paralelamente, Bhabha (2001) sugere que a literatura mundial pode abandonar definitivamente o exame das tradições literárias de cada nação-estado e se voltar para o estudo das narrativas e poéticas nascidas das situações fronteiriças, englobando as manifestações literárias de migrantes, refugiados, exilados, expatriados, repatriados e retornados. Seria, dessa forma, uma literatura mundial que não teria como foco a ênfase nas soberanias nacionais e nem muito menos numa suposta universalidade da cultura humana. O interesse principal recairia sobre a experiência do deslocamento e da existência na fronteira. Walter (2009), por sua vez, concebe a fronteira simultaneamente como separação e relação. Como uma linha divisória de diferenciação espacial, temporal, cultural e política, a fronteira separa as identidades posicionadas em cada um dos lados abarcados por ela. Mas na qualidade de um espaço-tempo compartilhado e atravessado, ela também possibilita a transgressão dessa separação, conectando diferentes identidades e fomentando entre elas a capacidade da negociação e da tradução de valores e significados. Em algum momento no tempo, seja passado, presente ou futuro, a realidade do deslocamento diaspórico foi, é ou será importante para os sujeitos racializados que vivem nas fronteiras. BRAH (1996) define a diáspora como o estabelecimento de raízes em algum local diferente daquele do qual se partiu. O próprio espaço diaspórico é concebido por ela como uma relação entre essas duas instâncias, o que se deixa para trás e aquilo que se busca, sendo constituído por uma infinidade de genealogias, tanto a respeito da dispersão quanto da situação da permanência. Walter intensifica ainda mais o dinamismo do espaço diaspórico quando o entende não como um estado entre locais geográficos, mas como um vaivém frenético entre lugares, tempos, valores, concepções. Na contemporaneidade, as oportunidades de deslocamento se intensificaram, fazendo com que as raízes lançadas em qualquer parte não precisem ser mais tão profundas. As pessoas podem inclusive fixar diferentes tipos de residência em diversos locais durante suas vidas. Grupamentos humanos inteiros por vezes prosseguem se deslocando por uma infinidade de territórios num intervalo relativamente curto de tempo. E o retorno aos locais de origem, facilitado pelo desenvolvimento tecnológico dos meios de transporte e comunicação, ocorre bem mais frequentemente, minando em grande parte a experiência da nostalgia. Nesse sentido, serão enfocadas, neste simpósio, investigações a respeito das literaturas surgidas a partir da experiência de racialização de quaisquer grupos sociais humanos, mas sobretudo daqueles inseridos nos espaços entre as Américas, Europa e África. A expectativa é que quaisquer tentativas de hierarquização cultural, social e mesmo literária sejam interrogadas, rompendo com a possibilidade de homogeneização do pensamento e de universalização do fenômeno literário. São esperadas leituras que se baseiem na diferença, sem interpretá-la como inferioridade ou superioridade, mas como um dado político e estético, implicando uma multiplicidade de visões em torno do fazer literário. Além do aspecto da racialização, este simpósio está voltado para o exame das literaturas das situações fronteiriças produzidas por autores caracterizados por identidades hifenizadas ou por complexos processos interculturais ou transculturais de identificação cuja narrativa ou poética seja o resultado desses apartamentos e travessias. Também será enfatizada, além das experiências da racialização e da fronteira, a vivência da diáspora, vislumbrada não como uma única partida e uma única chegada, mas como inúmeras jornadas de ida e de retorno, muitas vezes para diferentes locais. Serão aceitas, portanto, propostas de análises das manifestações literárias surgidas desse intenso vaivém entre América, Europa e África. Sem a intenção de estabelecer uma exclusividade sobre qualquer língua presente nessa configuração, este simpósio objetiva priorizar a discussão a respeito das literaturas de língua inglesa produzidas nesse contexto numa tentativa de de(s)colonizar as concepções em torno daquela que tem sido entendida como uma língua predominante no cenário das relações internacionais. Em oposição à ideia de um inglês homogêneo e soberano, são esperados estudos que levem em consideração a realidade dos diferentes englishes existentes nesses locais e nas inter-relações entre eles. Referências bibliográficas BHABHA, H. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2001. BRAH, A. Cartographies of diaspora. London; New York: Routledge, 1996. GILROY, P. O Atlântico negro. São Paulo: Editora 34; Rio de Janeiro: Universidade Cândido Mendes, 2001. QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.). 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Socorro de Fátima Pacífico Barbosa (UFPB)
Juliana Maia de Queiroz (UFPA)

Estudos recentes do Brasil e de outros países têm demonstrado a importância dos jornais e periódicos na circulação e divulgação da cultura escrita nos séculos XVIII e XIX. Este simpósio pretende discutir, avaliar, analisar e contribuir com a historiografia da cultura escrita e da leitura literária, fundadas e fundamentadas a partir do suporte jornal, sua linguagem e seus modos de escrever e de circular entre os leitores. Para isso, estamos considerando o jornal não apenas como suporte de textos consagrados, escritos por autores ilustres, mas como elemento que, ao longo dos séculos, foi o responsável tanto pelo estabelecimento de gêneros literários, como pela consolidação da cultura escrita brasileira e portuguesa. Do ponto de vista da história da imprensa luso-brasileira, os periódicos do século XVIII são quase sempre alijados no que concerne ao seu papel no desenvolvimento da cultura escrita e da literatura desses dois países. Pesquisas recentes revelam que tais periódicos tiveram importância indubitável no desenvolvimento das práticas de leitura e de escrita literárias que alcançaram o século XIX. É preciso considerar, com Roger Chartier (1991), que em qualquer feito, da perspectiva do historiador da cultura escrita e da leitura, tem-se que enlaçar, numa mesma história, o estudo de textos (canônicos ou profanos, literários ou sem qualidades), o dos suportes de sua transmissão e disseminação, àquele de sua leitura, de seus usos e de suas interpretações. Parte-se do pressuposto, portanto, de que a produção escrita nos periódicos dos séculos XVIII e XIX não pode ser considerada apenas como um arquivo de textos literários, mas como elemento determinante da economia interna da linguagem, da divulgação e da circulação do literário no Dezenove (Barbosa, 2007). Nesta perspectiva, o literário pode ser verificado em praticamente todos os jornais do período, e não somente naqueles consagrados pela presença de textos e autores canônicos. Essa premissa ajuda a compreender, por exemplo, uma prática de escrita característica da imprensa do século XIX: a utilização sistemática de pseudônimos ou de textos anônimos, pois, neste caso, é ao suporte jornal que se confere a credibilidade e a autoria daquilo que estava escrito, e não, como se supõe de forma anacrônica, na perspectiva do autor como instância subjetiva e pessoal. O primeiro objetivo deste simpósio é, pois, trazer à luz a cultura escrita e a literatura presentes na imprensa periódica regular e naquela considerada jocosa, que circulou em folhetos ou em jornais com periodicidade regular nos século XVIII e XIX, cuja consagração ocorrerá no século XIX, por meio da consolidação de alguns gêneros (como o romance) e o nascimento de outros, a exemplo da crônica. Considera-se também, como segundo objetivo deste simpósio, poder aplicar ao mundo luso-brasileiro o que Chartier (2009) afirma sobre a Alemanha e a França: "a mais espetacular das transformações que afetaram a produção impressa foi, sem dúvida, o aumento da produção e a mudança dos jornais". O que interessa é "o aceleramento da quantidade de obras publicadas, algumas duráveis, outras efêmeras" e seu registro na e para a história da literatura e da leitura. Desse modo, trabalhos que versem sobre a produção, circulação e recepção de obras literárias em periódicos brasileiros, bem como sobre as práticas de leitura no Brasil oitocentista contribuem para um diálogo profícuo que se espera travar neste simpósio. Esperamos poder responder a perguntas como: O que se publicava nos periódicos brasileiros e portugueses nos séculos XVIII e XIX? Quem publicava? Quais eram as relações entre editores e autores reveladas em jornais e periódicos? Quais os gêneros? Quais os autores consagrados? Quais obras literárias eram publicadas? Quais textos não canônicos também circulavam em periódicos e jornais? Para efeito de recorte temporal, considera-se o "longo século XIX", na acepção de Eric Hobsbaw, que vai da década de 1780 (marcada pela revolução industrial e pela revolução francesa) a 1914 (com o início da Primeira Guerra Mundial). O período se justifica pelo fato de a Revolução Francesa, iniciada em 1789, ter originado uma série de jornais e impressos efêmeros, que se espalharam rapidamente pela França e, posteriormente, pelo mundo, conforme revelam os estudos mais recentes de Márcia Abreu (2011). Este período é marcado por uma espécie de "globalização da cultura", ou seja, por uma sincronicidade na produção e circulação de impressos entre Europa e Brasil, subvertendo, inclusive, a ideia recorrente de uma via de mão única de produção europeia e recepção/consumo brasileiros. Esse é um tempo caracterizado por uma escrita particular motivada por uma visão de mundo que consagra temas e assuntos comuns em várias partes do mundo.

Adalberto Muller Junior (UFF)
Alessandra Soares Brandão (UNISUL)

Se é verdade que a Literatura depende fundamentalmente do livro – tomado enquanto mídia, ou complexo de mídias como escritor, escrita, editores, mercado, crítica, universidades, etc - não é menos verdade que o livro está sempre inserido no sistema cultural, e que o sucesso de um livro depende tanto do seu conteúdo quanto das relações que ele é capaz de estabelecer com outras mídias e formas do sistema cultural. Assim, todos os processos de recepção, tradução, adaptação, da obra literária criam novas possibilidades de sentido do seu "conteúdo" (ou "texto"). Isso quando não são as próprias injunções do sistema cultural (suas transformações) que criam a demanda de novas espécies de literatura (ex.: literatura para jovens, literatura pós-colonial, literatura homoafetiva). Nesse sentido, queremos pensar, neste simpósio, a "virada afetiva" ocorrida nos anos 2000/2010, que criou novos eixos a partir do qual vêm se estruturando novas formas de literatura, e novas formas de recepção, tradução e adaptação de obras literárias. Vale lembrar que uma tal perspectiva já não diferencia nem hierarquiza a relação do livro com outras mídias e formas em que a literatura se manifesta. Assim, cinema, artes, performance, mesmo que não sejam derivados de obras literárias, podem estar em processo dialógico com as mesmas questões que a literatura vem levantando. Sobretudo quando se trata de afetos, acreditamos que é preciso abrir - arqueologicamente - o leque de relações, de transformações, de transfusões, de pontos de contato. "Não há uma teoria dos afetos que seja única e generalizável: ainda não há e (felizmente) jamais haverá", propõem Melissa Gregg e Gregory J. Seigworth. Noção que tem sido discutida sob uma miríade de perspectivas (fenomenologia, psicanálise, psicologia, filosofia pós-cartesiana, Marxismo, estudos culturais, feminismo, estudos queer), os afetos aparecem relacionados a termos como experimento, experiência, forças vitais, (não) pertencimento, histórias e discursos de emoção. Trata-se de uma rede conceitual que aparece como lugar produtivo para a reflexão teórica e preocupações estéticas e políticas. A chamada "virada afetiva" – depois do estruturalismo e pós-estruturalismo – reacendeu o debate sobre o funcionamento dos afetos nas artes. Se Fredric Jameson afirma que vivemos uma época de "esmaecimento dos afetos", a proposta deste Simpósio Temático é exatamente de(s)afiar tal afirmação, e abrir espaço para que se possa (re)pensar a vitalidade dos afetos na produção artística e na reflexão teórica. Brian Massumi, por exemplo, defende que os afetos ocorrem apenas como processos, passagens e interações entre sujeitos, coisas e espaços e tal processualidade funciona como lugar de passagem que aglutina movimento e o devolve em uma forma traduzida. Os afetos aparecem, aqui, como o que marca um "entre" artes e mídias, não mais pensadas em seu desenvolvimento histórico próprio e suas regras e especificações, mas no contexto mais amplo das relações. O paradigma atual de uma cultura da mídia e de práticas artísticas cada vez mais interdisciplinares demanda um olhar atento aos aspectos afetivos e processuais que emergem no espaço intersticial entre as artes. Tais aspectos desestabilizam a aparente coerência e pureza das formas e a presunção de modos específicos de recepção.

Interessam-nos propostas que busquem entender o que Sylvano Santini poeticamente chama de "o mistério do movimento substancial", mistério que é percebido e experienciado entre as mídias e não dentro de cada meio isolado. Como pensarmos as relações entre formas artísticas diversas se tais relações parecem ser instáveis e seus resultados imprevisíveis? Como pensar a criação de significado nessas passagens entre as artes? Ou, de forma mais radical, ainda é apropriado pensarmos em termos de "significados" (basta pensarmos, como Gilles Deleuze, em termos do que a arte "faz" e não do que ela "significa")? Como os afetos atuam nas relações entre as artes? O próprio pensameno do filósofo francês já colocava, aliás, a questão dos afetos (na relação entre afetos e perceptos, mas também na questão da "visageité" – rosticidade – no cinema), no centro de um pensamento que se move para além de toda tentativa de territorialização disciplinar. Pensar os afetos passa a ser então tarefa da crítica, e consequentemente da literatura comparada, e da teoria estética em geral, na medida em que os afetos são formas constitutivas da experiência estética; mais do que isso, são formas construtivas da própria existência. É a partir daí que se pode pensar numa teoria dos afetos enredada numa política dos afetos, na qual se "suspendem" as tradicionais dicotomias, para se pensar as relações entre sujeitos que sentem e se afetam mutuamente, e, em função disso, movem o mundo, movem-se no mundo. Evidentemente que é nos textos – tomados no sentido de processos, em diferentes mídias – que os afetos se tornam "sensíves", e se deixam estar "à escuta" dos sentidos. Logo, uma teoria dos afetos – e uma teoria poética dos afetos – não seria incongruente com qualquer projeto que revitalize a leitura, nos dias de hoje, e de amanhã, seja a leitura que precede, ou sucede, a das letras no papel. Tanto melhor que essa leitura aconteça em rede. Nas redes. Ou no balanço da rede.

Referências

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Eduardo Marks de Marques (UFPEL)
Jair Zandoná (UFSC)

O professor Steven Connor, em seu capítulo introdutório no The Cambridge Companion to Postmodernism (2004), afirma, entre outras coisas, que uma das principais características do pós-modernismo tem sido a sua capacidade extraordinária de reinventar-se frente à sua morte iminente (2004, p. 1). Pode-se perceber a verdade de tal afirmação a partir das múltiplas – e, muitas vezes, antagônicas – tentativas de definir a noção de pós-modernismo desde a década de 1970. Jean-François Lyotard, em sua obra seminal A Condição Pós-Moderna (1979), parte do princípio do colapso das grandes narrativas basilares da cultura ocidental. No contexto da crise das narrativas, Lyotard define a pós-modernidade (e aqui, o termo é usado tendo em vista todas as tentativas de uni-lo e fundi-lo com "pós-modernismo") como o momento da "incredulidade frente às narrativas" (1979, p. xxiv). A partir de tal crise, ao invés de sua morte, as narrativas ficcionais pós-modernas constituem uma estética e uma poética, conforme visto em Poética do Pós-modernismo, de Linda Hutcheon (1987), que ainda hoje serve como referência para entendermos uma visão de pós-modernidade a partir da literatura. O enfraquecimento da grande narrativa histórica permite que façamos uma análise de construção dos modos historiográficos (construções de narrativas históricas) como literatura, conforme desenvolvido por Hayden White em seu Meta-história: A imaginação histórica do século XIX (1973). A partir disso, Hutcheon estabelece sua leitura da pós-modernidade como um momento de ascensão da metaficção historiográfica – modo de construção narrativa que se apropria intertextualmente da narrativa histórica apenas como outra narrativa possível, e não como uma narrativa basilar do ocidente. Assim, literatura e história amalgamam-se como construções humanas passíveis de reinvenção, apropriação e parodização, tornando evidente, exatamente, o caráter de construção de tais narrativas. No entanto, talvez a definição mais abrangente e problematizadora do momento pós-moderno seja aquela desenvolvida por Fredric Jameson. Em seu longo estudo, Pós-modernismo: ou A lógica cultural do capitalismo tardio (1990), o crítico marxista inicia a sua exposição afirmando que o pós-moderno é uma tentativa de pensar historicamente o presente em uma era que esqueceu de pensar historicamente. A partir da problematização do presente, Jameson baseia toda a sua análise (bastante complexa) na noção de que o momento pós-moderno é, na verdade, uma das principais vitórias do modelo cultural e econômico capitalista pós-industrial. Isso significa que o momento pós-moderno é, antes de mais nada, econômico: o estrato cultural que se manifesta é parte da condição econômica e da tensão por ela criada nas mais diversas camadas da sociedade. Dessa forma, toda condição humana é uma condição pós-moderna, parafraseando o próprio autor em outro de seus estudos. Isso posto, todas as dimensões das identidades humanas, seja ela individual ou cultural, podem e devem ser analisadas através do viés macroeconômico e cultural produzido pelas relações de poder impostas pelo modelo pós-moderno, especialmente aquelas que se manifestam a partir da dimensão do desejo. Vivemos em uma sociedade de consumo (ou mesmo de pós-consumo, como chamam alguns teóricos), na qual a(s) nossa(s) identidade(s) é/são manifesta(s), entre outras coisas, por nossa posição na pirâmide de consumo. É ela quem garante, de modo mais explícito, a entrada, saída e permanência nos mais diversos círculos identitários sociais. Presenças e ausências, no entanto, não são silenciosas e invisíveis, uma vez que a ficção pós-moderna alimenta-se igualmente de ambas. Elas demonstram uma série de angústias trazidas por um momento que sempre tem sido descrito como de crise: crise do romance; crise da cultura; crise das economias mundiais; crise das identidades majoritárias; crise das identidades minoritárias. As angústias e as crises, então, retroalimentam-se e necessitam ser examinadas criticamente. Assim, o presente simpósio busca receber trabalhos que examinem e lidem com as múltiplas angústias criadas e perpetradas pelo momento pós-moderno e suas representações na literatura e cultura (não apenas nacional como ocidental; e não apenas ocidental como oriental): as angústias do corpo biológico, do corpo social e do corpo tecnológico; as entradas, saídas, permanências e rupturas em círculos de reconhecimento identitário (em especial aqueles formados a partir de intersecções: de gênero, questões étnico-raciais, de sexualidades, de orientação sexual, geracionais e de deficiências), as próprias (re)definições de humanidade a partir da comodificação do ser humano e a partir das noções de pós-humanismo e transumanismo; as noções e redefinições de sociedade; as apropriações, paródicas ou não, de narrativas textuais e/ou culturais; as diversas crises (do romance, da cultura, das identidades).

Fabiano Rodrigo da Silva Santos (UNESP)
Márcia Eliza Pires (Fundação Hermínio Ometto – Uniararas)

O conceito de melancolia, cujas origens remetem à medicina hipocrática, consiste em um dos legados do pensamento antigo mais reincidentes na história ocidental. Inicialmente, a melancolia ocupa lugar cativo no campo das tradições médicas, tendo as investigações que a tomaram como objeto presenciado o nascimento das ciências dedicadas ao estudo da mente (SCLIAR, 1994). Tributária ao pensamento de Hipócrates e Galeno, a melancolia adentra a Idade Média e nos tratados de Constantinus Africanus (BENJAMIN, 1984), acrescenta a seu repertório a influência astrológica de Saturno que enriquece o imaginário acerca dessa enfermidade, oriunda, segundo a antiga teoria dos humores, da produção desequilibrada da bile negra, que levaria o enfermo ao isolamento misantropo, à prostração, à loucura e a uma tristeza mórbida, identificada com o ermo e com a morte. Ainda na antiguidade, o tratado atribuído a Aristóteles, conhecido como Problema XXX (1998), cunha uma definição de melancolia que se tornaria cara, posteriormente, ao campo das artes e das atividades intelectuais – segundo o tratado, há uma associação íntima entre melancolia e estados de inventividade genial, de maneira que excentricidade, tristeza e solidão seriam atributos próprios das mentes superiores e invulgares. A partir do século XVIII, com o desenvolvimento dos campos da medicina na senda da experimentação empírica, o termo melancolia torna-se inadequadamente impreciso e obsoleto para descrever uma condição patológica e positivamente verificável – isso, pois, a essa altura, a melancolia já medrara com relativa autonomia e franco vigor nos campos das artes, principalmente, como meio de identificação de uma forma de genialidade desviante e mesmo maldita. A medicina e a psicologia moderna adotam, então, o conceito "depressão", incursionando pelos meandros da melancolia, apenas em busca de correspondências especulativas e mesmo metaforicamente poéticas. Conforme se distancia da ciência, a melancolia desenvolve-se acentuadamente nas artes, converte-se em motivo poético, que, vicejando sobretudo em solo romântico, carrega para os campos da criação artística todo um repertório de imagens que servirão de matéria prima para uma concepção de arte hiperbolicamente subjetiva, que coloca em relevo os contrastes entre o artista inspirado e a realidade comum, sempre insuficiente, entediante, rarefeita e opaca. Saturno (e a influência malsã dos astros), bile negra, spleen, tédio, acedia, luto, vazio, silêncio, precipitação, sentimento de exílio e estagnação estão entre os muitos contributos da história da melancolia à esfera das artes. A equação entre tristeza, loucura e inspiração, já presente no Problema XXX, será de grande importância para a configuração do conceito de gênio no romantismo; essas categorias tornar-se-ão ainda mais próximas conforme se desenvolve a sociedade burguesa e, consequentemente, marginaliza-se o artista, que, como reconhece Hugo Friedrich (1979), ao ser alheado do plano utilitário da sociedade moderna, assume o estigma do isolamento como identidade. Além disso, a própria arte, no processo de constituição da sociedade moderna, é extirpada de suas pretensões à transcendência e à sacralidade aurática (BENJAMIN, 1987) – na esfera do utilitarismo moderno, o artista converte-se em anátema e a arte tem em seu norte um ideal vazio. Sensível a esses fenômenos, o gênio romântico converte-se em artista maldito, e o complexo melancólico torna-se não apenas referência para a identidade do artista moderno, mas prisma menocromático pelo qual ele enxerga a realidade e relaciona-se com a história, mediante uma atitude de negação e resistência. Como reconhecem Michael Löwy e Robert Sayer (1995), enquanto a ilustração chancela a hegemonia do ideário moderno, o romantismo representa a reação a esse ideário. Dada sua proeminência junto ao romantismo, a melancolia pode ser considerada uma de suas bandeiras de resistência, a bem dizer, uma bandeira negra e desmantelada. Benjamin (1989) e Dolf Oehler (1997) reconhecem a associação entre melancolia e resistência na poesia de Baudelaire como um mecanismo de relacionamento com a história. Com efeito, a visão desencantada de Baudelaire acerca do tempo presente pode ser tratada como ponte entre o espírito romântico e o das épocas futuras, encontrando correspondência na arte do século XX, que, ao presenciar a falência das utopias modernas face à deflagração de fenômenos que colocaram em relevo os nexos íntimos entre progresso e barbárie, configura uma imagem do século envolta em atmosfera de rarefação, opacidade e dissolução. Considerando-se a ligação íntima entre a melancolia e a configuração de aspectos da identidade artística moderna, o simpósio proposto visa comportar considerações sobre os diversos desdobramentos da imagética da melancolia na literatura ocidental entre o romantismo e a contemporaneidade. Enfeixando, pois, desde a leitura da melancolia como referência para a identidade do artista moderno, até seu tratamento como mirante para avaliação do fenômeno histórico. Desse modo, ficção, poesia, teatro e crítica produzidos desde fins do século XVIII até o século XXI que tomem como referência a melancolia, o tédio, a evidencia de categorias negativas e testemunhem a falência de utopias possuem interlocução com a proposta de nossas discussões.

Marlise Vaz Bridi (USP – MACKENZIE)
Nicia Petreceli Zucolo (UFAM)

Os diversos dispositivos de regulação social, como ideologia, moral, tabus, preconceitos, estão dispostos pela sociedade de maneira sutil e, por isso mesmo, mais profundamente coercitiva e eficaz. Um deles, nem sempre percebido como tal, é o controle dos corpos: a sexualidade e sua regulação. Michel Foucault, em seu primeiro volume da História da sexualidade, afirma que: a sexualidade é o nome que se pode dar a um dispositivo histórico: não à realidade subterrânea que se apreende com dificuldade, mas à grande rede da superfície em que a estimulação dos corpos, a intensificação dos prazeres, a incitação ao discurso, a formação dos conhecimentos, o reforço dos controles e das resistências, encadeiam-se uns aos outros, segundo algumas grandes estratégias de saber e de poder (FOUCAULT, 2005, p. 100). Tendo em vista essa definição, entender que a sexualidade transcende questões de gênero e desejo amplia a percepção acerca do controle exercido pela sociedade sobre corpos e vontades. A literatura, como representação de épocas e sociedades, desvela e problematiza as questões de gênero, sexualidade, identidade, poder e hegemonia de um modo mais amplo e contínuo, não apenas na contemporaneidade, mas também ao longo das diversas fases de nossa história. Para citar um exemplo conhecido, pense-se em Fernando Seixas, personagem de José de Alencar, em Senhora – obra icônica da literatura oitocentista no Brasil –, que foi impelido a usar o dote da irmã mais nova para poder transitar em sociedade, ostentando luxo, conforme o que se esperava de um homem jovem à época do romance. À frase antológica de Simone de Beauvoir "ninguém nasce mulher, torna-se mulher", é necessário acrescer que no séc. XXI o homem também está repensando sua identidade e seu papel social, mostrando que não apenas a feminilidade é construída através das práticas sociais, mas também a masculinidade. Na busca de aceitação de si, através de comportamentos despadronizados, considerados fora do normal instituído por um modelo masculino dominador e agressivo (em qualquer instância de convivência, seja familiar, seja profissional), o homem contemporâneo intenta, entre outras coisas, o autoconhecimento, a paternidade vivida, as interações emotivas, estabelecendo uma nova dinâmica social e familiar, cujas nuances ainda desafiam os estudos de gênero. O exemplo usado, da personagem Fernando Seixas, serve também para ilustrar a ideia de que as literaturas de língua portuguesa são marcadas em sua história pelo conservadorismo, vide o desfecho do romance mencionado, em que o modelo masculino patriarcal prevalece. Para além deste exemplo, que usou uma personagem romântica, destacam-se escritoras como a cabo-verdiana Dina Salústio, a moçambicana Paulina Chiziane, a portuguesa Maria Teresa Horta e a brasileira Hilda Hilst, que sofreram pressão, em épocas distintas, por conta de sua escritura, questionadora da sexualidade e dos papéis instituídos socialmente à mulher e mesmo ao homem. Contemporaneamente, porém, escritorxs têm problematizado os lugares e limites de gênero, especialmente a partir de percepções levantadas pela autoria feminina e pelas novas masculinidades patentes e/ou latentes na sociedade, representadas esteticamente. O domínio do cânone pelo discurso hegemônico masculino ainda é uma realidade, entretanto, a abertura para discussão em espaços tradicionalmente masculinos, como a academia e a produção literária, possibilita olhares de diferentes ângulos sobre as construções dos papéis sociais de homens e mulheres e de seus exercícios de sexualidade e identidade. As diversas transformações nos papéis sociais de gênero e sexualidade historicamente vivenciados por nossa sociedade são uma realidade, e como tal ecoam na literatura, levantando algumas questões como: será que a representação da mulher e do homem assume aspectos distintos a partir da autoria feminina? Será que a sororidade (entendida como resistência ao patriarcado, tida como relação de união e empoderamento entre mulheres) se faz presente no discurso ficcional de autoria feminina? Será que os escritores pensam as personagens femininas a partir de estereótipos, permitindo às masculinas uma maior mobilidade? O grupo de estudos Literatura Portuguesa de Autoria Feminina – com membros da USP, UNESP, UFAM e Universidade do Minho (PT) – espera para este simpósio trabalhos que problematizem questões do fem\inino e das novas masculinidades; trabalhos que investiguem as relações de gênero imbricadas nas esferas públicas e privada; o empoderamento feminino; a cisão – ou não – do poder patriarcal na contemporaneidade (mas não apenas nela), tomando como base o texto literário erudito ou popular, consagrado ou não-canônico, em literaturas de língua portuguesa, tanto de autoria masculina quanto feminina. Referências: BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo. Tradução Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. Vol. II. FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: A Vontade de Saber. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2005.

Marcelo Paiva de Souza (UFPR)
Wilberth Claython Ferreira Salgueiro (UFES)

Contemporaneamente, a noção de testemunho vincula-se à chamada "literatura do Holocausto", como a narrativa de Primo Levi e a poesia de Paul Celan, por exemplo, mas também à literatura eslava – polonesa e russa, em especial – sobre o Gulag, como as obras de Gustaw Herling-Grudziński e Varlam Chalamov, entre outros (cujo antecedente histórico mais próximo é constituído pelas obras literárias oitocentistas versando sobre as penas dos condenados à Sibéria). Na América Latina, destaca-se um amplo e variado conjunto de textos votados à memória e à denúncia de fatos reveladores do viés autoritário, discriminatório e excludente de nossas sociedades, abrangendo desde Graciliano Ramos e Rigoberta Menchú a Ferréz, desde Miguel Barnet e Paulo Lins aos Racionais MC's. A proposta do simpósio é estudar as relações entre literatura e testemunho, a partir de alguns traços e textos que caracterizam este "gênero", como, por exemplo: registro em primeira pessoa; compromisso com a verdade e a lembrança; desejo de justiça; vontade de resistência; valor ético sobre o valor estético; representação de um evento coletivo; forte presença do trauma; sintomas de ressentimento; vínculo estreito com a história; condição de minoridade etc. A ideia é, portanto, "manter um conceito aberto da noção de testemunha: não só aquele que viveu um 'martírio' pode testemunhar" (SELIGMANN-SILVA, Márcio. Apresentação da questão. História, memória, literatura: o testemunho na era das catástrofes. Org.: Márcio Seligmann-Silva. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2003, p. 48), entendendo, assim, que "testemunha também seria aquele que não vai embora, que consegue ouvir a narração insuportável do outro e que aceita que suas palavras levem adiante, como num revezamento, a história do outro" (GAGNEBIN, Jeanne Marie. Memória, história, testemunho. Lembrar escrever esquecer. São Paulo: Ed. 34, 2006, p. 57). Pensar o que há de testemunho na literatura significa, a um só tempo, pensar as intrincadíssimas teias entre verdade e ficção, entre ética e estética, entre história e forma. Percebe-se que a avassaladora existência da "literatura de testemunho", na sua salutar diversidade conceitual, promove um inevitável abalo na noção de cânone e de valor literário, além de alterar o quadro dos agentes ou produtores de literatura: textos e registros de presos, torturados, crianças de rua, favelados, empregados domésticos, prostitutas, sem-teto, índios, enfim, todo um grupo "subalterno" que agora depõe e se expõe não só em nome próprio, mas também em nome de muitos. Nesse sentido, é preciso destacar que "o estudo do testemunho articula estética e ética como campos indissociáveis de pensamento. O problema do valor do texto, da relevância da escrita, não se insere em um campo de autonomia da arte, mas é lançado no âmbito abrangente da discussão de direitos civis, em que a escrita é vista como enunciação posicionada em um campo social marcado por conflitos, em que a imagem da alteridade pode ser constantemente colocada em questão" (GINZBURG, Jaime. Linguagem e trauma na escrita do testemunho. Crítica em tempos de violência. São Paulo: Edusp, Fapesp, 2012, p. 52). Seja na versão iniludivelmente dramática da experiência da Shoah e de outros genocídios, que geraram um conjunto de textos rubricados como "literatura de testemunho", seja na versão lírica ou romanesca por vezes mais "suavizada" da experiência cotidiana da violência no Brasil e no mundo, temos um elemento absurdamente comum: a ação do homem contra o homem. O Simpósio pretende reunir, em suma, pesquisadores e interessados na problemática do testemunho e suas relações com o literário, apresentando [a] estudos teóricos que discutam os limites e as confluências entre estes discursos (o literário, tradicionalmente ligado à estética; e o testemunho, produzido a partir de um propósito eminentemente ético) e mormente [b] estudos que analisem obras específicas que exemplifiquem tais relações – quer obras já consagradas nesta perspectiva do testemunho, quer obras menos conhecidas ou mesmo não analisadas à luz do paradigma testemunhal. No XII Congresso Internacional da Abralic, ocorrido em 2011 em Curitiba, este Simpósio teve uma primeira edição; no XIII Congresso, em 2013, em Campina Grande, ocorreu uma segunda edição. Nestes encontros, além de questões eminentemente teóricas, o debate envolveu nomes como Alan Pauls, Alex Polari, Ana Maria Gonçalves, Art Spiegelman, Ayaan Hirsi Ali, Cacaso, Caio Fernando Abreu, Carlo Levi, Carolina Maria de Jesus, Charlotte Delbo, Chico Buarque, Czesław Miłosz, Ferréz, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Lara de Lemos, Lima Barreto, Luis Fernando Verissimo, Luiz Alberto Mendes, Miguel Torga, Miron Białoszewski, Paulo Ferraz, Paulo Leminski, Paulo Lins, Primo Levi, Renato Tapajós, Ricardo Piglia, Ruth Klüger, Tereza Albues, Vasco Pratolini e W. G. Sebald. A ideia é, agora, estender o debate, seja em relação a estes nomes, como, naturalmente, incorporar outros autores e textos em que o problema da literatura e do testemunho se deixe perquirir.

Sonia Pascolati (UEL)
André Luís Gomes (UNB)

Qual o espaço do texto dramático e do teatro em sala de aula?Qual o espaço da dramaturgia e do teatro brasileiro nas grades curriculares dos cursos de Letras?A leitura de textos teatrais exigem habilidades específicas? Qual a importância do teatro para a formação da nossa literatura? Estas são as questões norteadoras deste simpósio, forjadas a partir de constatações paradoxalmente incipientes – por isso chamamos os pesquisadores a pensar a respeito – e óbvias à medida que basta um breve olhar para livros didáticos e materiais paradidáticos, assim como para os currículos de cursos de Letras e áreas afins, para notar a quase ausência do gênero dramático no cotidiano de alunos e professores (em formação ou em atuação). E acreditamos que essa ausência compromete o entendimento da formação da nossa literatura, como assume Antonio Cândido, no prefácio da primeira edição da Formação da Literatura Brasileira, ao comentar sobre a tarefa de escrevê-la: "Haja vista a exclusão do teatro, que me pareceu recomendável para coerência do plano, mas importa, em verdade, num empobrecimento, como verifiquei ao cabo da tarefa (CANDIDO, 1993, p.12). Numa circularidade preocupante, a escola tem sido expressão de uma cultura nacional na qual a leitura do texto dramático é praticamente nula, assim como ela não tem possibilitado a transformação desse cenário, pois os alunos egressos do Ensino Médio nacional possuem pouca ou nenhuma familiaridade com o texto pensado para a cena. Contribui, ainda, para esse painel a diminuta participação do mercado editorial na publicação, divulgação e circulação de nosso teatro, nicho restrito a reedições de grandes clássicos estrangeiros, autores e obras já considerados canônicos, com destaque para o inglês William Shakespeare e o português Gil Vicente, ou de alguns nomes nacionais já consagrados como Nelson Rodrigues ou daqueles que comumente figuram em listas de exames vestibulares, caso de Martins Pena. Os estrangeiros, mais do que os nacionais, circulam nas estantes de livrarias e bibliotecas escolares sob a forma de adaptações, geralmente vertidos para o gênero narrativo, concebido como mais palatável a nosso público estudantil, ou então para outras linguagens como as histórias em quadrinho e graphic novels. Já "[...] o teatro como um recurso didático[...]" (GRANERO, 2011, p. 15) goza de situação pouco melhor, pois que circula pela escola o discurso de que "o professor poderá valer-se dele independente da matéria que leciona: desde conversas informais em classe e jogos de mímica, até o psicodrama pedagógico como ferramenta de ensino" (GRANERO, 2011, p. 29). Todavia, embora bem-vindo no espaço escolar, o jogo dramático experimenta uma condição paradoxal, pois "a educação tem um papel formador, que se apóia em pilares racionalistas, tem objetivos e finalidades determinados. A arte transita por um território no qual objetividade, racionalidade e finalidade são aspectos que, muitas vezes, devem ser totalmente desconsiderados para que se crie um espaço de experimentação e liberdade" (DÓRIA, 2012, p.166). Noutras palavras, o uso de técnicas do teatro como método desarticulado de uma concepção crítica de arte e de sociedade deixa o processo palatável à racionalização instrumental não-reflexiva, resultando num formalismo que deturpa e diminui as possibilidades didáticas e pedagógicas do teatro. O quadro acima é uma provocação a reflexões sobre esse estado de coisas de modo a rever práticas, propor novas metodologias, delimitar a responsabilidade de pesquisadores da área de dramaturgia e teatro na proposição de novos espaços para o texto dramático na escola e em sala de aula. Do mesmo modo, são bem-vindas ponderações acerca do potencial da linguagem teatral como instrumento de ensino, de desenvolvimento de habilidades cognitivas e sociointeracionais e sistema de significação cuja leitura sígnica (interação entre os diversos sistemas de signo que compõem um espetáculo) exige determinados conhecimentos do aluno-espectador em formação. Propomos alguns eixos de reflexão sobre a relação teatro e ensino: 1. Apontamentos teórico-críticos sobre a participação do texto dramático e de técnicas cênicas no ensino das mais diversas disciplinas curriculares, assim como sua importância na formação de graduandos em Letras, Artes Cênicas e áreas afins; 2. Análise de materiais didáticos ou proposição de atividades envolvendo dramaturgia e teatro para os diferentes níveis de ensino; 3. Exercícios de análise de textos dramáticos considerando sua circulação em ambiente escolar (sala de aula, biblioteca, listas de vestibulares, materiais didáticos e paradidáticos, etc.); 4. Abordagens teóricas do texto e do espetáculo teatral que tragam contribuições para sua inserção no universo pedagógico.

Referências

BOAL, Augusto. Duzentos exercícios e jogos para ator e não-ator com vontade de dizer algo através do teatro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.
DESGRANGES, Flávio. Pedagogia do teatro. São Paulo: Hucitec, 2006.
DÓRIA, Lílian Maria Fleury Teixeira. Linguagem do teatro. Curitiba: InterSaberes, 2012. Coleção Metodologia do Ensino de Artes, vol. 7.
GRANERO, Vic Vieira. Como usar o teatro em sala de aula. São Paulo: Contexto, 2011.
GOMES, André L. (org.) Ensino teatro: dramaturgia, leitura e inovação. Jundiaí: Paco Editorial, 2014.
JAPIASSU, Ricardo. Metodologia do ensino de teatro. Campinas: Papirus, 2001.
KOUDELA, Ingrid D. Jogos teatrais. 4. ed. São Paulo: Papirus. 2002.
REVERBEL, Olga. O teatro na sala de aula. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1979.
______. Um caminho do teatro na escola. São Paulo: Scipione, 1989.
______. Jogos teatrais na escola: atividades globais de expressão. São Paulo: Scipione, 1989.
______. Técnicas dramáticas aplicadas à escola. São Paulo: Editora do Brasil S.A., s./d.
SPOLIN, Viola. Improvisação para o teatro. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 1998.
TELLES, Narciso. Pedagogia do teatro– Práticas contemporâneas na sala de aula. Campinas: Papirus, 2013.

Luiz Eduardo Oliveira (UFS)
Anderson Luís Nunes da Mata (UNB)

O processo de institucionalização da literatura como saber específico e disciplina escolar, no século XIX brasileiro, inicia-se com a voga do Romantismo, num momento em que o mito da língua nacional se projeta nos discursos dos poetas, romancistas e historiadores como algo forjado pela "alma do povo". Essa crença, motivada pelas descobertas da filologia moderna já no século XVIII, proporcionou aos estudos literários o suporte necessário para a sistematização e difusão de sua historiografia, que se fez propagar através dos sistemas nacionais de educação, tornando a escola um locus privilegiado de criação e transmissão da cultura e da língua nacional, por meio das quais era inculcada a ideologia nacionalista. Essa maneira de transmitir o legado cultural às futuras gerações foi objeto de críticas frequentes durante todo o século XX, não sendo poucas as correntes teóricas que propuseram métodos alternativos de se apreender e estudar o texto literário, bem como modos diversos de se compreender a literatura como fenômeno cultural e/ou instituição social. Todavia, o modo de ensinar literatura permaneceu o mesmo na escola, motivo pelo qual a sua disciplinarização, depois de consolidada pela tradição da história literária, é tão contestada. No Brasil, o último documento oficial sobre o ensino de literatura – as Orientações Curriculares para o Ensino Médio referentes aos "conhecimentos de literatura", publicadas em 2006 – foi produzido com intenções explícitas de confronto em relação aos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio, de 2002, que pôs em questão o próprio lugar da literatura na escola, ousando comparações entre Machado de Assis e Paulo Coelho, ou entre Zé Ramalho e Drummond, motivo pelo qual o documento de 2006 assumiu a postura de uma defesa da especificidade da literatura, reivindicando a sua presença no currículo e sua condição de disciplina escolar, o que deu ao documento um aspecto saudosista de uma época em que a disciplina gozava de um status privilegiado ante as demais, pois significava, sobretudo, um "sinal distintivo de cultura. Por outro lado, os estudos históricos sobre disciplinas escolares, baseados, em sua maioria, nos pressupostos de Chervel (1990), têm sido unânimes em detectar, como uma espécie de estrutura paradigmática, um processo de surgimento, ascensão, decadência e morte de certas disciplinas que faziam sentido no currículo escolar somente em determinados contextos sócio-históricos, ou que, a despeito de manterem a mesma designação, mudaram radicalmente seu sentido e propósitos. Este simpósio busca problematizar o lugar da literatura no currículo escolar, concebendo o ensino da literatura para além de uma perspectiva meramente didático-pedagógica e colocado numa dimensão cultural, uma vez que o ensino, assim com a literatura, é um elemento constitutivo e constituinte da própria cultura. Ademais, tal perspectiva possibilita investigar os processos mediante os quais, em períodos ou épocas diferentes, algumas obras ou autores se mantiveram na condição de clássicos e outros não, nos manuais didáticos de leitura ou de história da literatura. Para tanto, são levados em conta não só os agentes internos dos objetos impressos, mas também os dispositivos tipográficos, bem como os demais agentes externos, no processo de construção de significação dos textos. Com tais pressupostos, este simpósio objetiva também realizar discussões em torno da literatura e de seus leitores, particularmente aqueles situados em um espaço privilegiado: a escola, instituição responsável pelo desenvolvimento de práticas letradas que estimulam a produção e consumo da literatura. Tendo como eixo principal as relações entre literatura e ensino, pretende-se também resgatar uma importante tarefa da universidade em relação à Educação Básica brasileira, que é a reflexão metodológica sobre os problemas da formação de leitores em nosso país. Sendo assim, serão aceitos trabalhos que reflitam sobre: 1) políticas voltadas para a leitura e leitura literária, 2) teorias de leitura que privilegiem o texto literário, 3) metodologias de ensino de literatura, 4) história do ensino de literatura no Brasil, 4) estudos de materiais e livros didáticos nos quais se trabalhe o texto literário, 5) o ensino de literatura nos diversos níveis de escolarização (básico e universitário), 6) relações entre vestibular, ENEM e literatura, 7) o papel de bibliotecas na formação do leitor escolar, 8) a formação do professor de literatura, 9) ensino de literatura e novas tecnologias, 10) o ensino de literatura e sua figuração dentro dos textos literários, 11) a produção literária destinada ao público mirim além de outros temas relevantes que permitam refletir sobre a situação do ensino da literatura em nosso país no momento atual em relação com seu passado histórico.

Elizabeth de Andrade Lima Hazin (UnB)
Leny da Silva Gomes (Centro Universitário Ritter dos Reis)

A obra de Osman Lins, publicada entre 1955 e 1978 oferece aos leitores uma visão particular do homem contemporâneo e de seus dilemas. As inovações de suas narrativas, principalmente de Nove, Novena (1966), Avalovara (1973) e A Rainha dos cárceres da Grécia (1976), e suas reflexões ensaísticas instigam os pesquisadores ao desvelamento de seu mundo ficcional. O rigor técnico de elaboração, a surpreendente complexidade de composição e a confluência de linguagens de outras áreas, representadas na linguagem verbal, demandam um trabalho investigativo abrangente que se movimente entre vários centros de interesse. De conformidade com tal abordagem, o foco proposto para este simpósio é o trânsito entre diferentes campos do saber que promovem o fluxo de linguagens no tecido narrativo literário. As leituras do estudioso Osman Lins testemunham sua inclinação para visões descentradas da literatura, do conhecimento, do mundo. Nesse sentido, pode-se dizer que ele encontrou um parceiro à altura em Dante, que construiu a Divina Comédia seguindo a concepção ptolomaica do universo, centrado na terra concebida como um ponto fixo. No interior da esfera terrestre, o autor imaginou uma espiral com nove círculos, que representam de forma espelhada as nove esferas celestes, pela qual o narrador e seu condutor descem ao inferno. O universo de Osman Lins não tem a terra como centro imóvel, porém, assim como Dante, ele criou um mundo fictício, cuja estrutura imita a concepção contemporânea do universo - sem limites, em constante movimento, no qual a terra é apenas um ponto de uma galáxia, que entre muitas outras, se movimenta em espiral. Aos seres humanos cabe a perplexidade diante da mutabilidade das coisas, dos arranjos e desarranjos da realidade, ocasionados por movimentos ora previsíveis, ora fortuitos. Se a proximidade com Dante pode revelar a face erudita da produção do escritor pernambucano, sua observação da realidade, suas experiências do cotidiano, trazem para sua poética o compromisso do humanista preocupado em transcender as práticas sociais e transformá-las em valores para criação de um mundo multifacetado. Em seu mais recente livro de ensaios publicado no Brasil – Confissões de um jovem romancista – Umberto Eco se refere à "construção de um mundo", como requisito essencial para a criação textual, construção erguida por meio da coleta de documentos, visita a lugares, esboço de rostos, anotações milimétricas sobre os mais insuspeitados assuntos. Diz ele: "Durante os preparativos para a criação de A ilha do dia anterior, evidentemente viajei para os Mares do Sul, para a exata localização geográfica onde o livro se passa, a fim de contemplar as cores da água e do céu em horas diferentes do dia, além dos matizes dos peixes e dos corais. Mas também passei dois ou três anos estudando os desenhos e os modelos das embarcações da época, para descobrir as dimensões de uma cabine ou de um compartimento e para saber como locomover-se de uma até o outro" (ECO, 2013: 17). Lendo-se qualquer narrativa, vê-se a necessidade que tem o escritor de se apropriar de outros saberes, de adquirir conhecimento de áreas diversas a fim de escrever seu texto. Todavia, não se trata - no caso de Osman Lins – apenas da utilização desses conhecimentos pesquisados, mas do modo de utilização deles para alcançar – esteticamente elaborado – o nível literário almejado. O conhecimento agregado não colabora no sentido do enredo propriamente dito, mas se transforma em arcabouço estruturante do conteúdo, acrescentando-lhe profundos significados. É como se o conhecimento trazido de fora – oriundo de pesquisa por parte do autor - forjasse a própria estrutura do texto. Essa nítida mescla de outras áreas no texto, que lhe enriquece e lhe concede nuances significativas inusitadas, tem início – tudo leva a crer - com a publicação de Nove, novena, em 1966. A fatura de um texto pressupõe a oficina em que são trabalhadas as ideias e em que as peculiaridades formais vêm à tona. Muitas vezes participam desse processo recordações pessoais, acontecimentos do cotidiano do escritor, leituras de outros autores feitas por ele ao longo da vida. Osman Lins é um escritor que nitidamente opera a convergência, para a obra, do mundo ao seu redor, deixando claro que o papel de um escritor é o de permitir a passagem do caos das ideias à organização estética. Em sintonia com tais pressupostos, este Simpósio acolhe trabalhos que tratem, a partir de diferentes bases teórico-metodológicas, das relações contidas nas obras de Osman Lins com saberes que fluem de outras áreas do conhecimento, bem como com visões do mundo que se expressam em linguagens outras, além da linguagem verbal. Referências Bibçiográficas ALIGHIERI, Dante. A divina comédia. Tradução, introdução e notas de Cristiano Martins. São Paulo/Belo Horizonte: EDUSP/Itatiaia, 1976. ECO, Umberto. Confissões de um jovem romancista. São Paulo: Cosac Naify, 2013. LINS, Osman. Avalovara. Apres. Antonio Candido. São Paulo: Melhoramentos, l973. ____. Nove novena. 4.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. ____. A rainha dos cárceres da Grécia. 2. ed. São Paulo: Melhoramentos, 1977 ____. Do ideal e da glória: problemas inculturais brasileiros. São Paulo: Summus, 1977. ____. Evangelho na taba: outros problemas inculturais brasileiros. São Paulo: Summus, l979. ____. Guerra sem testemunhas: o escritor, sua condição e a realidade social. São Paulo: Martins, l969. ____. Lima Barreto e o espaço romanesco. São Paulo: Ática, 1976. ____. Marinheiro de primeira viagem. 2. Ed. São Paulo: Summus, 1980. ____.Um mundo estagnado. Recife: Imprensa Universitária, 1966. MORETTI, Franco (org.). A cultura do romance. São Paulo: Cosac Naify, 2009. MORIN, Edgar. O método 3: o conhecimento do conhecimento. Porto Alegre: Sulina, 2005. ____________. A religação dos saberes. Rio: Bertrand, 2002.

Sérgio Nunes de Jesus (IFRO)
Camillo Cavalcanti (UESB)

Este Simpósio se constitui Grupo de Trabalho interdisciplinar direcionado ao debate sobre erros e acertos na aplicação de referências estéticas conhecidas como estilos literários. Procura relacionar os pressupostos das correntes em literatura a partir dos estilos na prática de leitura e/ou em suas bases teóricas. A escolha do nosso simpósio surge pela necessidade em trabalhar um assunto, embora estruturante de uma área de conhecimento e sua prática profissional, pouco abordado por todos os setores de Linguística, Letras e Artes. Os Estilos Literários permanecem método primordial para o ensino de literatura: entender de que maneira essas correntes se interligam e se relacionam é fundamental, tanto para o professor quanto para o aluno, e, por conseguinte, para a própria existência de nossa profissão e da educação literária (a começar do mais essencial Letramento). A ideologia sempre será determinante na constituição dos sentidos: o indivíduo está entre sujeito e objeto do discurso, pois a produtividade oscila entre autonomia e ilusão de autonomia. Daí uma das frentes de trabalho possíveis é a que aborda o texto e suas circunstâncias. A Análise de Discurso e a Semiologia expõem a formação discursiva, ideológica e condições de produção, indicando o sentido do que é dito. Para ambas, especialmente em literatura a ideologia estará inserta em cada discurso e, ao mesmo tempo, estará na exterioridade de uma prática discursiva. A Filologia buscou a relação entre ideologia e sujeito concomitantemente à relação entre língua e história ou língua e homem, acrescentando interpretação e ecdótica e observando constituição e lugar dos textos, em âmbito histórico, linguístico, estético (figurado). Nesta mesma chave, abandonando o interesse linguístico aparecem as passagens de Benjamin e a recepção de Jauss, orientadas a convergir literatura, história e cultura, impulsionando vários culturalismos. Outra frente de trabalho é que aborda o texto e nada mais. O Estilo Literário aparece (presentifica-se) inicialmente a partir do texto, e tal constatação motivou diversos Formalismos. Apegando-se à materialidade, apostaram na primazia de dados e componentes, afinando-se com o método científico já experimentado pela Linguística. Retórica e Poética, deles as mais antigas, perseguiram as figuras, classes e categorias, além de outros substratos estruturais ou superestruturais capazes de organizar o repertório em gêneros e formas. O étimo de Spitzer pretendia desengastar da palavra o histórico, o subjetivo e o estético entre ambos. As lexias de Barthes queriam clarear a potência da palavra a meio caminho das ideologias, das idiossincrasias, das liberdades. Os semas e as isotopias de Greimas e Dubois dissecavam as palavras em todos os matizes. O método formal dos russos defendia a literariedade e sua autonomia dialogante. Todos os Formalismos tinham por base o Estilo, distribuído nos níveis pessoal, coletivo e geral, nos prismas linguístico e estético. Mesmo após todo esse percurso, as seguintes perguntas parecem sem resposta. De que modo os Estilos Literários (não) comparecem em obras e (não) reúnem autores? Por que os Estilos Literários (não) correspondem e/ou (não) se ligam ao Estilo referido pela Linguística? Como a Retórica, a Poética, a Filologia, a Linguística, a Análise do Discurso, a Teoria da Literatura, a Estilística, a Crítica Literária, a História da Literatura, a Semiótica, a Semiologia e diversas outras disciplinas de Letras refletem a questão dos Estilos Literários? Como podemos evidenciar marcas dos Estilos Literários transformando axiomas e ilações da Estética ou da Historiografia em fundamentações teóricas e verificações práticas? É clara a necessidade de contribuições interdisciplinares no âmbito dessa investigação sobre Estilos Literários, principalmente na constituição de materialidades que possam servir de suporte a seus questionamentos e reposicionamentos na teoria e na prática, no ensino fundamental, médio ou superior. Igualmente, o presente simpósio projeto poderá contribuir para elaboração de material didático que possa ser fomentado na educação básica e/ou na graduação. Abaixo segue lista dos trabalhos desejados para ampla discussão. Os títulos são provisórios, meros descritores do espectro de cada tópico a ser abordado pelo autor, que fornecerá um título à sua escolha. 1 - Em questão: Os Estilos Literários (podendo ou não focar nas Literaturas de Língua Portuguesa) 2 - Literatura Medieval 3 - Classicismo 4 - Maneirismo 5 - Barroco 6 - Arcadismo 7 - Romantismo 8 - Parnasianismo 9 - Realismo 10 - Naturalismo 11 - Simbolismo 12 - Decadentismo 13 - Modernismo 14 - Pós-Modernismo 15 - Literatura Contemporânea 16 - Qualquer estilo literário fora dos padrões luso-brasileiros supracitados (sobretudo, mas não exclusivamente, de África e Ásia lusófonas).

Ana Crelia Penha Dias (UFRJ)
Neide Luzia de Rezende (USP)

Diante das mudanças pelas quais passam tanto as práticas sociais de leitura, com o advento dos meios digitais, como as práticas escolares, que vivenciam a pressão das mudanças culturais para que elas também se transformem, o ensino de literatura é um dos conteúdos que mais abalos sofreram nas últimas décadas. Antes em posição privilegiada e central quanto à formação cultural, hoje na periferia dos conteúdos escolares, a literatura compartilha sua função de formação com outras formas de ficção, as quais, contudo, permanecem menosprezadas pela escola. "Ler" ainda é na representação escolar ler literatura canônica, em especial em suporte de papel. Sendo assim, a maior parte dos adolescentes não se considera verdadeiros leitores porque não se situa no interior dessa representação: os jovens dão as costas para as leituras escolares "obrigatórias" e leem outras modalidades, sobretudo em suportes digitais onde também escrevem muito, mas distante do padrão da chamada variante culta. Disso resulta todo tipo de avaliação negativa no polo do ensino, cujos professores veem seus alunos ler cada vez menos o que desejariam que eles lessem. Além disso, outro aspecto necessita entrar na discussão: a dimensão subjetiva da leitura feita pelos alunos. A cisão entre utilizar (ler para si) e interpretar (desenvolver um saber sobre a literatura) – proposta por Eco e repensada por Rouxel (2013) – supõe que na escola, diante das numerosas subjetividades, não seja possível levar em conta a leitura individual dos alunos. Entretanto, vemos que a cada dia as leituras da escola vão se distanciando do universo dos alunos e se transformando em simulacros: o resumo, a adaptação, os excertos substituem o texto original. E isso vale tanto para alunos quanto para professores que, desiludidos, eles próprios resistentes a essas leituras ou distantes dos clássicos, usam esses simulacros como uma saída para o currículo proposto. Dessa forma, o próprio ensino de literatura é forjado. Como então equilibrar os "direitos do texto" e os "direitos do leitor" (TAUVERON, 2013)? Como não negar ao aluno a experiência do cânone, sem contudo hierarquizar as leituras, sem mitificar o lugar de um texto que se faz estranho a ele e o qual rejeita antes de ler, porque não compartilha de sua cultura de erudição, legitimada pela escola? Como levar os alunos a construir uma passagem entre suas práticas de leitura de uma literatura em geral de entretenimento, colada a um enredo que os prende, a práticas de uma literatura mais experimental e complexa, que favoreça o distanciamento e a reflexão e que, muitas vezes, faz parte do cânone escolar? Como aproveitar o envolvimento e a identificação do leitor para ajudá-lo a chegar a um consenso? Ou como pergunta Max Butlen (no prelo) "como organizar e gerir em sala de aula essa polifonia interpretativa dos leitores?" Ainda em lugar bastante fragilizado, essas discussões sobre a formação do leitor e o papel que a instituição escolar nela desempenha têm sido alvo de investidas por parte das pesquisas acadêmicas e do mercado editorial, que outrora se negavam a reconhecer formação que não passasse pelo viés do cânone clássico. Por outro lado, a crescente produção de versões "facilitadoras" de textos consagrados precisa ser repensada, uma vez que potencializar o leitor para encontrar caminhos de sentido na direção do texto é tarefa que a escola, munida de teorias adequadas e professores formados, poderá conduzir. Portanto, o pensamento sobre a construção de uma cultura letrada, que considere leituras já feitas pelos alunos e traga ampliação de seu horizonte como leitor, parece ser o encaminhamento a ser buscado. Situar esses questionamentos em perspectivas polarizadoras implica negligenciar a tensão com que a formação do leitor, como indica Colomer (2003), se coloca aos formadores. Pender apenas para a esfera da conservação canônica ou ainda entender como satisfatório apenas o que os alunos já leem são caminhos exclusivistas e limitadores na formação do leitor, o que significa de uma forma ou de outra subtrair do aluno experiência literária a que ele só pode ter acesso no ambiente escolar. E os estudos acadêmicos precisam se aproximar dessa discussão, uma vez que o mercado editorial já enxergou o filão juvenil e pode se tornar um complicado mediador de leitura, se não houver olhar especializado sobre essa questão. REFERÊNCIAS BUTLEN, Max. Formador de leitores, formador de professores: a trajetória de MaxButlen. Educação e Pesquisa, revista da FEUSP, 2015 (no prelo). COLOMER, Teresa. A formação do leitor literário. São Paulo: Global, 2003. ______. Andar entre livros: a leitura literária na escola. São Paulo: Global, 2007. ECO, Umberto. A Poética e nós. In: ____. Sobre a literatura. Trad. de Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Record, 2003. OLIVEIRA, Gabriela R. As práticas de leitura literária de adolescentes e a escola: tensões e influências. São Paulo, 2013. (Acessar pelo Banco de Teses da USP: http://www.teses.usp.br/) ROUXEL, Annie. Tensão entre utilizar e interpretar. In: ROUXEL, Annie; LANGLADE, Gérard; REZENDE, Neide Luzia (org.). Leitura subjetiva e ensino de literatura. Vários tradutores. São Paulo: Alameda, 2013. p. 51-64. TAUVERON, Catherine. Direitos do texto, direitos do leitor: um equilíbrio instável. In: ROUXEL, Annie; LANGLADE, Gérard; REZENDE, Neide Luzia (org.). Leitura subjetiva e ensino de literatura. Vários tradutores. São Paulo: Alameda, 2013. p. 51-64.

Manoel Ricardo de Lima Neto (UNIRIO)
Annita Costa Malufe (PUC-SP)

A modernidade cultural, atravessada por um pensamento da e com a arte, se expande e se mostra, após trabalhos que vêm de proposições tão díspares como, por exemplo, as de Mallarmé ou Cezánne, Nietzsche ou Artaud, Fernando Pessoa ou Duchamp, Kafka, Cage, Beckett ou Michaux, como a evidência sobrevivente de uma verdadeira experiência dos limites, como a chamou Philippe Sollers. Limites da página e da linha, do verbo e do grito, da letra e do grafismo; da cor, da linha e da figura, do ruído e do som, da língua e do sujeito, da sobriedade e do delírio, da constituição de novas formas de vida, novos espaços e temporalidades distintas. Experiências-limite que levaram as linguagens da e com a arte até a radicalidade de suas bordas [textuais, corporais, sonoras, visuais, e também verbais, assintáticas, agramaticais etc.], e que muitas vezes expuseram também a vida desses artistas às mais intensas variantes de experimentação. O que se tem, diante de algumas dessas experiências-limite do século XX, é uma verdadeira investigação ética e estética dos limiares entre essas linguagens, o corpo e a vida, numa composição que se estende, até os dias de hoje, para uma política das formas de estar no mundo. Assim, o simpósio Limiares: literaturas, artes, políticas propõe-se a tratar, a partir de algumas dessas questões, do esgarçamento dos limites das formas e do quanto isto escapa à linha institucional das histórias da literatura e da arte, da monumentalização e do poder. Como propôs Maurice Blanchot: quando obra é, justamente, o que se define por um movimento de fuga às ideias de Literatura ou Arte preexistentes – ou às formas que já se definem como tais. Estamos, a partir de um certo contexto moderno que se estende até o presente, diante de um "porvir", ou seja, daquilo que vem do futuro a partir de uma orfandade prévia e irrevogável – a ausência dos Deuses (Blanchot) e dos pais ou dos modelos (Barthes). Na perspectiva aberta da literatura e da arte do presente, podemos observar que as formas comparecem, cada vez mais, a partir de suas metamorfoses, deformações, fragilidades, movências, hibridismos, contágios etc., num perpétuo mise-en-forme. Pode-se encontrar aí algo como o conceito inventado pelo poeta-engenheiro Joaquim Cardozo, o de forma-formante: quando num estágio da experimentação em que um corpo se deformando começa a deformar, por sua vez, um corpo deformador. A forma-formante é um conceito que parece nos dizer muito de algumas manifestações contemporâneas, porque é uma espécie de associação ou extensão disjuntiva da linguagem como um estado de ficção que é gerado a partir de um esforço; e do esforço em busca da alegria com o limite das formas: o que supõe uma escavação arqueológica do passado e a criação de espaços indistintos a partir dos quais nos deparamos com uma "forja da destruição". Ou com o "caráter destrutivo", se quisermos pensar com Walter Benjamin, ou ainda com a ideia de "destruir a destruição", de Giorgio Agamben. O que nos interessa é a obra que vem como o que se pode tomar como não-obra; o livro que se dá como não-livro; a escrita que se faz voz, oralidade, corpo, performance; a novela que é poema; o poema que se faz romance; o cinema que é literatura e que se faz sem imagens etc. Uma questão é como ler e pensar acerca desses movimentos que procuram esgarçar as formas e que expõem uma dinâmica incessante de reinvenções possíveis e mesmo inauditas. E é esse limite, tomado como um limiar das formas, se remetermos à diferenciação de Walter Benjamin entre limiar e fronteira, que nos interessa discutir no simpósio Limiares: literaturas, artes, políticas. As zonas de indiscernibilidade, de contaminação e vizinhança – se nos apoiarmos no conceito de devir proposto por Gilles Deleuze e Félix Guattari em Mil platôs –, que se dão especialmente entre as literaturas e as artes, e suas composições políticas diante do tempo presente. Tal proposta visa tocar o que escapa a qualquer ideia de forma assentida historicamente e que se coloca na direção de um pensamento com a política e entre as literaturas e as artes. Por isso, o simpósio procura acolher trabalhos que discutam e proponham ler, crítica e politicamente, uma contaminação do limiar das formas entre as literaturas e outras artes, entre elas e o pensamento, no espaço-tempo do presente, como uma possibilidade política para o confim.

Referências Bibliográficas

BARTHES, Roland. O grau zero da escritura. Trad. Mario Laranjeira. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
BENJAMIN, Walter. Passagens. Trad. Willy Bolle et al. Belo Horizonte: EdUFMG, 2006.
CARDOZO, Joaquim. Poesia completa e prosa. Rios de Janeiro: Nova Aguilar, 2011.
BLANCHOT, Maurice. L'Espace littéraire. Paris: Gallimard, 1955.
BLANCHOT, Maurice. Le Livre à venir. Paris: Gallimard, 1959.
DELEUZE, Gilles. Critique et clinique. Paris: Minuit, 1992.
DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. Mille Plateaux. Paris: Minuit, 1980.
LIMA, Manoel Ricardo. A forma-formante – ensaios com Joaquim Cardozo. Florianópolis. EdUFSC, 2014.
MALUFE, Annita Costa. Poéticas da imanência: Ana Cristina Cesar e Marcos Siscar. Rio de Janeiro e São Paulo: Ed. 7Letras e Fapesp, 2011.
SOLLERS, Philippe. L'Écriture et l'expérience des limites. Paris: Seuil, 1968.

Thiago Alves Valente (UENP)
João Luís Cardoso Tápias Ceccantini (UNESP)

Este simpósio aborda a produção juvenil contemporânea com o objetivo de discutir os caminhos da ficção direcionados ao jovem leitor no contexto da produção literária brasileira e internacional, tanto a "canônica" quanto a mais recente. No caso brasileiro, o segmento referente à literatura juvenil (narrativas), em termos percentuais, é um dos que tem mais crescido, ano a ano, no conjunto da produção nacional para crianças e jovens das últimas décadas, chegando a mais de 20% dos títulos publicados no setor no ano passado. De um ponto de vista qualitativo, talvez seja aquele segmento que, nos dias de hoje, também tem demonstrado maior vitalidade, revelando empenho em explorar temas em sintonia com questões candentes da sociedade contemporânea – particularmente as mais diretamente ligadas ao universo juvenil – e, ao mesmo tempo, em buscar a contrapartida formal para expressá-las. Verifica-se, em diversos títulos, um esforço de pesquisa e experimentação no nível da linguagem e dos elementos estruturais das narrativas e até mesmo no nível da materialidade do livro. Podem ser apontadas algumas recorrências, como a intertextualidade e o apuro do projeto gráfico-editorial, sendo este resultante do aprimoramento das técnicas gráficas e do barateamento de custos, fatores que permitem maiores ousadias como o uso crescente de capa dura, verniz, diferentes qualidades de papel, cortes e texturas pouco convencionais, tornando o livro direcionado aos jovens um objeto tão atraente quanto o livro infantil o faz com seu público alvo. Autores veteranos, como Lygia Bojunga, Ricardo Azevedo e Jorge Miguel Marinho ou menos conhecidos, como Gustavo Bernardo, Luís Dill e Caio Riter, abordam temas atuais, por meio de uma linguagem instigante – compreendendo-se esta por um texto que busca se aproximar do jovem leitor, sem fazer concessões ao senso comum e sem abrir mão da inventividade literária. De um modo geral, essa produção condicionada, em certa medida pelo mercado, pela escola, pela família e pelos demais agentes que interferem na escolha e leitura do livro por parte do jovem leitor, pode ser abordada por uma "estética da formação", isto é, um olhar sobre a relação do que e como a obra trata determinado tema frente ao que é buscado pelo jovem. Pode-se entender esta estética da seguinte forma: 1) o tema – a significação mais imediata liga-se à temática de que se ocupa a maior parte das obras, no caso, a busca da identidade e o processo de amadurecimento do jovem, do ponto de vista físico, intelectual, emocional, ético, entre outros aspectos; 2) o ser em formação – essa temática dialoga com o aspecto da formação, o qual, por sua vez, deve ser levado em conta considerando-se a instância da recepção das obras, isto é, como aspecto diretamente ligado à predeterminação do público leitor; 3) a formação literária/estética em contraste com a visada pedagógica – há uma disposição por parte de determinados escritores, editores e mediadores de associar a noção de formação – num sentido vasto – à literatura juvenil, em substituição à pecha de literatura pedagógica, com que durante longo tempo arcou. Contraditoriamente, por ser considerada, ainda hoje em alguns circuitos acadêmicos, como objeto "menor" ou menos importante, a literatura juvenil encontra um espaço mais amplo para a experimentação e renovação de seus elementos estruturais. Assim, o mesmo mercado produtor da obra destinada ao consumo rápido e repetitivo também oferta o tipo de produção que não se consome dessa forma. Nessas obras, segundo Zilberman (1990, p.113), a leitura não se fecha sobre si mesma, antes "[...] designa o ato mais significativo que o acesso ao mundo da escrita deflagra: a intervenção no real e o trânsito ao imaginário por intermédio de uma ação eficiente". Ainda que muitos textos tenham sido publicados, pela primeira vez, em momentos históricos mais afastados do leitor de hoje, a permanência deste ou daquele livro em circulação no sistema literário e cultural brasileiro justifica sua abordagem neste simpósio. Compreendendo o conjunto dessa produção como multifacetado pelas mais diversas vertentes temáticas, estilísticas e ideológicas, os estudos tendem a priorizar a relação entre obras juvenis de diferentes meios socioculturais e/ou étnicos, o que caracteriza o "trânsito" entre circuitos culturais diversos. Nesse sentido, os "fluxos" podem ser entendidos quanto ao tema, à formação e à recepção das obras voltadas ao público juvenil, bem como as tendências dessa produção em contraste com dados sobre recepção de leitura entre jovens leitores. No âmbito da crítica analítica de obras juvenis, da investigação sobre o que e como leem os leitores jovens e dos estudos comparatistas de literatura juvenil, campo de pesquisa hoje já amplamente consolidado no exterior (Comparative Children's and Young Adult's Literature Studies), este simpósio abre-se a uma discussão ampla sobre o objeto "literatura juvenil", no que tange tanto à produção nacional quanto à estrangeira.

Raquel Illescas Bueno (UFPR)
Jefferson Agostini Mello (USP)

A dinâmica entre conhecer-se e conhecer o mundo, matéria de tantas obras literárias, é também o fundamento da viagem, seja ela real ou metafórica. Mas, diferentemente das viagens de exploração ou das viagens literárias do século 19 – pautadas por binômios do tipo identidade e alteridade, viagem ao interior e viagem ao exterior, viagem ao redor do próprio quarto e ao redor do mundo – os deslocamentos, no século 20, adquiriram vieses bastante específicos, quando a complexidade e o alcance das conquistas científicas somou-se a uma nova organização mundial. Essa nova organização, que se tornaria dominante no século 20, distinguiu-se pela maior facilidade em percorrer os espaços e pela maior rapidez das comunicações. Em diálogo com isso, e de modo paradoxal, ampliou-se o número de narrativas de viagem que enfocaram não apenas o destino a atingir, mas sim reflexões sobre os locais de origem dos escritores e intelectuais. Ao mesmo tempo em que esses buscavam conhecer lugares pouco acessíveis, tratavam de tornar acessível, em outro grau, o conhecimento da terra de origem. Porque, naquele momento, a experiência da velocidade, da máquina, da guerra, do colonialismo e dos nacionalismos teve como contraponto a crítica ao poder e aos saberes da metrópole. No caso brasileiro, vê-se Oswald de Andrade, "do alto de um ateliê na Place Clichy – umbigo do mundo – descobri[ndo], deslumbrado, a sua própria terra" (Paulo Prado, prefácio a Pau Brasil). Nesse mesmo contexto, há também a experiência de Mário de Andrade, que aponta para outras descobertas por meio da viagem: o autor de Macunaíma, sem nunca ter saído de seu país de origem, deslumbrou-se com o Brasil profundo enquanto percorria a Amazônia; porém, pouco tempo depois, deparando-se com a miséria do sertão do Caicó, concluiu que "Os sertões são um livro falso", "uma boniteza genial porém uma falsificação hedionda". Assim, se, por um lado, naquele momento, percorrer o mundo ou o próprio país contribuía para o programa nacionalista ou para a propaganda do desenvolvimento paulista, por outro, viabilizava uma maior consciência do subdesenvolvimento a partir do contato com a alteridade. Mas, o que ocorre quando, no final do século 20 e início do 21, a experiência viagem se desmistifica pelo próprio excesso de viagens? Quando o conhecimento de si e do Outro está aparentemente disponível a todos, na tela de um computador? No mundo dito globalizado, dito cada vez menor, o que resta a aprender com as viagens? De que modo elas ainda podem transformar a percepção dos viajantes? Será possível, atendendo a sugestão de Michel Onfray, "inventar uma inocência" capaz de neutralizar os lugares-comuns sobre espaços e povos? Lembre-se que, para Onfray, a verdadeira viagem "supõe menos o espírito missionário, nacionalista, eurocêntrico e estreito, do que a vontade etnológica, cosmopolita, descentrada e aberta". Tal atitude, segundo o mesmo autor, não depende da negação ou do abandono do aprendizado acumulado, mas da "colocação à distância daquilo que parasita uma relação direta entre o espetáculo de um lugar e nós" (ONFRAY, 2009, p. 58-9). Esse descentramento e essa inocência construída certamente não são compartilhados por muitos viajantes, mas é de se supor que entre eles estejam alguns escritores. De que forma a escrita literária poderia se beneficiar de atitude semelhante, buscando a abertura, ou melhor, a desmontagem de si para o conhecimento do Outro e, talvez, para o autoconhecimento? Partindo da percepção de que o relato de viagem se esgotou enquanto gênero autônomo, mas pode ter sido incorporado no texto ficcional, este simpósio pretende discutir as viagens reais e metafóricas internalizadas nas ficções contemporâneas, brasileiras ou não, perguntando-se sobre seus efeitos, as suas transformações, e seus novos formatos. Nesse aspecto, pensa-se, para dar alguns exemplos, i) nas narrativas que se passam fora dos países dos seus autores e ou narradores; ii) nas que incorporam, como paródia ou pastiche, viagens de outros tempos, ou que, na sua relação com os textos paradigmáticos do gênero "literatura de viagem" podem assumir contornos bastante originais; iii) em narrativas de narradores que são também escritores em trânsito e que, por meio da introdução de elementos autobiográficos, borram as fronteiras do real e do ficcional; iv) mas também naqueles fragmentos de relatos que, por meio de um olhar "de fora", isto é, estrangeiro, refletem sobre a realidade comezinha das periferias do mundo, seja ela a das grandes cidades dos países pobres, seja a dos recônditos desses países. Referências Bibliográficas ANDRADE, Mário de. O turista aprendiz. São Paulo: Duas Cidades, 1986. PRADO, Paulo. Poesia Pau Brasil. In. ANDRADE, Oswald. Pau Brasil. Caixa Modernista. São Paulo: EDUSP, 2004. (Ed. fac similar de Paris: Au Sans Pareil, 1925) ONFRAY, Michel. Teoria da viagem: poética da geografia. Porto Alegre: L&PM, 2009.

Marisa Martins Gama-Khalil (UFU)
Sylvia Maria Trusen (UFPA)

O presente simpósio pretende abrigar trabalhos de ordem vária que tenham como objetivo a exposição de diferentes abordagens da narrativa fantástica das literaturas neolatinas. Propomos o entendimento do fantástico a partir de um esgarçamento conceitual e cronológico em relação ao que propõe Tzvetan Todorov em sua Introdução à literatura fantástica. Dessa forma, concordamos com Adolfo Bioy Casares, dentre outros tantos, ao defender que essa literatura abriga uma diversidade de trabalhos com o sobrenatural – com eventos que subvertem e deslocam o "real" – e que se estende temporalmente desde as epopeias de Homero e os contos de As mil e uma noites até as narrativas fantásticas contemporâneas, como é o caso de obras como Jangada de pedra, de José Saramago; O visconde partido ao meio, de Italo Calvino; Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez; O final do jogo, de Julio Cortázar; Distorsiones, de David Roas; Porcarias, de Marie Darrieussecq; A menina de lá, de Guimarães Rosa; A confissão ou um vampiro carioca, de Flavio Carneiro; A varanda do Frangipani, de Mia Couto; A máquina extraviada, de José J. Veiga, citando apenas algumas. Nesse sentido, Italo Calvino estaria certo ao afirmar, em um ensaio sobre a literatura fantástica, que é o labor estético com a fantasia, em uma lógica oposta à cartesiana, o que definiria a literatura fantástica em relação à literatura mais amplamente observada em seu caráter sempre transgressor. Certamente, há diferenças formais e temáticas entre as diferentes vertentes da literatura fantástica, por exemplo, a narrativa maravilhosa, a gótica, a fantástica, a estranha, a sobrenatural, a absurda, a real mágica, a real maravilhosa, a real animista, a de certa parcela da ficção científica e dos romances policial e de mistério; entretanto, o ponto de aproximação entre essas vertentes narrativas ficcionais seria o tratamento estético dado à fantasia, em sentido lato, o recurso ao insólito – ao que não sói acontecer, manifestado em qualquer das categorias da narrativa (personagem, tempo, espaço e ação), isolada ou conjuntamente –, ou, no dizer de Filipe Furtado, a presença do elemento metaempírico, ou seja, o que o faz reunir todas essas variantes sob a designação abrangente modal de literatura do metaempírico (discursos do metaempírico, como sistematiza, em distinção ao conceito todoroviano de gênero). Espera-se, assim, reunir trabalhos que possam contribuir para as discussões mais recentes sobre as complexidades teóricas, críticas e interpretativas que abrangem estudos sobre a literatura fantástica – sua definição, os elementos narratológicos que a compõem, o projeto estético que a constitui, bem como as suas diversificadas formas. A perspectiva de Furtado, exposta especialmente no verbete "Fantástico (Modo)", que escreve para o e-dicionário organizado por Carlos Ceia, tem base em algumas posições teóricas, como as de Irene Bessière e Rosemary Jackson. Jackson, por exemplo, observa a restrição que o estudo sobre a literatura fantástica baseada na ideia de gênero tende a gerar, limitando boa parte de textos potencialmente fantásticos, e por essa razão propõe sua substituição pelo modo literário fantástico, entendido especificamente por meio da noção de fantasia. O modo fantástico, para Jackson, assume diferentes fantasias em histórias com variados temas e formas. Tal modo parte de dois grandes polos: o maravilhoso e o mimético. O primeiro abarca relatos nos quais não se questiona a versão que o narrador apresenta dos fatos, inclusive quando parecem contrariar o processo da narração; o segundo abrange narrativas que imitam uma realidade externa. Seguindo a perspectiva modal, o recorte do simpósio não se refere, então, a uma delimitação em torno do gênero ou de uma espécie demarcada da literatura fantástica, porém ao conjunto de textos literários pertencentes aos países falantes das literaturas neolatinas ou românicas, como é o caso da literatura brasileira, da portuguesa, da francesa, da espanhola, da italiana, da catalã, da romena, dentre outras. O objetivo dessa delimitação é oportunizar a divulgação de trabalhos sobre a literatura fantástica que utilizem como corpus de análise a rica literatura dos países falantes das línguas neolatinas, literatura essa que apresenta a tessitura de enredos em que eventos insólitos invadem a aparente realidade racional do cotidiano, como nas obras de alguns de seus autores representativos, que se destacam não somente no âmbito da literatura fantástica, mas representam amplamente a literatura de seus países. Com um corpus que abriga literaturas diversas, tendo em comum as línguas de expressão neolatina, a proposta pode abrigar perfeitamente trabalhos que partem de uma ótica comparatista a fim de estudar distintas formas de ficcionalização do fantástico em duas ou mais literaturas de países diferentes.

Roland Gerhard Mike Walter (UFPE)
Tania Maria de Araújo Lima (UFRN)

Para Édouard Glissant (1997), um dos objetivos da teoria da literatura comparada deve ser a reativação da "estética da terra" — uma "estética de interrupção, ruptura e conexão" que envolve "a imaginação". Segundo Glissant, o inicio de qualquer analise cultural tem que focalizar aquilo que gera as nossas culturas, ou seja, o dinamismo dos seus conteúdos inter-relacionados. A poética de relação glissantiana focaliza este dinamismo transcultural através de uma escritura em busca de respostas à questão da outridade/outrização e da dupla maldição que constitui a base da fundação das sociedades nas Américas: a brutalização do ser humano relacionada à brutalização do ambiente desde o passado ao presente. Neste sentido, a "estética da terra" ao enfatizar que a terra e o habitante da terra são saturados por traumas de conquista — o que o poeta e pensador caribenho Wilson Harris (1981) chama "o fóssil vivo de culturas enterradas" — liga o individuo, a comunidade e a terra no processo de criar história da não-historia colonial/ imperial. Glissant espera que a literatura possa ensinar a força inter/ transbiótica "da interdependência de todas as terras, do mundo inteiro". O pensamento de Glissant é uma das mais influentes tentativas recentes de transcender os binarismos excludentes em direção a um pensar comparativo e interdisciplinar que suplementa a diferença cultural como separação por uma diferença cultural enquanto diversidade relacional. Neste sentido, Glissant dialoga com outros pensadores panamericanos como Gloria Anzaldúa, Guillermo Gomez-Peña, Leopoldo Zea, Serge Gruzinski e Walter Mignolo, entre outros. Esta valorização da diferença cultural heterogeniza as totalidades, constituindo o continente panamericano como um mosaico de múltiplos 'entre': lugares, cosmogonias, epistemes, etnias, raças, gêneros, etc. Neste sentido, o simpósio focaliza as seguintes questões básicas: Quais são os diversos aspectos e matizes do 'entre' temporal, espacial, identitário e étnico-cultural que caracteriza as terras americanas? E como trabalhar "a estética da terra" em relação com os diversos tipos do 'entre' representados nas literaturas das Américas? Se as nações americanas nasceram e desenvolveram por meio de processos transculturais, estes processos envolvem atos de transferência mnemônica dinâmicos entre diferentes grupos étnico-culturais determinados por diversos lugares, tempos e experiências. Por causa da multiplicidade de identidades sociais, culturais e étnico-raciais que compõem as nações americanas, é crucial analisar os diferentes usos de memória pelos diversos grupos étnicos. Neste sentido é de suma importância perguntar quem rememoriza o quê e por quê? Que versão do passado é preservada? Qual a ligação entre memória e contramemória? Em outras palavras, qual é a relação entre o lugar/ espaço e a geografia mnemônica de assentimento e conformismo por um lado e de resistência social, cultural e étnico-racial por outro? Dentro da episteme cultural — a maneira como o indivíduo vê a sua posição de sujeito numa sociedade (ethos) e como, a partir desta posição, ele/ela vê o mundo e pensa/ age neste (cosmovisão) — a identidade étnica do sujeito constrói-se a partir da diferença. A consciência coletiva, portanto, se cria por meio de uma relação tensiva entre definições exógenas e endógenas de pertencimento étnico-cultural: um processo dinâmico dentro do tecido político-econômico e sociocultural determinado pela rede de relações de poder que constituem a estratificação hierárquica de uma sociedade/ nação/ tribo, comunidade, grupo, etc. Eis as perguntas resultantes: Como a diversidade étnica é articulada nas representações textuais? Qual o papel da memória/ história e ideologia neste processo? Como se inter-relacionam os vetores socioculturais e identitários de 'etnicidade', 'raça', 'sexo', 'gênero' e 'classe', e com quais efeitos sobre a subjetividade e o agenciamento dos sujeitos? Se a etnicidade (Barth, Hall) e o gênero (Butler) em sua inter-relação com outros vetores podem ser vistos como meios pelo qual as diferenças culturais são articuladas, então eles funcionam como instrumentos cognitivos que orientam as pessoas em suas relações intersubjetivas; em outras palavras, etnicidade e gênero podem ser vistos como ação social e organização das relações sociais. Como mapear e problematizar em análises literárias a diferença cultural enquanto capacidade cognitiva nestes dois desdobramentos? Como é que a diferença designa o outro? Como os limites da diferença são constituídos, mantidos e dissipados? As percepções da diferença cultural afirmam diversidade ou são mecanismos de formas e práticas discriminatórias e excludentes? Como se traduz a diferença cultural nos entre lugares transnacionais e transculturais caracterizados por ruptura espacial, temporal, cultural e mnemônica? De que modo, as significações, a solidariedade, as identidades étnico-culturais e as políticas feministas e ecológicas fornecem a base do agenciamento? Neste sentido, convidamos trabalhos que em diálogo com estas perguntas analisam textos de autores interamericanos de maneira comparativa com base nos seguintes eixos temáticos: a) A relação entre identidade, espaço e memória no processo histórico. b) A interface oralidade/ escrita no processo constitutivo da identidade. c) Os vetores socioculturais de etnicidade, raça, gênero, orientação sexual, idade e classe e seu papel na inter-relação 'memória/ identidade/ espaço. d) Diversas formas e práticas de outrização e resistência a estas. Referências Bibliográficas: BARTH, Fredrik. Ethnic Groups and Boundaries. London: George Allen, 1970. BUTLER, Judith. Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity. London/New York: Routledge, 1990. GLISSANT, Édouard. Poetics of Relation. Ann Arbor: The University of Michigan Press, 1997. HALL, Stuart. New Ethnicities. In: DONALD, J. e RATTANSI, A. (Org.). Race, Culture &¨Difference. London: Sage, 1992, p. 252-259. HARRIS, Wilson. Explorations: A Selection of Talks and Articles 1966-1981. Mundelstrap: Dangeroo Press, 1981.

Fernanda Aquino Sylvetre (UFU)
Karin Volobuef (UNESP/ARARAQUARA)

O tema do fantástico vem povoando o imaginário das pessoas há tempos sem fim, embora continue gerando desconfiança e até repúdio nos meios acadêmicos e seja muitas vezes tratado como patinho feio pela crítica literária universitária. Tudo que é desconhecido, não compreendido, desperta fascínio, vontade de se explicar. O fantástico, nessa perspectiva, seria suscitador de curiosidade, de atração. Como lembra Held (1980), o interesse pela narrativa fantástica reside no fato de ela nos ensinar algo sobre a vida dos povos e das pessoas, tratando, dessa maneira, de nossas preocupações e problemas. Paradoxalmente, a produção de obras marcadas pelo fantástico tem-se mostrado progressivamente mais fértil e multifacetada. Tal amplitude e riqueza nos justifica a propor o assunto em eventos científicos que possam promover uma discussão mais aprofundada da literatura fantástica e, assim, ajudem a fomentar não só a pesquisa no meio acadêmico, mas também sua leitura e estudo nas escolas de ensino fundamental e médio e nos lares daqueles que entraram em contato com narrativas insólitas por meio da divulgação de estudiosos da área. O simpósio pretende discutir narrativas em língua estrangeira que tenham como tema o insólito e, assim, de alguma maneira transgridam a realidade cognoscível do mundo que nos cerca, gerando tensão na construção de um universo ficcional pautado na oscilação entre realidade e não-realidade, que abre caminho à manifestação do sobrenatural ou insólito. Podemos dizer, então, que abordaremos aquelas narrativas em que as ordens do real e do sobrenatural se chocam ou se entrelaçam, gerando tanto as ambiguidades, incertezas, indignação frente a situações incongruentes, quanto uma paradoxal aceitação de eventos diante dos quais se esperaria a hesitação. Os trabalhos propostos poderão abordar as diversas faces da literatura fantástica, a saber o maravilhoso, o gótico, o realismo mágico, a ficção científica, o romance de fantasia, o estranho, o horror, o absurdo, entre outras vertentes que se sustentam pelo viés do insólito. O simpósio pretende, ainda, refletir sobre as teorias que sustentam a literatura de cunho fantástico, por meio do diálogo que estabelecem com o texto literário. Ressaltamos que as teorias utilizadas como ferramental para discussão ou análise nos trabalhos (comunicações inscritas) podem ser dos mais variados matizes e tendências, englobando desde os estudos de Nodier, Maupassant, Lovecraft, Propp e Castex, até as reflexões acerca da literatura vinculada ao insólito, como Vax, Caillois, , Bellemin-Noël, Todorov e Bessière. Também serão bem vindos os diálogos teóricos mais recentes, como os de Furtado, Ceserani, Alazraki, Spindler, Roas, etc. O interesse do simpósio está centrado não apenas na discussão das teorias sobre o fantástico em si, mas inclusive na verificação de como essas teorias dialogam com a literatura insólita de língua inglesa, francesa, italiana, alemã, ou qualquer outra língua estrangeira. Inserem-se aqui, ainda, pesquisas no âmbito da literatura comparada, desde que envolvam pelo menos uma narrativa em língua estrangeira. Questões envolvendo a produção de autores contemporâneos como, Angela Carter, Robert Coover, Margaret Atwood e Barbara Walker, por exemplo, os quais retomam o insólito de modo a interceptar o conto de fadas e/ou outras vertentes, relendo textos consagrados pela tradição, a fim de conceder novas roupagens a eles, mais condizentes com o mundo atual e destinados a avaliar o texto original e questionar possíveis lacunas, também poderão ser trazidos à baila no âmbito do simpósio. É relevante ressaltar que o simpósio em questão vincula-se a um trabalho maior protagonizado por pesquisadores de diversas universidades do Brasil, nas quais tem sido desenvolvidas atividades voltadas à literatura fantástica por meio de grupos de pesquisa cadastrados no CNPq e de eventos (com dimensões variadas) que promovem. Também é oportuno mencionar que os frutos dessa pesquisa em andamento vem sendo divulgado nos eventos da ABRALIC (2011, 2012, 2013 e 2014) e da ANPOLL (2012 e 2014) e vem se solidificando com a organização de livros e revistas que se voltam ao fantástico e suas vertentes, bem como a produção de artigos para revistas qualificadas e de capítulos de livros. A escolha pela literatura estrangeira como objeto de estudo se deve à possibilidade de diálogo que ela abre com a literatura brasileira, bem como pela possibilidade de se divulgar uma literatura que muitas vezes é pouco acessível nos meios acadêmicos para quem não cursa determinada língua estrangeira, principalmente em se tratando da literatura fantástica.

Referências Bibliográficas

ALAZRAKI, Jaime. Qué es lo neofantástico? In: ROAS, David. Teorías de lo fantástico. Madrid: Arco: Libros, 2001. p.265-282.
ARMITT, Lucie. Theorising the Fantastic. London: Arnold, 1996.
BELLEMIN-NOËL, Jean. Notes sur le fantastique (textes de Théophile Gautier). Littérature, Paris, n.8, p.3-23, 1972. Disponível em: http://www.persee.fr/articleAsPDF/litt_0047-4800_1972_num_8_4_1051/article_litt_0047-4800_1972_num_8_4_1051. pdf. Acesso em: 14 jun. 2014.
______. Des formes fantastiques aux thèmes fantasmatiques. Littérature, Paris, v.2, n.2, p.103-118, 1971. Disponível em: http://www.persee.fr/articleAsPDF/litt_0047-4800_1971_num_2_2_2515/article_litt_0047-4800_1971_num_2_2_2515. pdf. Acesso em: 24 jan. 2014.
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BROOKE-ROSE, Christine A Rhetoric of the Unreal. Studies in Narrative and Structure, Specially of the Fantastic. Cambridge: Cambridge University Press, 1981.
CAILLOIS, Roger. De la féerie à la science-fiction. In: ______. Anthologie du fantastique. Paris: Gallimard, 1966a.v.1, p.7-24.
CAMARANI, Ana Luiza Silva. A poética de Charles Nodier. São Paulo: Annablume; Fapesp, 2006.
CASTEX, Pierre-Georges. Le conte fantastique en France de Nodier à Maupassant. Paris: Corti, 1962.
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CUMMISKEY, Gary. The Changing Face of Horror: A Study of the Nineteenth-Century French Fantastic Short Story. New York: Peter Lang, 1992.
FURTADO, Filipe. A construção do fantástico na narrativa. Lisboa: Livros Horizonte, 1980. (Horizonte Universitário).
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______. Adieu mystères. Le Gaulois, Paris, 8 nov. 1881. Disponível em: http://www.maupassantiana.fr/Oeuvre/ChrAdieumysteres. html. Acesso em: 23 abril 2013b.
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Organon. Revista do Instituto de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, v. 19, n. 38/39 (O estranho, o maravilhoso, o fantástico), 2005.
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Maria Carolina de Godoy (UEL/UFRJ/CNPq/Fundação Araucária)
Fernando de Sousa Rocha (Middlebury College)

A pesquisa da literatura afro-brasileira insere-se no contexto dos estudos culturais e propõe o debate acerca da revisão de critérios para o estudo das obras situadas fora do eixo do estabelecido cânone literário. A própria revisão desse cânone está pressuposta ao abrirmos novas perspectivas e olhares para as produções literárias provenientes de grupos capazes de integrar todas as artes, além da literária, em torno de posicionamentos que pretendem promover não só mudanças sociais profundas, mas também revisões no modo de abordagem tradicional da arte. Entende-se por visão tradicional de abordagem artística as teorias que consideram como única forma de estudo literário a análise imanente ou estrutural do texto, ou ainda, sua literariedade proposta pela corrente formalista. Quando se aborda a literatura levando-se em conta outros pressupostos de representação artística inscritos em torno das ou além das especificidades linguísticas, ou seja, propondo-se estudo mais amplo que envolva representações discursivas inscritas no texto e ao seu redor, a análise imanente tende a ser o ponto de partida para os estudos dessas obras e não o único possível para considerá-las literárias ou não. Considerando que a produção literária de autoria negra apenas recentemente tem ocupado espaço, há obras que se destacam por seu valor histórico-documental e pedem especial atenção a esse aspecto e outras em que o aprimoramento linguístico pode ser evidenciado. Entende-se, desse modo, o conceito de literatura afro-brasileira na perspectiva de Eduardo de Assis Duarte (2011) que propõe alguns critérios para a adoção dessa denominação: temática, autoria, linguagem, ponto de vista e público. Segundo ele, deve haver interação desses elementos no texto, todos relacionados ao negro, e não serem tratados de forma isolada. Ao se considerarem, além disso, os novos meios de produção e divulgação da arte observa-se a necessidade cada dia mais evidente de discussões em torno de temas, algumas vezes excluídos do campo artístico, como mercado, consumo cultural e inclusão social. Os estudos sobre literatura afro-brasileira compreendem tanto o enfoque linguístico quanto cultural, uma vez que é visível no registro dessa manifestação artística a preocupação em expressar as diversas vozes de culturas em diálogo e o modo como ocorreram seus deslocamentos de um espaço a outro em constante tradução que, na acepção de Stuart Hall (2005, p.88), "[...] descreve aquelas formações de identidades que atravessam e intersectam as fronteiras naturais, compostas por pessoas que foram dispersadas para sempre de sua terra natal". Ainda, segundo Hall (2005, p.88) "[elas] retêm fortes vínculos com seus lugares de origem e suas tradições, mas sem a ilusão de um retorno ao passado.". São identificadas marcas dessas traduções culturais ao se observarem, na literatura afro-brasileira, a expressão linguística, a seleção de temas, os aspectos discursivos, o debate histórico e social sobre a identidade negra no Brasil ou quando se destaca o modo como autoras e autores negros colocam em diálogo formas artísticas diversificadas, ao utilizarem, por exemplo, mais de um meio de manifestação de sua arte: a escrita, a música, o sarau, o espetáculo teatral. O acesso às informações sobre os escritores da literatura afro-brasileira pode ser obtido via web e é possível, até mesmo, manter contatos com os autores via site, blogs ou facebook. Essa abertura oferecida pelo mundo digital nada significa se não houver a difusão das informações, em sala de aula, sobre esse material, após ser realizada a inclusão digital dos leitores que desconhecem esse meio. O reconhecimento desses autores estabelecido no espaço educacional pode se tornar fundamental para que essas obras sejam cada vez mais difundidas pelos meios impressos e digitais, promovendo debates a respeito da diversidade racial e trazendo novos perfis de personagens, heróis e heroínas que refletem de maneira mais ampla a diversidade cultural escolar o que leva as discussões deste simpósio tanto para o espaço teórico quanto educacional. O simpósio aceita trabalhos que coloquem em debate abordagens críticas e teóricas diversificadas da literatura escrita por autoras e autores negros; acolhe estudos da representação da cultura afro-brasileira em obras artísticas diversas; aceita análises comparativas entre a literatura e outras formas artísticas, produzidas ou não por negros, que tratem da presença da cultura afro; interessa-se pela problematização dos modos de divulgação de expressões artísticas afro-brasileiras e suas condições de produção e recepção; recebe trabalhos sobre a presença da literatura afro-brasileira em sala de aula do ensino infantil ao universitário e sobre condições de pesquisa no espaço acadêmico.

Referências Bibliográficas

BHABHA, Homi K. O local da cultura. Tradução de Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis, Gláucia Renate Gonçalves. 2 ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013.
DUARTE, Eduardo Assis; FONSECA, Maria Nazareth Soares. (Org.) Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Belo Horizonte: UFMG, 2011. v. 4.
HALL, Stuart. Da diáspora – identidades e mediações culturais. Org. Liv Sovik. Tradução de Adelaide La Guardia Resende et. al. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2003.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 10. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.
SILVA, Tomaz Tadeu (Org.). Alienígenas na sala de aula: uma introdução aos estudos culturais em educação. Petrópolis: Vozes, 1995.
SILVA, Tomaz Tadeu. (Org.). Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2007.

Suzi Frankl Sperber (UNICAMP)
Sandra Luna (UFPB)

Retomamos a proposta de estudar dramaturgia, continuando a examinar tanto o texto dramatúrgico autoral quanto a cena. A acolhida a essa dupla injunção, literária e teatral, fundamenta-se justamente na convicção de que, sob perspectivas dos estudos literários, o drama não tem merecido a atenção concedida a outros gêneros, sobretudo no contexto brasileiro, no qual a tradição dramatúrgica não se sobreleva em relação a outras formas ficcionais, narrativas ou poéticas, entrevistas como pilastras de nossa herança nacional e mais seguramente afeitas a abordagens mais especificamente literárias. Do ponto de vista dos estudos teatrais, o drama também se revela obscurecido, e por motivos opostos, por um lado, por representar uma longa, incontornável e por vezes opressora tradição de cujas convenções não se consegue escapar, a não ser por via de um proposital "esquecimento" ou "negação", como o quer o chamado teatro "pós-dramático", cujo rótulo faz ainda ecoar a própria tradição. Por outro lado, se para os estudiosos da literatura o drama é excessivamente teatral, contaminado por uma concretude cênica que escapa a interesses mais especificamente literários, para os estudiosos do teatro contemporâneo, o drama é uma área excessivamente literária, poética, discursiva, sobretudo considerando-se que a própria experiência teatral no século XX priorizou o espetáculo, concedendo especial atenção a outras linguagens, a recursos cênicos, à arte e ao corpo do ator, valorizando aspectos que hoje consubstanciam pontos centrais na formação dos profissionais do teatro. Já notáramos, em nossas propostas anteriores, a dificuldade de fomentar estudos sobre Dramaturgia em instituições que aquartelam saberes em departamentos distintos. Desde as suas origens, o drama habita espaços movediços. Para além da imediata associação entre dramaturgia e teatro, cujos elementos constitutivos apontam para outras artes (aí incluídas a retórica, a oratória, a música, a dança, a cenografia, a arte do ator, as festas populares quer reúnem ritual, texto, música e dança etc) o próprio conceito de "ação", implicado na teoria do drama desde a teorização de Aristóteles, conduz esta forma artística a várias frentes investigativas, fazendo-a adentrar os domínios da filosofia, da antropologia, da sociologia, da política, da religião, do sagrado, o que torna este gênero, portanto, lugar, por excelência, de encontro e de experimentação de várias artes e de vários saberes. Não surpreende que uma forma artística com tantos portais de acesso somente com dificuldades encontre lugares institucionais que possam assumir a inter-, a multi- e a transdiciplinaridade que a constituem. Assim, seguindo de perto o recentíssimo acolhimento à pluralidade de discursos no âmbito da academia, pretendemos, nesta nova edição da ABRALIC, nos posicionar diante dos estudos que agora propõem o conceito de nação e de tradição literária nacional como novo enfoque. Considerando, por um lado, a tradição milenar que no ocidente posicionou o drama no centro das artes do espetáculo e reconheceu a tradição como fonte de diálogo, portanto legitimando a noção transnacional e mesmo multinacional e, por outro, os novos focos de investigação sobre as artes do corpo, que concebem a questão da territorialidade relativa ao próprio corpo e suas extensões, vibrações, afectações, propomos este simpósio como espaço privilegiado para reflexões sobre o atual momento nesses dois cenários – o palco e a academia, confrontando estudos sobre o universo dramático, em seu domínio literário e cênico, acrescentando, agora, como tema para debate, tanto o distanciamento da arte teatral do paradigma do drama, da construção da ilusão, como a estética da presença. Especialmente, esperamos poder debater os campos territoriais ocupados pelo corpo no texto e em cena, graças à criação de ações-matrizes físico-vocais no contexto poético de criação ficcional e espetacular – que passa pela possível ativação conjunta de microações, microafetos e micropercepções. O conceito de nação talvez desponte conforme pudermos definir características recorrentes na cena e dramaturgia nacionais – de grupos, regiões – em contraponto a tendências que decorrem da tradição em seu sentido mais amplo, transnacional, multinacional. Interessa-nos conhecer e debater a dramaturgia teórica e prática nos seus fluxos e diferentes correntes, tanto literárias como artísticas, a saber, teatrais propriamente ditas. Abrigaremos, pois, tanto questões relativas aos Estudos Literários, incluindo as fronteiras dos países latinos e mesmo para além destas, como trabalhos que levem em conta questões que entrelaçam corporeidades cênicas, seus modelos e desvios, com a dramaturgia.

Julio Cesar França Pereira (UERJ)
Claudio Vescia Zanini (UNISINOS)

"Gótico" é um conceito fugidio, que possui uma notável capacidade de adaptação aos mais diversos usos. A história do termo é longa e rocambolesca, e faz parecer inglória qualquer tentativa de conciliar seus significados mais restritos com seus usos mais amplos. Ao longo de séculos, tem sido empregado para rotular as mais díspares ideias, tendências, autores e obras, e, nas últimas décadas, especialmente, a palavra passou a funcionar como um termo "guarda-chuva", tendo seu sentido diluído e sua força conceitual esvaziada. Afinal, gótico é um adjetivo pátrio, que se referia a uma das tribos germânicas responsáveis pela queda do Império Romano, os Godos. É também um termo que os renascentistas utilizaram para nomear o estilo arquitetônico medieval, considerado "bárbaro", sem refinamento, monstruoso, desordenado, em oposição, é claro, à arte clássica – e, por extensão, o termo passou a se referir à Idade Média como um todo. É o nome de uma subcultura de arte e moda contemporânea, caracterizada pelo apreço pelos temas da melancolia, do horror e da morte. E, por fim, no âmbito da história da literatura, é o estilo dos romances escritos entre o fim do século XVIII e o início do XIX, sobretudo na Inglaterra, notabilizados pela produção do horror e/ou terror como efeito de recepção. Surgida no limiar da modernidade iluminista, a literatura gótica tem se revelado duradoura como a própria modernidade dentro da qual se engendrou, o que se confirma nas sucessivas reedições e atualizações do gênero até os dias de hoje, tanto na literatura quanto nos diversos meios de comunicação. No cenário globalizado e pluralizado da contemporaneidade, categorias do Gótico exógenas ao cenário europeu, como o "American Gothic", o "Southern Gothic" e até mesmo o "Tropical Gothic", vêm ocupando espaço nos trabalhos acadêmicos em um movimento de hibridismo cultural no qual a hegemonia do centro passa a conviver com a pluralidade das margens. No que concerne o seu temário, o gótico é tão vasto quanto as definições que lhe foram atribuídas ao longo da história. Assim como existe a ligação quase que imediata do gótico com a escuridão e seus ruídos e fantasmas, há também a exploração do onírico e do fantástico, a intensidade de sentimentos como o amor, a angústia e o isolamento, sentimento este que frequentemente surge no gótico a partir da percepção do sujeito de que ele não pertence – ao menos não totalmente – ao meio social em que se insere. Aqui também cabe fazer referência ao espaço, que no mais das vezes se configura como personagem crucial da narrativa gótica: a casa de Usher, o laboratório de Victor Frankenstein, a taverna inebriante de Álvares de Azevedo, o bosque do acampamento Crystal Lake, o Castelo de Drácula, o inferno dos cenobitas em Hellraiser, o subconsciente humano e suas inúmeras formas que Freddy Krueger explora tão bem em A Hora do Pesadelo, a abadia medieval de O Nome da Rosa, além das idealizações regionais macabras contemporâneas percebidas em filmes como O Albergue (leste europeu), Turistas (Brasil), Wolf Creek (Austrália) e Viagem Maldita e O Massacre da Serra Elétrica (desertos dos Estados Unidos). O Grupo de Pesquisa Estudos do Gótico (CNPq) propõe, em uma perspectiva tanto transcultural quanto transdiscursiva, discutir essa tendência do espírito moderno, que afetou profundamente os modos de pensar, de sentir e de expressar a arte nesses 250 anos de sua permanência na literatura, na cultura e no imaginário do mundo ocidental. Serão acolhidas propostas que abarquem análises de corpus relacionadas ao gótico, as quais incluem, mas não se limitam a: seus diferentes movimentos regionais (tais como o gótico americano, "Southern American Gothic", gótico tropical, gótico canadense), seus momentos histórico-sociais (por exemplo, gótico vitoriano, do início do século XX, o pós-gótico) diferentes mídias (texto impresso, cinema, televisão, artes plásticas), além das inúmeras possibilidades teórico-críticas que relacionam o gótico aos estudos comparatistas, à psicanálise, estudos de gênero, estudos de simbologia e mitologia, pós-colonialismo, estudos culturais e teorias da pós-modernidade. Referências Bibliográficas BOTTING, Fred. Gothic. 2nd ed. New York: Routledge, 2014. CARROLL, Noël. The philosophy of horror or the paradoxes of heart. New York: Routledge, 1990. COLAVITO, Jason. Knowing Fear; Science, knowledge and the development of the horror genre. Jefferson, NC: McFarland, 2008. HOGLE, Jerrold E. (editor). The Cambridge Companion to Gothic Fiction. New York: Cambridge University Press, 2002. KRISTEVA, Julia. Powers of Horror: An Essay on Abjection. New York: Columbia University Press, 1982. PUNTER, David (editor). A Companion to the Gothic. Malden: Blackwell Publishing, 2006. WILLIAMS, Anne. Art of Darkness: a poetics of gothic. Chicago: University of Chicago Press, 1995.

Daniel Conte (FEEVALE)
Ricardo Postal (UFPE)

No âmbito da narrativa de expressão portuguesa contemporânea, inexistem fronteiras nítidas, pois a ficção se expressa por um movimento em que os discursos histórico e literário se cruzam, cabendo a essa iluminar a realidade que lhe deu origem. Nesse sentido, há um diálogo das narrativas com a história, o qual valoriza a memória como elemento deflagrador e a representação de conflitos de identidade, o que permite analisá-las em suas correlações recíprocas tanto no que se refere ao mundo ficcional instituído quanto ao processo discursivo que lhes dá forma. A história torna-se, assim, tema das narrativas e não apenas mero pano de fundo. Reinterpretando e transfigurando artisticamente a história, a narrativa dá forma à realidade de sujeitos sociais, sintetizando acontecimentos e anseios coletivos, ainda que esses sejam manifestados pela ação de personagens e por meio da ficção. Paralelamente, a partir de sua composição, essa modalidade de narrativa transforma o leitor em cúmplice de um exercício estético que infringe e subverte tradicionais discursos da história, bem como as formas de conceber a ficção, que mostra uma face híbrida, sem que se possa determinar os limites entre fantasia e realidade. A história é uma indagação sobre a verdade dos fatos produzidos por atores sociais; no entanto, o resultado dessa atividade reflexiva é sempre parcial e está comprometido com o sujeito enunciador do discurso, com o tempo do discurso, com o público ao qual esse se destina. A ficção, por sua vez, também consiste na busca de uma "verdade", que pode ter como objeto um acontecimento histórico, mas dele abstrai a experiência do ser humano com o seu passado. Nessa representação, em que história e ficção emergem, a presença de um sujeito que expõe sua ideologia e, consequentemente, a de seu grupo e a de seu tempo igualmente se destaca. Assim, história e ficção são discursos elaborados por meio de uma narração que, situada em um tempo presente, tenta resgatar e recompor o passado. Nesse sentido, ambos os discursos se originam em uma construção imagética, cujas lacunas e silêncios devem ser preenchidos pelo leitor, que lida, simultaneamente, com o factual e o fantasioso. Dessa forma, o resgate e a representação das formas assumidas pela vida humana no passado opõem-se à sua reconstrução objetiva, uma vez que pressupõem a criatividade e a imaginação, caracteres essenciais do fazer ficcional. Vislumbram-se, nessa perspectiva, a capacidade da Literatura de não só registrar e ficcionalizar fatos históricos concernentes à vida dos povos, mas também de, na plenitude de sua potencialidade ficcional, fazer história. A defesa de um diálogo entre a Literatura e a História sublinha a circunscrição do discurso histórico como uma prática eminentemente narrativa. E é justamente isso que fazem escritores de literatura contemporânea em língua portuguesa ao conferirem maior amplitude aos fatos históricos, revendo, por via da ficção, as narrativas manifestadas pelo discurso oficial dos estados português, brasileiro, moçambicano, angolano, guineense, cabo-verdiano, são-tomeense e timorense. Exposições ficcionalizadas dos acontecimentos históricos desses países fundamentam-se em narrativas que revelam a coerência, a integridade, a plenitude e a inteireza de uma imagem de vida que é, e só pode ser, imaginária. Neste simpósio, abre-se espaço para a realização de exercícios teórico-críticos que incidam sobre narrativas da literatura contemporânea lusitana, brasileira e luso-africana que reflitam sobre a história, sustentando-se nos influxos da memória e tratando da representação e dos conflitos de identidades. Essas narrativas revelam-se objetos privilegiados para a investigação das relações interdisciplinares entre a literatura e a história e para a apreensão de significações que, inscritas em imagens simbólicas, configuram uma memória coletiva em que identidades se confrontam, se permeiam e se hibridizam. É a partir desse enfoque que o simpósio se volta para a análise da interlocução entre Literatura e História, visando a ampliar as discussões sobre a constituição das identidades portuguesa, brasileira e luso-africana, na tessitura de narrativas. Convergem para essa proposição autores como António Lobo Antunes, José Saramago, Lídia Jorge, Valter Hugo Mãe, Ana Paula Riberio Tavares, José Eduardo Agualusa, Chico Buarque, Milton Hatoum, Paulina Chiziane, Pepetela, Luís Cardoso, Gonçalo Tavares, João Almino, Ana Miranda, entre outros, cujas narrativas têm merecido estudos isolados, sem que a representação histórico-social, a engenhosidade, a criatividade e a novidade de sua produção sejam relacionadas entre si, perspectiva que suas configurações estéticas provocam e que novos caminhos da crítica suscitam, razão por que este simpósio mostra-se como um campo profícuo para suas atualizações.

Laura Taddei Brandini (UEL)
Valter Cesar Pinheiro (UFS)

A figura do estrangeiro, tão em pauta atualmente, para além de questões políticas, econômicas e ideológicas, constitui-se – na medida em que o estrangeiro é aquele que é introduzido em um dado contexto que lhe é estranho – como um tema de grande relevância para os estudos comparados, pois evoca o deslocamento e as relações entre culturas. Sua definição foi e tem sido objeto de reflexão de autores que, como Michel de Certeau, vêm o estrangeiro como peça-chave constitutiva das sociedades: "Ora, toda sociedade se define pelo que ela exclui. Ela se constitui se diferenciando. Formar um grupo é criar estrangeiros. Uma estrutura bipolar, essencial para toda sociedade, estabelece um 'fora' para que exista um 'entre nós'; fronteiras, para que se desenhe um país interior; 'outros' para que um 'nós' tome corpo" (2005: 14, tradução nossa). Esse "alguém de fora" também se apoderará – muitas vezes na condição de protagonista! – do espaço literário, como prenuncia o título homônimo dos romances de Plínio Salgado (1926) e Albert Camus (1942): O Estrangeiro. A inserção desse elemento externo em um novo habitat, como evidencia o trágico destino dos heróis das duas narrativas citadas (Ivan se suicida e Meursault é condenado à morte), ganha, por conseguinte, contornos de conflito irresolúvel. O estrangeiro, por meio dos mais variados prismas, problematiza a relação entre o Eu e o Outro, com a particularidade de circunscrevê-la a um território: pois só há estrangeiro quando uma fronteira, física ou metafórica, é cruzada, cumprindo seu papel regulador, ou não, em caso de ilegalidade (Debray, 2010). Todavia, o estrangeiro pode trazer consigo uma história e características próprias, existindo, também, por si só e previamente. "Menos estrangeiro no lugar que no momento / [seguindo] mais sozinho caminhando contra o vento" (Caetano Veloso, "O Estrangeiro"), este "outro" reforça uma cultura e presentifica um passado, colocando-os em relação – harmoniosa ou de atrito – com o contexto em que ele se encontra. Propomos que neste simpósio a noção de estrangeiro, por um lado, seja compreendida em seu sentido mais lato, e, por outro, aplicada ao estudo literário, isto é, que o estrangeiro seja visto como personagem, narrador, voz lírica, enunciador, ou até mesmo como uma forma estrangeira, um discurso, um espaço ou um tempo estrangeiro em uma obra literária – conto, crônica, romance, poesia, teatro, ensaio, escrita. Tal noção, quando associada às categorias da análise literária, desempenha o papel de um tipo de intertexto metafórico, como uma intromissão de um Texto, no termo de Barthes (2002), em outro. Pois, na célebre definição de intertextualidade de Julia Kristeva, "(...) todo texto se constrói como um mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de outro texto. No lugar da noção de intersubjetividade instala-se a de intertextualidade, e a linguagem poética se lê, pelo menos, como duplo. A palavra é colocada no espaço: funciona em três dimensões (sujeito – destinatário – contexto) como um conjunto de elementos sêmicos em diálogo ou como um conjunto de elementos ambivalentes" (1969: 85, tradução nossa). O estrangeiro, enquanto Texto independente, peça do "mosaico de citações" e elemento estranho ao texto no qual está inserido, sob qualquer uma de suas formas não só interfere na economia do texto primeiro, afetando sua "produtividade" (Kristeva, 1969: 52), como a ele se interpõe, estabelecendo uma polaridade a partir da qual o texto começa a funcionar. O espaço textual em que o estrangeiro se movimenta é reduzido, e as três dimensões apontadas por Kristeva tornam-se duas: estrangeiro – local, ou não-estrangeiro. A presença do estrangeiro catalisa a ação dos demais elementos do texto, de modo que ele passa a existir em função da bipolaridade estabelecida. Tendo em vista essa concepção ampla do estrangeiro – que, por um lado, age no texto desempenhando o papel de uma categoria poética, narrativa ou simplesmente literária e, por outro, se faz compreender como elemento interno à enunciação –, propomos reflexões e discussões que privilegiem a presença dessa figura nas literaturas. Na qualidade de visitantes, turistas, exilados, refugiados, imigrantes, intermediários, expatriados etc., ou como discursos ou formas, como o estrangeiro interage com o não-estrangeiro em um dado texto ou conjunto de textos? Serão encorajadas as propostas de comunicação que se detenham sobre personagens, narradores, poetas, tradutores, espaços, temporalidades, formas textuais e discursos estrangeiros, bem como sobre as relações entre culturas diferentes de um modo geral, desde que ancoradas em leituras de obras literárias. Referências bibliográficas: BARTHES, Roland. "De l'œuvre au texte". In MARTY, Éric (org.). Œuvres complètes. Paris : Seuil, 2002, v. 3, p. 908-916. CAMUS, Albert. L'Étranger. Paris : Gallimard (Folio), 1972. CERTEAU, Michel de. L'étranger ou l'union dans la différence. Paris : Gallimard (Folio), 2005. DEBRAY, Régis. Éloge des frontières. Paris: Gallimard (Folio), 2010. KRISTEVA, Julia. "Le texte clos" ; "Le mot, le dialogue, le roman". In Sémiotikè. Recherches pour une sémanalyse. Paris : Seuil, 1969, p. 113-142 e 143-173, respectivamente. SALGADO, Plínio. O Estrangeiro. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972 [1926]. VELOSO, Caetano. "O Estrangeiro". In: VELOSO, Caetano. Estrangeiro (LP e CD). Brasil: Philips Records, 1989.

Bruno Barretto Gomide (USP)
Claudia Pellegrini Drucker (UFSC)

A literatura russa foi cedo descoberta pelos brasileiros, desde que foi divulgada por setores intelectuais, principalmente na França e na Alemanha. Apesar das dificuldades de tradução e da sua falta de compreensão do contexto intelectual russo, os leitores brasileiros sentiram uma afinidade entre a sua situação e a russa, tal como retratada no romance, assim como adotaram um certo estilo russo de prosa. As ciências sociais, por um momento, consideraram as possibilidades explicativas do paralelo, cristalizado na noção freyreana do Brasil como uma "Rússia americana". Se o comparatismo russo-brasileiro não fincou raízes profundas nas disciplinas históricas, dadas as diferenças objetivas de história e geografia entre os dois países, no campo das artes a influência da literatura russa atravessou os dois últimos séculos. Não se pode ainda falar em diálogo entre literaturas nacionais, mas de um diálogo regional sobre questões que o romance e a poesia russa levantam, que chega até os nossos dias apresentando uma diversificação inédita. A universidade começa a formar eslavistas que possam analisar criticamente os diversos matizes da recepção russa, ou traçar um painel mais preciso da arte russa. Os temas gerais propostos para o congresso da ABRALIC de 2015 parecem feitos sob medida para uma literatura como a russa. Com efeito, a reflexão sobre os trânsitos e traduções literárias esteve presente em todas as edições do simpósio temático sobre literatura russa. De fato, a literatura russa foi a primeira a pôr seriamente em questão a diferença rígida entre regional e universal. As literaturas europeias, apesar das diferenças nacionais, foram consideradas universais, ao invés de regionais, desde que a oposição começou a ser utilizada. Pode-se discutir os critérios que levaram até ela, mas o fato é que a literatura russa foi a primeira literatura não-europeia a se transformar em leitura obrigatória enquanto ainda fortemente suspeita de exotismo. Os russos foram os primeiros a mostrar que é possível ser ao mesmo tempo moderno artisticamente e atrasado historicamente. São modernos, por inovar o formato estabelecido do romance, e mais tarde o da poesia. Criaram arte contemporânea, desvinculada de doutrinas religiosas, diferentes, por exemplo, das obras clássicas do Oriente. Por outro lado, isso aconteceu antes de seu país adotar outras instituições ocidentais. A literatura russa é, por excelência, um outro frente à literatura europeia, mas um outro moderno o suficiente para permitir um intercâmbio. O romance russo exerceu forte impacto entre nós no mesmo período da grande onda de difusão na Europa (a saber, entre a Primeira e a Segunda Guerras mundiais). Entre nós houve um motivo adicional para o interesse. A possibilidade de uma arte moderna e de interesse universal surgir em um país atrasado atraiu para a literatura russa a atenção dos leitores europeu, mas talvez tenha atraído até mais a dos leitores de todos os países semi-periféricos ou apenas parcialmente integrados no Ocidente. Pode-se falar em uma aposta na arte de vanguarda sob a inspiração do caso russo, quando não em uma aposta na arte de vanguarda como instigadora de modernização. No espírito de uma modernização tendo a arte como vanguarda, na segunda metade do século XX o movimento concretista foi responsável pela difusão da arte russa pós-1917 entre nós. Não se pode negligenciar também a possibilidade de afinidades fortuitas e gratuitas entre autores, ou vivências partilhadas que venham se acrescentar a essa espécie de destino partilhado entre arte russa e brasileira. Deste modo, um simpósio sobre literatura russa está particularmente adequado a um congresso brasileiro sobre literatura comparada. O simpósio temático de literatura russa foi criado no encontro internacional da ABRALIC realizado em 2006 no Rio de Janeiro, com o objetivo de se tornar um espaço para a discussão contínua de temas de eslavística no âmbito de um congresso importante (não havia até então espaço similar dentro da universidade brasileira). Nas edições subsequentes do evento, em 2007, 2008, 2011 e 2013, o simpósio temático ajudou no fortalecimento acadêmico e profissional do tema, que vem passando, desde o começo da década de 2000, por um processo – fenômeno cultural dos mais significativos – de adensamento dentro da vida intelectual brasileira, com muitas traduções, congressos, teses e publicações. Nosso propósito, nos quatro primeiros encontros e no que agora se prepara, foi sempre o de acolher não apenas pesquisas de eslavistas, mas também trabalhos comparativos realizados por professores e pós-graduandos de outras áreas: história, ciências sociais, linguística, semiótica, jornalismo, filosofia e artes. Essa perspectiva interdisciplinar deverá se manter na edição de 2015. O simpósio ora proposto convida ao envio de contribuições nas seguintes áreas: 1) História e crítica da literatura russa; 2) Problemas de tradução; 3) Comparatismo estrito entre russos e brasileiros e relativo a outras literaturas nacionais; 4) Transposição da literatura para outras formas artísticas; 5) Contribuições interdisciplinares.

Sílvia Maria Azevedo (UNESP)
Jean Pierre Chauvin (USP)

Fenômenos da cultura de âmbito mundial que se registram em diferentes períodos da História, as polêmicas intelectuais configuram-se como um dos traços marcantes da vida política e cultural na América Latina, entre os séculos XIX e XX. A exemplo do que aconteceu no Brasil, frequentemente os debates resultaram do trânsito de seus autores em redações, editoras e gabinetes de homens influentes. Os interesses alheios, até certo ponto escusos, acompanham as contendas em suas variadas formas e sob múltiplas vozes. Articuladas em variados veículos e gêneros – manifestos, ensaios, correspondências, suplementos literários, revistas, entrevistas, debates, folhetos de cordel -, as polêmicas arregimentaram grande parte da intelectualidade, tanto da elite considerada letrada (jornalistas, literatos, juristas, médicos, políticos), quanto da esfera dita popular (repentistas, cantadores e cordelistas). Formas de intervenção discursiva que combinam as palavras escritas à imagética de seu tempo, as polêmicas intelectuais na América Latina percorreram os séculos XIX e XX com alarde e sem descanso, com participação de profissionais de diversos setores, em meio às singularidades históricas, políticas e culturais de cada tempo e país. Em sua configuração, os debates obedecem a determinados protocolos retóricos, tendo em vista a consagração dos próprios atores envolvidos junto aos diversos auditórios. Com o aval dos veículos - fossem eles de pequena, média ou grande tiragem -, a disseminação da palavra muitas vezes foi processada mediante a legitimação dos pares, envolvendo interesses de personagens diretamente envolvidos nas disputas ligados a variadas instâncias do poder. Naturalmente, os registros de textos de natureza antagônica revelam algumas dubiedades. Isso interessa particularmente às Letras, no âmbito dos estudos linguísticos e literários, já que a fatura do texto não apenas segue alguns expedientes discursivos pré-moldados, mas permite apontar o caráter artificial e postiço da polêmica em si. Ao lado de algum refinamento na linguagem, a contagiar também os modos e tons de dizer, uma coisa e outra não impediram o elemento ruidoso, entre opiniões e réplicas. A razão parece clara: quase sempre os autores exprimiam-se de determinado modo também como tentativa de ostentar sua habilidade em tecer argumentos contra um alvo em particular, convocando simultaneamente a adesão do público leitor. Objetivando localizar e analisar certas marcas de conteúdo, forma e expressão que aproximam os protagonistas de tais contendas de âmbito político e cultural, o grupo se propõe a responder algumas questões de forma e fundo, dentre as quais: 1. Em que medida as polêmicas envolvendo os intelectuais estariam mais ou menos ligadas a figuras públicas e/ou instituições de poder, nos países de origem? 2. Sob que aspectos as divergências no campo das ideias poderiam revelar o caráter personalista das figuras que se converteram em autênticos focos irradiadores dos debates? 3. De que modo se pode relacionar o teor e a qualidade das discussões a problemáticas relacionadas ao contexto social e histórico dos debates em marcha? 4. Afinal, o que se entende por "polêmica intelectual", especialmente naqueles países onde a produção de cultura, e o acesso por parte dos pares, bem como dos leitores em geral, é tímido? 5. Como avaliar o efetivo alcance de determinados debates, considerando a circulação de textos e imagens nos veículos disponíveis, a partir de meados do século XIX? 6. Seria a polêmica, em si, uma maneira apelativa e institucionalizada de clamar pela maior atenção de um público rarefeito, ainda em fase de constituição? Coordenado por dois pesquisadores que concentram seus estudos na época em que transcorreram o Reinado e a transição para a República no Brasil -, o simpósio busca reunir estudiosos de múltiplas áreas de conhecimento, com vistas a percorrer uma vasta relação de opositores no contexto brasileiro e latino-americano, cujas ideias e nomes ressoaram nos veículos de comunicação de seu tempo. O resgate das discussões sobre temas aderentes à cultura de cada país pode lançar novas luzes sobre a canonização da própria crítica, cujos efeitos podemos sentir ainda hoje.

Izabela Guimarães Guerra Leal (UFPA)
Marcelo Jacques de Moraes (UFRJ)

Desde os primeiros relatos sobre o "Novo Mundo" recém-descoberto, a noção de antropofagia tem servido como fonte de questionamentos que encenam a relação entre o próprio e o outro. Por um lado, na visão dos colonizadores portugueses e de vários cronistas viajantes europeus do século XVI, os índios foram vistos como seres dóceis, mas que cultivavam costumes bárbaros, sendo o mais chocante entre eles a prática do canibalismo. Michel de Montaigne, inspirado pelas crônicas de viajantes europeus como André Thevet e Jean de Lery, e conhecendo de perto alguns Tupinambás que foram levados à Europa, refletiu sobre os "selvagens" brasileiros no ensaio "Dos canibais" para chegar à conclusão que os bárbaros, na verdade, eram os europeus. Do ponto de vista da antropologia brasileira, é relevante hoje citar o trabalho de Eduardo Viveiros de Castro, que no livro A inconstância da alma selvagem investiga a questão do canibalismo indígena para pensá-lo de acordo com um modelo cultural que se pauta pelo "desejo de absorver o outro e, neste processo, alterar-se" (CASTRO, 2002, p. 207). Um mundo no qual o outro não é percebido como espelho do próprio, mas como pura alteridade a ser cobiçada. No campo artístico, especificamente no Modernismo brasileiro, a noção de antropofagia funcionou como metáfora para reivindicar uma atitude de assimilação crítica das ideias e modelos europeus pelos artistas nacionais. O manifesto antropófago de Oswald de Andrade estabeleceu diretrizes para discutir a cultura brasileira ao valorizar um processo de formação cultural que desloca a ideia da cultura nacional como cópia do estrangeiro (do modelo europeu), para enfatizar a devoração do outro como a base de seu processo constitutivo. Para Antoine Compagnon (1996) a escrita é um trabalho de citação, sendo a leitura – em seu processo seletivo de reter a atenção do leitor em determinados pontos do texto – uma espécie de fragmentação que ocorre de modo espontâneo, fazendo explodir o texto, desorganizando-o. Para o leitor, um livro não é nunca um todo homogêneo, há partes que são recortadas, eliminadas, descartadas ao longo da leitura. Trata-se de um processo seletivo, e se podemos pensar que o ato de escrita se dá com a retomada de outros textos anteriores, ele reencena a mesma dinâmica seletiva da leitura, recortando dos textos do passado aquilo que de algum modo constituirá a criação presente. No âmbito dos estudos da tradução ocorre um deslocamento semelhante: na contemporaneidade passa a vigorar a ideia da atividade de tradução não como cópia do texto original, mas como processo criativo e autoral. Os ensaios de tradução do poeta Haroldo de Campos vão ainda mais longe e evocam o movimento antropofágico oswaldiano para elaborar uma teoria da tradução não mimética, desierarquizante, e que opera por meio de uma devoração do outro (o texto original), de modo a produzir não exatamente uma tradução, mas o que ele chama de "transcriação". Nesse sentido, pensar a tradução implica investigar o papel preponderante que ela desempenha, tanto sob a forma de um intercâmbio cultural que pressupõe uma reflexão crítica sobre a tensão entre o próprio e o outro, como também no sentido de um ato de modificação e alargamento da língua do tradutor, que será de extrema importância para a prática poética. Para além do uso metafórico desse princípio extraído da cultura indígena, muitas foram as obras literárias que se inspiraram em seus mitos e narrativas, tomando-os como recurso de renovação estética. Atualmente percebe-se todo um movimento crítico que se propõe a dar a devida atenção a esse riquíssimo acervo cultural, ainda pouco conhecido e raríssimamente publicado. As "poéticas da floresta" ou "literaturas da floresta", como vêm sendo chamadas, na verdade sempre estiveram presentes em obras importantes da literatura brasileira, porém quase nunca o leitor tinha acesso direto a essas fontes, e quando isso ocorria, poucas vezes elas eram tratadas como "textos literários" dotados de uma estrutura poética particular. Além disso, suas traduções quase sempre privilegiaram o conteúdo, e não a forma dos textos. O simpósio se dispõe a acolher contribuições em torno destes três eixos: 1) discutir o trabalho de criação e de tradução (ou re/transcriação) de textos a partir de uma vertente antropofágica, o que implica em considerá-los como processos dialógicos e dialéticos de formação do próprio pela via da alteridade, a partir de projetos literários e tradutórios específicos; 2) investigar as diversas representações da prática antropofágica utilizada como metáfora cultural e tradutória para pensar a relação entre o próprio e a alteridade, o nacional e o estrangeiro; 3) averiguar em que medida o estudo e a tradução das artes verbais indígenas funcionam como fonte de reflexão crítica e estética, tendo atraído não somente a atenção de antropólogos, etnólogos e linguistas, mas também de poetas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: APTER, Emily. The translation zone : a new comparative literature. New Jersey: Princeton University, 2006. BENJAMIN, Andrew. Translation and the nature of philosophy. London/ New York, Routledge, 1989. BERMAN, Antoine. L'Épreuve de l'étranger. Critique et traduction dans l'Allemagne romantique. Paris: Gallimard, 1984. ------. Pour une critique des traductions: John Donne. Paris: Éditions Gallimard, 1995. ------. La traduction et la lettre ou l'auberge du lointain. Paris : Seuil, 1999. ------. L'Âge de la traduction. "La tâche du traducteur" de Walter Benjamin, un commentaire. Saint-Denis : Presses Universitaires de Vincennes, 2008. BRITTO, P. H. Tradução e criação. In: Cadernos de tradução IV. Florianópolis: UFSC, 1996. CAMPOS, Haroldo de. "A palavra vermelha de Hörderlin". In: ______. A Arte no Horizonte do Provável. 4ª ed. São Paulo: Perspectiva, 1977. p. 93-1128. ––––––. "Da razão antropofágica: diálogo e diferença na cultura brasileira". In: Metalinguagem & outras metas. São Paulo: Perspectiva, 1992, p. 231-255 ––––––. "Da Tradução como Criação e como Crítica". In: ______. Metalinguagem & Outras Metas. São Paulo: Perspectiva, 1992, p. 31-48. ––––––. "Transluciferação Mefistofáutica". In:______. Deus e o Diabo no Fausto de Goethe. São Paulo: Perspectiva, 1981, p. 179-209. CASSIN, Barbara (ed.). Vocabulaire Européen des Philosophies. Dictionnaire des Intraduisibles. Paris : Éditions du Seuil, 2004. ------. « Philosopher en langues », in Julia Kristeva (dir.) Des expériences intérieures pour quelles modernités ?, Nantes, Éditions Cécile Defaut, 2012. CESARINO, Pedro de Niemeyer. Poética do xamanismo na Amazônia. São Paulo: Perspectiva/FAPESP, 2011. ______. Quando a terra deixou de falar: cantos da mitologia marubo. São Paulo: editora 34, 2013. COMPAGNON, Antoine. O trabalho da citação. Belo Horizonte: UFMG, 1996. DERRIDA, Jacques. « Des tours de Babel ». Psyché. Inventions de l'autre. Paris : Galilée, 1987. ------. Le monolinguisme de l'autre : ou la prothèse d'origine. Paris : Galilée, 1996. ------. De l'hospitalité. Paris : Calman-Lévy, 1997. ¬¬LERY, Jean de. Viagem à terra do Brasil. São Paulo: Itatiaia/USP, 1980 MÉTRAUX, Alfred. A religião dos tupinambás. São Paulo: Companhia editora Nacional/Editora da Universidade de São Paulo. 2ª edição, s/d MONTAIGNE, Michel de. Dos canibais. São Paulo: Alameda, 2009 RICOEUR, Paul. Sur la traduction. Paris: Bayard, 2004. ROCHA, João Cezar de Castro (Org.). Antropofagia hoje?: Oswald de Andrade em cena. São Paulo: É Realizações, 2011. SÁ, Lucia. Literaturas da floresta: textos amazônicos e cultura latino-americana. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2012. STADEN, Hans. Duas viagens ao Brasil. Porto Alegre: L&PM, 2009 SELIGMAN-SILVA, Márcio. O local da diferença: ensaios sobre memória, arte, literatura e tradução. São Paulo: editora 34, 2005. VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A inconstância da alma selvagem. São Paulo: Cosac Naify, 2002.

John Milton (USP)
Paula Godoi Arbex (UFU)

Como afirma Lia Wyler (2003), a historiografia da tradução é uma área do conhecimento híbrida, pois não aborda apenas as traduções, mas as diversas circunstâncias de sua produção, em cada período e em cada país, "todas muito diferentes entre si". Para Antony Pym (2010), traduzir é uma maneira de falar sobre o mundo, uma vez que a tradução realiza uma intervenção na história das ideias e das práticas das sociedades. A partir de tais perspectivas, o propósito deste simpósio é o de abrigar uma ampla gama de pesquisas historiográficas em tradução, relativas a diferentes épocas e contextos, de dentro e de fora do Brasil. Tomadas como fenômeno abrangente na relação entre culturas e linguagens, as traduções podem ser vistas como forças motrizes no desenvolvimento de sociedades, presentes na construção de identidades nacionais e sujeitas à influência de fatores econômicos e culturais. Por sua abrangência e relevância, a historiografia da tradução é uma área de interesse crescente para pesquisadores, com diversas publicações no últimos anos. Atribuindo novas dimensões aos estudos neste campo, Lieven D'hulst, em seu artigo "Why and How to Write Translation Histories" (2001), publicado em Emerging Views on Translation History in Brazil, fornece novas possíveis balizas para pesquisas e pesquisadores, incluindo os participantes deste simpósio. D'hulst divide seu artigo em várias seções, cada uma com um título em latim: Quis? (Quem?) Quem foram os tradutores? Exerciam outras profissões ou dependiam somente de traduções? O que sabemos sobre suas vidas? Quantos anos tinham? A quais classes sociais pertenciam? Quantos eram mulheres? Tinham algum tipo de treinamento para seu ofício de tradutor? Traduziam conforme certos conceitos ou poéticas? Eram estrangeiros ou filhos de estrangeiros? Quid? (O quê?) Temos de saber o que foi traduzido, para construir um tipo de arqueologia sobre o qual podemos elaborar nossas análises e teorias. O que não foi traduzido? E o que foi escrito sobre a tradução? De quais escolas de crítica vieram esses comentários? Ubi? (Onde?) Onde foram publicadas as traduções? Em La Republique Mondiale des Lettres (1999) Pascale Casanova descreve Paris como a capital mundial das letras até a segunda grande guerra. Desde então Paris perdeu parte de sua hegemonia, mas as grandes capitais ainda atraem tradutores e estudantes de tradução, embora, hoje em dia, com os avanços da Internet, seja possível aos tradutores morarem longe dos grandes centros. D'hulst também pergunta sobre a distribuição geográfica de teorias sobre a tradução. Quibus auxilius? (Quem ajuda?) Quem banca as traduções? Onde os tradutores podem conseguir financiamento, sobretudo os tradutores de obras literárias que não são comerciais? Antigamente, com mecenas ou reis; hoje em dia, com as agências de pesquisa, os programs de apoio à tradução, ou mesmo grandes empresas que, por meio de leis de incentivo, podem fomentar traduções. Cur? (Por quê?) Por que são feitas as traduções? Às vezes parece haver uma falta de lógica nas decisões editoriais: por exemplo, por que foram publicadas, no Brasil, dez traduções de Wuthering Heights e várias traduções dos poemas de John Donne, Charles Baudelaire, Edgar Allan Poe, e nenhuma dos de Robert Browning e Alfred Lord Tennyson? Uma resposta poderia ser encontrada na importância dos intermediários, os gatekeepers: os editores; os professores de literatura que muitas vezes são tradutores; os críticos literários. Quo modo? (De qual maneira?) Como foram feitas as traduções? Quais eram as normas que os tradutores seguiam? Cum? (Quando?) Em quais épocas são feitas as traduções? Por exemplo, o número de traduções publicadas aumentou muito no Brasil nas décadas de 1930 e 1940, e o período entre 1942 e 1947 foi chamado "A Idade de Ouro da Tradução". O oitavo e último ponto é Cui Bono? (Para quem?). Trata-se da recepção das traduções, de quem são seus leitores, e do uso que delas se faz, aspectos muito pouco estudados. Assim, serão afeitos a este simpósio trabalhos acerca de temas tais como: tradutores e suas biografias, projetos de tradução no Brasil e no mundo, escritas sobre a tradução, políticas de incentivo à tradução, traduções de determinados autores/obras, padrões editorias para a tradução, público leitor de traduções, agentes da tradução, entre outros. Espera-se que os trabalhos apresentados nesse simpósio e o debate por eles suscitados venham a contribuir para a busca de parâmetros para as novas teorias em historiografia da tradução e que possam resultar, ainda, em mais uma publicação significativa na área. D'HULST, Lieven. Why and How to Write Translation Histories. Crop (FFLCH-USP), n° 6, 2001, Número especial: Emerging Views on Translation History in Brazil. Org. John Milton, p. 21-32. MILTON, John; MARTINS, Márcia. "Apresentação – Contribuições para uma Historiografia da Tradução", Tradução em Revista, n° 8, 2010/1. Eds. John Milton e Marcia Martins, p. 1-10. PYM, Antony. Exploring Translation Theories. London & New York: Routledge, 2010. WYLER, Lia. Línguas, poetas e bacharéis: uma crônica da tradução no Brasil. Rio de Janeiro: Rocco, 2003.

Marcos Vinícius Scheffel (UFRJ)
Gleidys Meyre da Silva Maia (UEA)

A tradição historiográfica no ensino da literatura no Brasil data de meados do século XIX e se estende até os dias atuais. Foi nos currículos do Colégio Pedro II que se operou a passagem da antiga retórica para um modelo apoiado em métodos considerados então científicos (CEREJA, 2005). Essa forma de se abordar a literatura – que substituiu o texto literário por simulacros ou fragmentos de textos literários, informações bibliográficas dos autores, marcos históricos generalizantes, periodismo literário como objeto de avaliações – deitou fortes raízes na escola brasileira. Trata-se de um modelo educacional de caráter enciclopédico que dificilmente forma leitores de literatura, comprometendo a consolidação do sistema literário brasileiro ao acentuar a debilidade da relação entre autores, obras e público. Mesmo havendo orientações oficiais nos Parâmetros Curriculares Nacionais que condenam o mero ensino de historiografia da literatura, essa tradição resiste em manuais, em exames de avaliação, na formação dada pelos cursos de Letras e na prática diária de muitos professores. Assim, obras canônicas não são lidas na escola e a renovação do cânone, que também poderia se dar no espaço escolar, fica como um ideal distante. Sobrevive o discurso sobre a importância da leitura, sem que as obras que fundamentariam essa prática sejam efetivamente lidas e problematizadas. Diante desse quadro bastante conhecido, assistimos ao gradual desaparecimento da literatura não apenas dos currículos, mas principalmente das práticas cotidianas da sala de aula. Tal desaparecimento está ligado a uma série de mudanças da função da literatura, que ocupou no campo das ideias papel central no século XIX e que viu essa importância ser diminuída por avanços da técnica e por transformações no campo social ( SODRÉ, 2012). Nesse cenário em mutação, os promotores da leitura escolar devem estar atentos as transformações nas práticas leitoras na sociedade, como assinala Néstor García Canclini (2008, p.18): "A educação e a formação de leitores e espectadores críticos costumam frustrar-se pela persistência das desigualdades socioeconômicas, e também porque as políticas culturais se desdobram num cenário pré-digital". Apesar dos problemas assinalados por Canclini, autores e leitores possuem na rede mundial de computadores um espaço de encontros e desencontros. A leitura crítica e criadora dos textos eletrônicos provoca mais uma reviravolta no enigma da escrita, originando uma reconfiguração do papel do autor e, por extensão, do leitor. As passagens da literatura do meio impresso para o meio digital são temas constantes de estudos ciber/culturais/literários, e são apropriados, pois apresentam teorias a partir de abordagens especializadas, estabelecendo outros limites, fronteiras, datas, processos criativos, movimentos poéticos, reabertura do cânone literário, obras de tiragem limitada e esquecidas pela crítica literária, etc. É nesse universo conceitual que o ensino da literatura deve também investir esforços, uma vez que a atual geração de alunos–leitores já elege a rede e o mundo cibernético como modelo de pensamento (MUSSO, 2004). A nós, professores-leitores, resta questionar sobre as formas literárias emergentes do mundo cibernético, sobre os espaços de criação e de leitura e sobre as dimensões cognitivas entre leitores e hipertextos. O presente simpósio pretende reunir trabalhos que problematizem o ensino da literatura na escola brasileira a partir de novas perspectivas, procurando traçar comparações com outros modelos possíveis, que se filiem a tradições do ensino da literatura de base dialógica, construtivista e sócio-interacionista. Serão aceitas experiências bem sucedidas realizadas em escolas, graduações em Letras, cursos de formação de professores e em outros ambientes de formação de leitores literários (bibliotecas, oficinas, círculos de leitura) e também pesquisas ligadas ao ensino da literatura. Entende-se aqui que o letramento literário (COSSON, 2012) deve propiciar experiências estéticas significativas, articulando-se com os multiletramentos e com os letramentos intersemióticos (STREET, 2014;), além de colocar o aluno do ensino básico em contato com questões ligadas à alteridade e à construção de um olhar sobre si. Sob essas perspectivas, o professor não é o transmissor de conhecimentos enciclopédicos, mas o mediador, o negociador de sentidos possíveis para os textos, organizando e sistematizando a percepção dos seus alunos para níveis mais sofisticados de leitura, criando atividades significativas, transitando entre autores contemporâneos e os já consagrados pelo cânone escolar, selecionando autores e obras de diferentes tradições. Referências bibliográficas CANDIDO, Antonio. Literatura e subdesenvolvimento. In: A educação pela noite. 6ª ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2011. (p.169-196) _____________. Literatura e sociedade. 11ª ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2010. CEREJA, Willian Roberto. Ensino de literatura – uma proposta dialógica para o trabalho com a literatura. São Paulo: Atual, 2005. COLOMER, Teresa. Andar entre livros – a leitura literária na escola. Tradução Laura Sandroni, São Paulo: Global, 2007. COSSON, Rildo. Letramento literário – teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2012. GARCÍA CANCLINI, Néstor. Leitores, espectadores e internautas. Tradução Ana Goldberb. São Paulo: Iluminuras, 2008. MUSSO, Pierre. A filosofia da rede. In: PARENTE, André (Org.). Tramas da rede: novas dimensões filosóficas, estéticas e políticas da comunicação. Porto Alegre, Sulina, 2004. P. 17-38. STREET, Brian V. Letramentos sociais – abordagens críticas do letramento no desenvolvimento, na etnografia e na educação. Tradução Marcos Bagno. São Paulo: Parábola, 2014, SODRÉ, Muniz. Reinventando a educação – diversidade, descolonização e rede. 2ª ed. Petrópolis/RJ: Vozes, 2012.

Francisco Antonio Ferreira Tito Damazo (UniToledo)
Mônica Luiza Socio Fernandes (UNESPAR)

Este simpósio é um espaço para reflexões e discussões sobre as relações entre a literatura e outras artes (música, pintura, dança, cinema, teatro). O estudo comparativo entre artes e obras literárias, fundado na relação interartística, tem se apresentado de forma eficaz quanto à capacidade de envolver e seduzir o leitor, constituindo o ponto inter-relacional para o diálogo entre obras literárias, na perspectiva da intertextualidade, bem como entre a literatura e outros sistemas semióticos artísticos. Afinal, já em si mesma, a complexidade do literário se configura envolta por camadas cuja natureza, espelhada por sua linguagem, suscita perceptíveis traços homológicos com outras linguagens artísticas. Este espaço se abre também para experiências de leitura literária pela ótica das artes vivenciadas no ensino da literatura, seja no âmbito da literatura oral, seja no âmbito da expressão da arte literária por meio dessas outras artes, ou nas homologias possíveis de serem estabelecidas entre elas, como, por exemplo, através da musicalização de poemas, ou ainda pelas letras de canções da música popular brasileira que atingem a categoria de poesia; seja na possível visualização da obra de arte por meio das artes plásticas, ou mesmo da encenação de obra literária. Este procedimento tem demonstrado em atividades voltadas aos estudos e à pesquisa o grande interesse por parte de metodologias educacionais contemporâneas, considerando que os diferentes se compõem no todo. O propósito é tornar este espaço aberto para as pesquisas que propendam à investigação das mais diversas e sutis relações entre a literatura e as outras artes, dando, assim, mais visibilidade às múltiplas possibilidades dessa instigante atividade de pesquisa. É público e notório, nos dias de hoje, o avanço do conhecimento por meio da inter-relação entre as mais diversas áreas das ciências e, por conseguinte, das artes. É consensual também o entendimento de que não se pode perder de vista que as coisas, os seres são um todo, de cuja relação integrada e interacional depende a plenitude de sua existência. Nesse sentido é que se pode afirmar que as mais diversas manifestações artísticas, guardadas suas especificidades, permitem-se dialogicidades múltiplas consubstanciadas em proximidades e diferenças. Aproximam-se pelo fato de que, dentre outros, todas elas têm o estético como primeira plana. Este é o dínamo de seus fazeres. Move-as o belo como fator e resultado de uma expressão que, sem obliterar a realidade, constrói – e com ela simultaneamente se constrói – uma linguagem elevada à categoria do inusitado, do singular, em que a ética e a moral se estabelecem sob o primado do estético. O olhar arguto do artista faz-se pelo viés da percepção desautomatizada. Suas inquietações e inconformismos, instigados por fina sensibilidade e visão crítica do mundo em que se inserem, fazem-no criar a obra de arte, cuja dimensão poética não se alinha com este seu universo e tampouco dele se desaliena. Ao contrário, configura-se como uma realidade, cuja beleza consiste na confluência da capacidade de emocionar, sensibilizar, ao mesmo tempo em que confronta. Este procedimento, reitere-se, é particular e comum a todas as artes. E sua comparação, tomando cada uma com sua forma e linguagem, pode conduzir à consecução de realidades e visões daí resultantes, mas com percepções também diferentes. Assim é que suas diferenças, em razão de suas peculiaridades, permitem olhares múltiplos muitas vezes sobre os mesmos temas, possibilitando leituras diversas e pertinentes. Compará-las, confrontá-las, sem dúvida, abrem para dimensões de sentido, ampliando o campo de análise, interpretação e compreensão da realidade. A esse respeito, em sua clássica Obra Aberta, Umberto Eco diz que "Das estruturas que se movem até aquelas em que nós nos movemos, as poéticas contemporâneas nos propõem uma gama de formas que apelam à mobilidade das perspectivas, à multíplice variedade das interpretações. Mas vimos também que nenhuma obra de arte é realmente "fechada", pois cada uma delas congloba, em sua definitude exterior, uma infinidade de leituras possíveis." (Eco, 1969). Portanto, é pautando-se nessas reflexões que este simpósio propõe-se a dar continuidade a um trabalho de pesquisa iniciado em 2007, quando da sua primeira proposição, e pelos simpósios seguintes dos Congressos da Abralic de 2008, 2010 e 2013, cujos resultados podem ser observados em publicações, troca de experiências e participação de pesquisadores em grupos de pesquisa em diversos centros acadêmicos, enriquecendo a amplitude do conhecimento da Literatura Comparada.

Referências Bibliográficas

BOSI, Alfredo. Reflexões sobre a arte. São Paulo: Ática, 1985
ECO, Umberto. Obra Aberta: Forma e indeterminação nas poéticas contemporâneas. São Paulo: Perspectiva, p. 67, 1969.
____. A Definição da Arte. Tradução José Mendes Ferreira. Rio de Janeiro: Elfos Ed., Lisboa: Edições 70, 1995.
GONÇALVES, Aguinaldo José. Laokoon Revisitado: Relações Homológicas entre Texto e Imagem. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1994.
OLIVEIRA, Solange Ribeiro de. Literatura e Música. São Paulo: Perspectiva, 2002.
OLIVEIRA, Valdevino Soares de. Poesia e Pintura – Um Diálogo em Três Dimensões. São Paulo: UNESP, 1999.
TODOROV, Tzvetan. A Beleza Salvará o Mundo: Wilde, Rilke e Tsvetaeva: os aventureiros do absoluto. Tradução Caio Meira. Rio de Janeiro: DIFEL, 2011.

Roniere Silva Menezes (CEFET-MG)
Rachel Esteves Lima (UFBA)

Este simpósio propõe-se a estabelecer reflexões em torno do comum e seus afins (o homem comum, o qualquer, a comunidade, a multidão, o viver junto, a vida ordinária, o prosaico, o cotidiano, o resto). Tratando de tema caro à contemporaneidade, o encontro almeja focalizar textos literários, canções, fotografias e filmes de autores brasileiros contemporâneos. Tendo como base teórico-conceitual pensadores como Georges Didi-Huberman, Giorgio Agamben, Jean Luc-Nancy, Paolo Virno, Michel de Certeau, Jacques Rancière e Walter Benjamin, pretende-se verificar a novidade do tratamento dado ao comum nos objetos de estudo – em termos estéticos, culturais e políticos – e avaliar em que medida eles podem contribuir para o debate atual sobre o assunto. Interessa-nos investigar diversas nuanças que a ideia do comum adquire na produção artístico-literária brasileira contemporânea. Desejamos abordar sua linguagem, plasticidade, mobilidade; refletir sobre as múltiplas imagens do comum, sua reincidência e estetização. Na proposta, noções como as de "lugar comum", "senso comum" podem receber novas formulações de sentido, apontando para uma diferente maneira de lidar com os diversos saberes, experiências e criações humanas, distante das formas hierárquicas tradicionais. Quanto ao conceito de homem comum, este existe em existe em trânsito, em devir. Pauta-se prioritariamente pelo desejo. Seu objetivo é desafiar os limites impostos pelos dispositivos disciplinares. Isso pode ocorrer a partir do não agir, do direito que se dá a não responder afirmativamente aos imperativos da modernidade. O homem comum não pertence a uma classe ou grupo. Não se prende ao destino, expõe-se ao acaso, ao abandono. Desconstrói a ideia de identidade, substância, essência e representação política tradicional. A experiência ética se dá ao se desatarem potencialidades adormecidas na vida cotidiana. De acordo com Agamben, o homem comum é também aquele capaz de profanar. O termo pode significar o gesto de libertação da asfixia consumista contemporânea na busca por novos contatos com a impessoalidade, com a vida compartilhada. Um outro ponto de vista a ser adotado, nas discussões do simpósio, refere-se à ideia de multidão. Antonio Negri e Michael Hardt, escrevendo sobre a multidão, argumentam existir, nela, um tipo de inteligência e de troca coletiva que a aproxima da imagem de um enxame, em função de sua interatividade. Reunindo-se em torno de objetivos mais urgentes, os membros da multidão permanecem com suas demandas particulares. A cooptação da multidão pelos aparatos do poder torna-se mais difícil, pois ela foge aos essencialismos identitários e às demandas coletivas que tendem a eliminar as diferenças entre as propostas em prol de um objetivo homogêneo. Paolo Virno referenda a importância do conceito de multidão assinalando a distinção entre o conceito de popular e essa nova modalidade de pensamento relativo a agenciamentos dos homens na cidade contemporânea. Para Virno, o povo tende à convergência numa vontade geral, enquanto a multidão é múltipla, plural e não cria laços com o poder soberano, inclinando-se para formas de democracia não representativa. Jacques Rancière também contribui para o debate proposto. De acordo com o pensador, a estética da política consistiria em reformular a partilha do sensível que define aquilo que é comum em uma comunidade. Para isso, seria necessário evidenciar novos sujeitos e objetos que eram tidos como invisíveis e dar voz àqueles que não eram ouvidos. O discurso da modernização normalmente apresenta-se distante das simples contingências cotidianas. Os parâmetros que o dirigem relacionam-se à racionalidade técnica, à disciplina, às planilhas e às projeções, ao cálculo operacional, ao discurso matemático. Por outro lado, as expressões criativas vinculadas ao cotidiano relacionam-se à produção imaterial: ao afeto, à comunicação, à cooperação, à invenção do homem comum. Relendo filósofos e pensadores contemporâneos que tratam da temática do comum e da biopolítica, Peter Pál Pelbart contribui com o debate proposto, assinalando que qualquer pessoa – qualquer um – detém a capacidade de invenção: no costume, no lazer, na conversa, etc. A criação não é algo inerente aos gênios, nem está presa à indústria ou à ciência; ela revela-se como traço constituinte do homem comum, como sua potência. A ideia deste simpósio parte de discussões que vêm sendo desenvolvidas no Núcleo de Estudos ATLAS (Análises Transdisciplinares em Literatura, Arte e Sociedade), registrado no CNPq e vinculado ao CEFET-MG. O simpósio almeja promover trocas de experiências entre pesquisadores que têm se debruçado sobre a questão do comum, visando contribuir para o avanço dos estudos em literatura comparada no Brasil.

Referências bibliográficas:

AGAMBEN, Giorgio. A comunidade que vem. Lisboa: Editorial Presença, 1993.
BARTHES, Roland. Como viver junto. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. Trad. Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1989. (Obras escolhidas, v. 1).
BLANCHOT, Maurice. A comunidade inconfessável. São Paulo: Lumme Editor, 2013.
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. 12. ed. Petrópolis: Vozes, 1994.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Peuples exposés, peuples figurants. L´oil de l´histoire, no. 4. Paris: Les Editions de Minuit, 2012.
NANCY, Jean-Luc. The inoperative community. Translated by Peter Connnor, Lisa Garbus, Michael Holland, and Simona Sawhney. Foreword by Christopher Fynsk. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2006.
PELBART, Peter Pál. Vida capital: ensaios de biopolítica. São Paulo: Iluminuras, 2003.
RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: EXO experimental org.; Editora 34, 2005.
VIRNO, Paolo. Gramática da multidão. Disponível em: http://www.ufrgs.br/corpoarteclinica/obra/paolo.prn.pdf. Acesso em: 05 jul. 2010.

Marie Helene Torres (UFSC)
Luana Ferreira de Freitas (UFC)

Antoine Berman (1986) afirma que é necessário que a tradução assuma uma função especulativa para possa ser "crítica e comentário de si mesma" e que "onde a tradução termina (e toda tradução conhece um ponto de parada) começa o comentário". A tradução situa-se como o espaço da leitura original e singular pela qual um tradutor transplanta um texto em outra cultura, iniciando uma recepção nova do autor que ele traduz em outro sistema literário e cultural. Berman entende o comentário como glosa de sentido, de figura e de interpretação ao redor de um texto traduzido. Muitas páginas foram escritas para defender a visibilidade do tradutor no texto traduzido, e, se por um lado, essa discussão parece infindável dado o caráter movediço da questão, a autoria do paratexto parece não ser questionada. Gérard Genette conferiu três características básicas ao paratexto: a natureza funcional, a subordinação ao texto a que se refere e a descontinuidade. Segundo Genette, o elemento paratextual subordina-se ao texto em si e tem na funcionalidade sua característica inerente. A descontinuidade, por sua vez, associa-se a esta funcionalidade, uma vez que o emprego do paratexto depende de contingências temporais e socioculturais. Além do paratexto, ou melhor do discurso de acompanhamento, a tradução comentada leva o pesquisador a se questionar sobre o papel fundamental que exerce a tradução. Podemos afirmar que, idealmente, todo tradutor procura saber se existem outras traduções do texto que vai traduzir, seja na mesma língua para a qual traduz, seja para outras línguas que ele domina. Essas traduções servem, portanto, de modelo, na opinião dos teóricos das DTS (Descriptive Translation Studies) como Gideon Toury ou ainda José Lambert. A retradução, no sentido de traduzir de novo e de forma diferente, implica fazer uma tradução outra, diferente, pois traduções não são a-históricas, já que foram feitas num determinado tempo e espaço, para um determinado público-leitor. Antoine Berman (2013) distingue dois espaços e, por consequência, dois tempos de tradução: os das primeiras traduções e os das retraduções. Ainda de acordo com Berman, qualquer tradução envelhece, principalmente as traduções dos clássicos da literatura mundial. Para ele, a retradução tem um sentido histórico e cultural específico, o de renovar o acesso a obras apagadas, esquecidas. É como se as primeiras traduções fossem consideradas como traduções-introduções, e as retraduções, pelo contrário, teriam como função mostrar a outra cultura, revelar as idiossincrasias da outra cultura, o que implica em exotizar o texto traduzido, ao invés de naturalizá-lo. É por meio de traduções e retraduções que textos já canônicos nos seus sistemas literários de origem ganham novo fôlego, nova vida, nos sistemas literários para os quais são traduzidos. Textos fundadores são geralmente traduzidos e comentados. Pode-se citar a tradução de textos sagrados como fundadora da tradução comentada. A pesquisa em tradução comentada é cada vez mais comum na academia, pois além de partir do exercício da tradução em si, trabalha com a crítica e a história da tradução e promove uma autoanálise por parte do tradutor-pesquisador acerca da tradução na sua relação com o comentário. Entendemos que a tradução é apreendida como novo espaço e perspectiva de leitura que projeta o texto (e o seu autor) em outra literatura/cultura para a qual ele não foi originalmente escrito. Entendemos igualmente que o comentário funciona como reescrita da tradução, em espelho, e objetiva dialogar com a cultura de chegada. O comentário consiste, propriamente, na análise de tradução de um texto original e pode, por exemplo, se concentrar na análise lexical, sintática, estilística, cultural, ideológica, política etc., de um texto. Além do mais, o comentário explica e teoriza muitas vezes o processo de tradução, os modelos de tradução e as escolhas feitas pelos tradutores. Se não existe tradução sem interpretação, ou seja, sem o seu comentário implícito ou explícito, buscamos provocar respostas para a questão: Traduzir e/ou comentar? Este simpósio aceita comunicações que versem sobre tradução literária comentada e sobre tradução de textos teóricos de tradução literária, o papel autoral que os tradutores têm nesse discurso de acompanhamento e até que ponto os tradutores optam por se tornarem visíveis no paratexto que eles mesmos escrevem. Os participantes do simpósio podem também trabalhar com traduções de textos inéditos que agreguem uma análise teórica de sua própria prática de tradução ou comentário.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BERMAN, Antoine. "Critique, commentaire et traduction (Quelques réflexions à partir de Benjamin et de Blanchot)", in Po&sie, vol. 37, Paris: Librairie classique Eugène Belin, 1986.
______________. A prova do Estrangeiro. Tradução de Maria Emília Chanut. Bauru: EDUSC, 2002.
______________. A Tradução e a Letra ou o Albergue do Longínquo. 2ª edição. Tradução de Marie-Hélène C. Torres, Mauri Furlan, Andreia Guerini. Revisão de Luana Ferreira de Freitas, Marie-Hélène Catherine Torres, Mauri Furlan, Orlando Luiz de Araújo. Tubarão: Copiart / Florianópolis: PGET/UFSC, 2013.
GENETTE, Gérard. Paratextos Editoriais. Tradução de Álvaro Faleiros. São Paulo: Ateliê editorial, 2009.